Algumas músicas, bons vídeos e pensamentos vagos
15/05/2012 - 13:39:41
A pastora que foi ao inferno e conheceu o vale dos homossexuais
Estou sinceramente fascinado pela pregação da pastora Yonara Santo. Ela diz que foi 15 vezes para o inferno e sete vezes para o céu. Anjos a levaram em todas as visitas. Nestas idas e vindas, ela diz que conheceu o Vale dos Homossexuais, uma região onde, claro, ficam as almas de homossexuais, todos condenados por essa condição. Ela não foi nem uma nem duas, mas SEIS vezes para o Vale dos Homossexuais. A "missionária" também diz que há o Vale dos Traficantes. Ah sim: em um dado momento, ela afirma que o anjo falou para ela que não são só os homossexuais pecadores, mas também os que não são homossexuais mas aceitam a homossexualidade alheia. Isso é: é preciso condenar a homossexualidade. Sempre.
Antes de tudo, no comecinho do discurso, ela diz que foi lésbica, satanista e traficante, mas que depois de dois anos, está liberta disso tudo e agora têm revelações deste porte.
Eu nunca tinha ouvido algo sobre fazer visitas ao inferno ou ao céu. Ela deixa entender que encontrou no inferno de PC Farias a Roberto Marinho, que parou lá por conta das novelas e está sendo torturado. Segundo ela, o "dono da emissora das novelas" fica implorando no inferno para que seu filho que ficou no seu lugar se converta. Também encontrou um presidente da República.
Se você tiver paciência, clique AQUI para assistir o vídeo completo (tem mais de uma hora). Eu não tiro sarro dela não, tenho respeito absoluto pela fé alheia. E, em especial, sei como esse tipo de discurso é danoso para tanta gente. Para a pastora Yonara (e para tantos outros) existem os homens bons e homens maus. Os maus (e isso inclui os homossexuais) penarão no inferno. Ela mesmo viu todos ali, no tal vale. Os bons (claro, os cristãos, mas não todos, já que os que rezam para santos católicos também possuem sua área no inferno) vão para o céu. Mas ela praticamenete não fala como é o céu que visitou por sete vezes. Bem, assista aí.
Para saber como é o Vale dos Homossexuais segundo a Yonara, assista o vídeo abaixo a partir do minuto 9.
Escrito por Marcelo Cia às 13:39:41
12/05/2012 - 16:09:21
O novo momento do casamento gay
Seja por motivos eleitorais ou políticos. Seja por convicção. Não importa tanto. Para nós e para o mundo, o que importa é que a declaração de Obama em apoio ao casamento gay é um marco histórico e vai provocar no mundo todo discussões sobre o assunto. Nunca antes na história o assunto "casamento gay" ganhou tanta notoriedade. Nos Estados Unidos todos os jornais e todas as revistas que importam noticiaram o fato e suas implicações em suas primeiras páginas ou capa. No Brasil o assunto ainda não alardeou tanto. As revistas semanais (Veja, Época, Isto É e Carta Capital) mal falaram sobre o assunto. Apenas a Veja dedicou duas páginas ao anúncio de Obama, numa análise do correspondente André Petry mais focada nos dividendos políticos do fato do que nas implicações sociais. As outras revistas deram de ombros, mais preocupadas com as fotos da Carolina Dieckman.
Já nos Estados Unidos, a repercussão é tamanha. O diário "Boston Globe" cita como a declaração de Obama repercutiu em países africanos, da América Latina e da Ásia. Também afirma que a política externa norte-americana pode radicalizar sanções a países que criminalizam a homossexualidade, como alguns africanos e do Oriente Médio.
Outros jornais afirmam que Obama estava mais interessado em fazer essa declaração nas vésperas da convenção democrática, em setembro, mas seu vice Joe Biden, no dia 6, disse ser favorável ao casamento gay e provocou o adiamento do pronunciamento presidencial sobre o assunto.
Até aqui, Obama só colheu louros. Além de resgatar a admiração de jovens democratas que andavam desconfiados da coragem do presidente, sua campanha nunca arrecadou tanto dinheiro em tão pouco tempo. Em um jantar oferecido pela elite de Hollywood na cada de Geroge Clooney logo depois do anúncio ele saiu com 15 milhões de dólares (três milhões a mais do que esperava); e as doações de eleitores bateram recorde após a famosa entrevista à ABC. Na segunda-feira é a vez de Ricky Martin ser mestre-de-cerimônia de um evento para arrecadar fundos para a campanha de Obama. Tudo indica que será mais um recorde de arrecadação. A comunidade gay norte-americana é muito rica. Mesmo. E, em especial, é unida quando o assunto é a defesa de seus interesses.
Por aqui, ainda que o anúncio de Obama não tenha ainda provocado tanto auê, resta aglutinarmos a população gay, mostrar força finaceira, midiática e (porque não?) política.
Como? Nem eu sei. Mas juro que estou pensando.
Escrito por Marcelo Cia às 16:09:21
10/05/2012 - 20:27:06
Os riscos de Obama
Dizem que na política quem não tem lado não tem torcida. O que Barack Obama fez ao assumir posição favorável pelo casamento gay foi sair de cima do muro, onde estava há anos. Mas é claro que a decisão tem outras implicações. O casamento gay nos Estados Unidos divide o país. Segundo pesquisa do jornal Washington Post e da rede ABC, em 2004 os que eram contra o casamento gay superavam os favoráveis (55% a 41%). Hoje o jogo virou: 55% são favoráveis e 43% são contra. Tem mais: a população que se opõe tem idade mais avançada. Entre os jovens 78% da população norte-americana é a favor do casamento gay. Ao pronuciar-se favorável ao casamento gay, Obama fideliza esse eleitor, que andava meio desconfiado achando que Obama era tímido e covarde, algo bem diferente daquele presidente destimido que encantou o mundo em 2008.
Tem mais: o partido democrata estima que 14% dos finaciadores de campanha de Obama sejam gays ou lésbicas e que eles respondem por mais de 20% do montante de dinheiro arrecadado. Um em cada 5.5 dólares veio de um gay. Isso não é pouco. O partido espera que após o apoio do candidato ao tema, mais gays se entusiasmem pela campanha. Tanto é que assim que terminou a entrevista à ABC (quando falou que era a favor do casamento gay), Obama enviou um comunicado aos financiadores de campanha: "Sempre julguei que os gays e lésbicas deviam ser tratados com justiça. Durante anos, fui relutante em usar o termo casamento devido às poderosas tradições que evoca. Mas depois percebi que para os casais homossexuais negar-lhes o direito a casarem-se é considerá-los aos seus olhos, aos olhos dos seus filhos, familiares e amigos cidadãos de segunda. Mais de 1,9 milhões de americanos como você ajudam a mover esta campanha. Se puder, faça uma doação hoje", pediu o Presidente americano.
Chris Cillizza, o influente cronista político do Washington Post, escreveu que "não é segredo para ninguém que, para vencer, o presidente Obama precisa de um apoio muito consolidado entre as pessoas entre 18 e 29 anos de idade - o grupo que mais apoia o casamento gay".
A política norte-americana é bastante polarizada. No Brasil as posições são mais difusas. Os partidos de "esquerda" que tradicionalmente apóiam os direitos humanos, têm medo de tomar posições para não perderem votos e alianças com os cristãos. Já os partidos de direita (se considerarmos o PSDB um deles) estão fora do governo e usam a defesa do casamento gay mais como afronta (afinal, se realmente fossem favoráveis, a questão teria andado no governo FHC, e isso nunca aconteceu). De qualquer forma, Geraldo Alckmin já disse que é a favor do casamento gay (para a revista JUNIOR em abril). O que há no Brasil, por enquanto, é uma classe política mais preocupada em ser reeleita do que em mostrar qualquer opinião relevante.
Escrito por Marcelo Cia às 20:27:06
09/05/2012 - 18:02:48
Sai do armário Dilma
Dilma, minha querida presidenta. Eu sei que você não lê esse blog. Quem me dera. Mas quem sabe algum assessor seu leia. Porque sei que você têm vários assessores gays. Tenho ido a Brasília bastante, viu? E conheci alguns. Pois então... Eu admiro a senhora e avalio muito bem seu mandato até aqui. Ainda acho, contudo, que a senhora esteja bastante retraída em alguns aspectos. A senhora tem coragem de enfrentar os bancos privados mas não tem coragem de asusmir posições progressistas em tantas áreas. Não falo só das questões LGBT não. E fica esse vulto em torno da senhora e de seu governo: afinal, a Dilma é a favor ou contra o aborto? E o casamento gay? E a reforma agrária? E os movimentos sociais? Ninguém sabe responder. E ninguém pode responder pela senhora.
Veja como exemplo o que fez seu colega Obama. A campanha por lá mal começou e começaram a fazer uso político do casamento gay. Pressionaram o Obama. Coisa que a senhora sentiu na pele há pouco. E o que ele fez? Ficou em cima do muro? Não, imagine. Discursou a favor do casamento gay. E olha que o Instituto Gallup divulgou ontem uma pesquisa mostrando que 50% dos americanos é favorável ao casamento gay (metade-metade). Até no Brasil a proporção é maior: 53% é favorável.
Eu torço para que a senhora também seja favorável. Na verdade eu acredito fielmente que é. Então isso significaria que senhora está no armário. Não estou dizendo nada em relação a sua sexualidade. Mas em relação às suas convicções.
E eu entendo de armário. Ainda que nunca tenha me sentido bem dentro dele. A minha experiência de "armário" passou faz tempo e ninguém nunca se importou com isso. Mas a senhora é a presidenta do Brasil. É uma das mulheres mais poderosas do mundo. E posso te garantir que no dia que a senhora sair do armário, vai perceber que esse tempo que passou nele foi uma enorme perda de tempo. "Em um determinado momento eu concluí que para mim, pessoalmente, é importante ir em frente e afirmar publicamente que eu acho que casais do mesmo sexo deveriam poder se casar", disse o presidente norte-americano. Tanto quanto a senhora, ele também já ficou no armário: "Eu havia hesitado sobre o casamento gay em parte porque eu achava que as uniões civis eram suficientes. Eu era sensível ao fato de que, para muitas pessoas, a palavra 'casamento' é algo que invoca tradições e crenças religiosas muito fortes", disse ele ao explicar o motivo pelo qual nunca havia tomado essa posição favorável antes.
Dê uma olhada no discurso do Obama. Ah sim: a senhora duvida que ele vai ganhar as eleições?
Escrito por Marcelo Cia às 18:02:48
08/05/2012 - 15:41:21
Dois pais; duas mães
Deu na coluna da Mônica Bérgamo, replicando reportagem da revista Contigo que chega nesta quarta-feira às bancas: a atriz Ana Karolina Lannes, 11, a Ágata de "Avenida Brasil" (Globo), tem dois pais, Fábio Lopes, seu tio biológico, e João Paulo Afonso. Eles têm a guarda da garota há sete anos, desde que sua mãe morreu. "É tranquilo. Eles têm atitudes normais de pais: educam, repreendem, dão amor, carinho, ajudam quando preciso me arrumar. Tive uma babá que falava: ''Coitada de você quando menstruar e for namorar. Imagine você sozinha com dois homens (risos)!'' Mas tenho certeza de que, quando isso acontecer, eles vão saber o que fazer", disse a menina a publicação.
Ana Karolina já fez três novelas e, ao que tudo indica, tem uma vida feliz. É uma notícia que ajuda a desmistificar algo que ainda é um imenso tabu: crianças criadas por gays. É uma realidade cada vez mais comum. Na cidade de São Paulo, desde que a união estável foi permitida, 720 casais gays assinaram papeis. No Brasil já são 100 casamentos gays oficializados pela Justiça no mesmo período. Será natural que muitos destes casais busquem a Justiça novamente para adoção ou para registro de filhos biológicos. No Recife, um juiz garantiu o registro de uma menina gerada em reprodução assistida a um casal formado por dois homens. Na certidão da criança ela aparece tendo dois pais.
Ainda que exista muita reação contrária a essas resoluções da Justiça, esse é um caminho sem volta: é natural que crianças sejam criadas por pais gays ou lésbicas e não há como proibir isso, já que seria uma afronta contra a Constitução.
Escrito por Marcelo Cia às 15:41:21
07/05/2012 - 18:43:44
Um ano de união homoafetiva
Completou dia 5 de maio, sábado, um ano da decisão do Supremo que garantiu a união homoafetiva no Brasil. No estado de São Paulo foram 720 uniões neste período. Não há um levantamento amplo nos outros estados, mas é certo que milhares de pessoas já usufruiram deste direito. Ainda que tenham tentado derrubar a decisão do Supremo em outras esferas, em espeial no Legislativo, o direito a união homoafetiva parece não correr mais riscos. Ao contrário: é natural que haja uma ampliação do direito. Neste primeiro ano, a Justiça brasileira já converteu 100 uniões gays em casamento civil, uma, inclusive, a partir de decisão do STJ.
É possível que em algum momento o Supremo seja procurado para uniformizar essas decisões, o tornaria o casamento civil possível apra casais de homossexuais. Em outra frente, o deputado Jean Wyllys trabalha para que o casamento civil seja um direito constitucional. Para isso, faz tramitar uma PEC na Câmara dos Deputados e uma campanha pública, que já conta com adesão de artistas e intelectuais.
Jean conseguiu até aqui a assinatura de 110 deputados para que a PEC seja instalada (faltam pouco mais de 70 ainda). Quando conseguir, a PEC passa a tramitar de fato. Depois terá que passar por duas comissões da Casa e só então irá a plenário. Depois faz o mesmo percurso no Senado e, se aprovada sem mudanças substanciais, terá ainda que ser sancionada pela presidente. É um longo caminho. Mas é bom que se discuta o assunto de forma séria neste país.
Escrito por Marcelo Cia às 18:43:44
04/05/2012 - 12:20:13
CET multará carros que não respeitarem bicicletas
Uma das notícias mais legais da semana quase passou despercebida pela grande imprensa: o CET passará a aplicar multas a carros que não respeitarem bicicletas na cidade de São Paulo a partir do próximo dia 15 de maio. As multas, que podem chegar a R$ 574,62, além de sete pontos na CNH (Carteira Nacional de Habilitação), fazem parte de uma campanha da CET para tentar diminuir os acidentes na cidade. Só em 2011 foram 49 mortes de pessoas que circulavam de bicicleta pelas ruas de São Paulo. E o número de ciclistas em São Paulo não pára de crescer. O CET possui 2.4 mil fiscais em São Paulo e todo mundo que mora aqui sabe que eles não estão de brincadeira. Serão três tipos de multas: o carro deverá passar a 1.5 metro do ciclistas na via, não poderá "colar" na traseira da bike nem dar "fechada" nas coitadas.
Esses três artigos já estavam previstos no CTB (Código de Trânsito Brasileiro) mas nunca haviam sido colocados em prática.
É uma atitude que vai provocar polêmica entre os motoristas de carro. E com razão: não será fácil manter 1.5 metro de distância das bicicletas nas vias mais movimentadas já que esse espaço inexiste. Mas são medidas necessárias. O número de atropelamento de pedestres diminuiu drasticamente quando o CET passou a multar quem avançava na faixa e não respeitava calçadas e passeios públicos. Resta muito trabalho e educação de todos os lados. Os ciclitsas também deverão aprender a não usar corredores nem pedalarem na contra-mão (para trajetos assim, deverão descer da bicicleta e empurrar pela calçada).
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O governo federal vai liberar através do PAC Mobilidade 32 bilhões de reais para obras de transporte público (metrô, trens, corredores de ônibus) em cidades com mais de 700 mil habitantes. O plano foi divulgado na semana passada. Ótimo, mas nenhum dos projetos agraciados prevê obras de mobilidade para bicicletas. Acredita? Nem eu.
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Ainda em São Paulo: há estudos em estado avançado para a criação de estações para aluguel de bicicletas (como em Paris, com as velibs e tantas outras cidades grandes). As estações ficariam restritas ao centro expandido da cidade. Melhor ainda: o metrô estuda ampliar o horários de acesso das bicicletas. Pensam, até, em cadastrar as bicicletas de quem as usa como transporte diário (há, de fato, uma diferença entre quem usa biccileta para ir trabalhar de quem as usa para passear nos fins de semana), já que elas teriam vagões e horários mais flexíveis de entrada nas estações.
Eu acho que estamos indo bem :-)
Escrito por Marcelo Cia às 12:20:13
03/05/2012 - 15:26:50
Porque os vídeos gays do Ministério da Saúde para o carnaval sumiram?
Recebi hoje cópia das respostas que o Ministério da Saúde deu ao deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) sobre a suspensão de um vídeo dirigido a gays produzido como parte da campanha de conscientização ao HIV-Aids no carnaval. A resposta do Ministério é meio absurda e provoca mais perguntas ainda.
Vou recapitular os fatos. No dia 2 de fevereiro de 2012, jornais e revistas (Época, Veja, O Globo) publicaram a notícia de que a campanha do Carnaval 2012 que o Ministério da Saúde estaria colocando no ar era destinada a jovens gays de 15 a 24 anos. Os vídeos da campanha, um deles voltado para o público gay e o outro para o público heterossexual, retratavam casais prestes a ter relações sexuais sem camisinha quando são interrompidos por uma fadinha que lhes entrega um preservativo. Essas revistas e jornais haviam recebido neste mesmo dia 2 de fevereiro um release oficial do departamento de DST-Aids do Ministério da Saúde que anunciava a campanha. Leia trecho do release: "os filmes a serem transmitidos pela TV e internet apresentam situações em que os públicos-alvo da campanha – homens gays jovens e um casal heterossexual – encontram-se prestes a ter relações sexuais sem camisinha. Em ambos os filmes, surgem personagens fantasiosos – uma fadinha, no caso do filme do casal gay, e um siri, no do casal heterossexual – com uma camisinha."
Seis dias depois, no dia 8 de fevereiro, o vídeo "gay" foi retirado do site do programa de DST-AIDS do Ministério da Saúde, causando celeuma. Afinal, por que retirar do ar um material que já havia sido anunciado plenamente e manter o vídeo hétero? E, mais grave, vale ceder a manobras políticas quando se fala de Aids?
Segundo o jornal o Globo daquele dia, "o Ministério da Saúde determinou ao Programa de Aids, da própria pasta, que retirasse da internet o vídeo institucional com filme com cenas de uma relação homossexual entre dois homens, que seria exibida para a campanha do Carnaval."
Censura? Pressão? O deputado Jean Wyllys pediu explicações. O Ministério repondeu agora dizendo que "jamais poderá ser considerado homofóbico, o que pode se constatar pela própria equipe que dirige o depatarmento de DST-Aids do órgão, em boa parte de orientação LGBT". O Ministério da Saúde também negou que o material dirigido para gays foi suspenso. "Não houve suspensão de qualquer material de divulgação. Os vídeos foram todos veiculados conforme o planejamento da campanha. O que ocorreu é que, equivocadamente, o filme "Gays", previsto para veiculação restrita em ambientes fechados e voltados a esse público, foi inserido em uma versão making of (inacabada) na internet. Quando verificado o equivoco, o material foi retirado da rede".
A primeira "justificativa" é uma trombada frontal: é como uma pessoa racista que diz que "tem amigos negros" ou o homofóbico que diz cortar o cabelo com um homossexual. Me surpreende que esse conteúdo venha do Ministério da Saúde como primeira justificativa. A outra justificativa, de que foi inserido uma versão "making of" e que os vídeos foram produzidos para ambientes fechados, é de todo estranha: a começar que o vídeo (veja abaixo) não parece ter nada de inacabado. E depois, em especial, quais ambientes "restritos a esse público" são esses que o vídeo deveria ser exibido? Você, que visitou clubes e festas gays no carnaval, acaso viu esse vídeo sendo exibido? Pois eu estive nas maiores festas e não vi nadinha. O que o Ministério da Saúde parece ter feito com essas respostas, foi aumentar as perguntas e o mistério em torno desse vídeo. Fique com o vídeo e com as cópias da resposta do Ministério da Saúde.
Resposta do Minsitério da Saúde - parte I
Resposta do Minsitério da Saúde - parte II
Resposta do Minsitério da Saúde - parte III
Escrito por Marcelo Cia às 15:26:50
02/05/2012 - 15:33:53
A Aids que (ainda) mata
Dois conhecidos morreram em decorrência da Aids na ultima semana. Um com 29 anos e outro com 33. Ambos bem bonitos e animados. Eu nem imaginava que eles tinham o vírus. E nem eles. Em comum, ambos morreram porque não sabiam que estavam infectados. Esse é, hoje, o maior problema da Aids: morre quem não sabe que tem o vírus e quando descobre é tarde demais.
Vou explicar melhor: esses dois amigos já chegaram ao hospital com alguma doença oportunista (no caso, pneumonia). No hospital, como é praxe, os médicos pediram a coleta de sangue e só então eles souberam que tinham o HIV. E, pior, que o sistema imunológico já havia sido afetado de tal forma que o corpo não conseguia mais lutar contra a doença oportunista. Ainda que os médicos administrasseem o coquetel anti-HIV em altas doses, o corpo não reagiria a tempo. A pneumonia levou ambos a insuficiência respiratória e, consequentemente, à morte.
Por outro lado, tenho amigos (e são vários) que convivem muito bem com o tratamento anti-HIV e levam uma vida bem próxima do normal. Mas, claro, não é fácil para eles: são doses cavalares de remédios diários, exames periódicos e o preconceito todo que ainda sofrem. Ainda que com todos esses percalços, nunca vi nenhum deles que se tratam de forma séria ser internado ou ficar doente. Portanto, mil vezes saber que está com HIV e se tratar do que não saber e acabar no leito de um hospital entre a vida e a morte.
Passado o susto de saber que se está com HIV (ou o alívio de não estar) vem a hora de enfrentar o novo momento e há uma rede enorme de assistência médica e psicológica no Brasil para isso. Não tenha medo e vá se testar.
Escrito por Marcelo Cia às 15:33:53
27/04/2012 - 22:46:54
A importância das igrejas gays
A agência de notícias BBBC divulgou uma reportagem bem interessante sobre evangélicos gays. A matéria comenta o crescimento das igrejas inclusivas no Brasil (nome politicamente correto das igrejas evangélicas que aceitam gays, lésbicas e travestis entre seus fiéis e líderes sem que para isso eles tenham que deixar a homossexualidade de lado). Pois a BBC chegou ao número de 10 denominações como essa atuando no Brasil em 40 "templos" que juntos somam 10 mil fieis. Ainda segundo a nota, o número de igrejas inclusivas deve dobrar nos próximos cinco anos. A estimativa seria dos líderes dessas igrejas ouvidos pela BBC.
Esse é, de fato, um fenômeno muito novo no Brasil. Há dez anos só existia uma comunidade inclusiva no Brasil. Ficava em Santana (São Paulo) e chamava-se Acalanto. Eu fui a um culto. Era o casamento de duas mulheres. Uma entrou de noiva e outra de terno. Estava fazendo uma reportagem. Era um salão bem simples, com cadeiras de plástico branco. De lá para cá as igrejas inclusivas realmente mudaram e ganharam corpo. Hoje, com 10 mil pessoas em seus bancos, começa a ficar difícil para o mundo evangélico não notar sua presença.
As pessoas que chegam nas igrejas inclusivas vem de outras igrejas evangélicas ditas tradicionais depois de se sentirem (ou serem de fato) excluídas delas. Na mesma nota da BBC, o pastor Silas Malafaia diz que “segundo a Bíblia, homossexualidade é pecado. Na igreja evangélica, gay só entra caso queira se converter e, para isso, tem de se tornar heterossexual. É uma regra de Deus". AcreditEssa frase, por si, já mostra a dimensão que vivem gays e lésbicas dentro das igrejas tradicionais. Acredito que muitos destes gays evangélicos tentaram de fato deixar a homossexulidade para trás e alguns até passaram pelas tais terapias de conversão. Mas, como sabemos, isso é uma falácia.
E a fé é um pilar importante na vida de muita gente. Negar o direito à crença e a profissão de fé a alguém por conta de sua orientação sexual é de uma violência atrós. Ainda bem que existem hoje essas igrejas inclusivas e eu espero, finalmente, que elas sejam bem intencionadas e éticas.
Escrito por Marcelo Cia às 22:46:54
24/04/2012 - 23:40:08
Pelo fim, restam os meios
Você já deve ter lido a respeito da Panicat obrigada a raspar a cabeça em rede nacional. Pela audiência, claro. Deve ser a favor de cenas do tipo. Ou contra. Ou não ter opinião alguma, como é meu caso. Afinal, o cabelo é dela. A profissão é dela. Ela está no programa e aceita que a maltratem desse jeito por alguma razão. Eu não sei qual. Mas ela deve saber. Pouco importa o caso. Valem seus significados.
Os programas de TV precisam de audiência. As revistas precisam ser vendidas. Os jornais precisam de leitores. Mas não é só. A boate precisa de público, o político precisa de voto e o médico precisa de pacientes. O advogado então... Todos estão em busca de renovar suas audiências e seus públicos. E, em alguns casos, isso passa do limite do bom senso. É o médico que resolve oferecer um tramento arriscado por um preço menor; o advogado que passa por cima de qualquer ética (o caso do julgamento da menina morta pelo namorado é exemplar); o jorrnalista que publica uma mentira como sendo verdade; a revista que segue a mulher grávida pela rua até ela passar mal (e dar a foto dela vomitando, isso aconteceu); o programa de TV que provoca até a Hillary Clinton (também), a presidenta que se alia aos evangélicos para ganhar eleição em São Paulo... Todos se aproximam: apelam porque querem mais do que possuem. A justificativa é de se conseguir audiência (ou vendas, ou eleição, que seja). E em nome deste fim, vale tudo. Parece que vivemos numa grande agência de publicidade. Vender e fazer sucesso não é ruim, é ótimo. Mas a ética e o bom senso precisam prevalecer em qualquer situação. Ou deveriam.
Eu acredito que existam muitos que não concordem com a frase "os fins justificam os meios". Acredito piamente que tem muita gente que sabe como essas atitudes são danosas para a sociedade e as rechaçam.
Esse circo me parece bárbaro. Porque é.
Escrito por Marcelo Cia às 23:40:08
23/04/2012 - 12:31:48
Notícia para o senador Magno Malta ler - parte II
Ninguém gosta de escrever sobre mortes. Nem eu. Eu não gosto deste assunto. Aliás, detesto. Digo isso, contudo, para abrir mais uma notícia escabrosa de assassinato envolvendo um homossexual de 18 anos. Ele foi morto em sua casa na cidade de Muriaé, estado do Rio de Janeiro, na última sexta-feir,a dia 20 de abril. O crime chocou a cidade por conta da crueldade. Jonathan Fonseca do Nascimento foi extirpado, parte dos órgãos internos e as vísceras arrancadas e penduradas no espelho da sala de sua casa. A Polícia divulgou que o assassinato foi ainda mais cruel que isso, mas evitou divulgar novas informações sobre como o corpo foi encontrado.
Até quando?
:: Notícias para o senador Magno Malta ler - parte I
Escrito por Marcelo Cia às 12:31:48
20/04/2012 - 18:03:19
A auto-nudez de cada dia
Talvez seja a popularização dos smartphones, da internet, talvez seja o Grindr, talvez seja por conta das celebridades, talvez seja o momento. A nudez nunca esteve tão comum. E não só a nudez do outro (essa sempre existiu) mas a nossa própria. Tudo muito mais natural e despudorado. Observo nas galerias de arte de São Paulo uma onda nada discreta em torno da arte erótica e vejo (feliz) trabalhos fotógraficos que exploram a nudez ganhando espaço cada vez maiores. É gente que se autofotografa (ou a amigos) ou que vira seu olhar para algo que um dia ganhou o eufemismo de sexy. Bobagem: é erótico.
Veja o que faz o Juliano com sua Made in Brazil Mag. Nada explícito nem nunca vulgar, mas altamente erotizante. Ou o que fazem revistas como a Client, a Candy, a Fiasco... Ou a Butt (mais antigona, um clássico). Vejo no Facebook gente postando suas fotos sem roupa e seus muitos likes. Superexposição? É sim. Mas, e daí? Eu nunca vi tanta foto de amigos e conhecidos nus como nestes últimos tempos. As pessoas estão mais familiarizadas com o nu. E isso facilita tudo.
O que me parece é que o nu está saindo do fundo das prateleiras, ganhando novas linguagens e cores. O mais legal disso tudo é que não há mais aqueles velho preconceitos. E se o cara for gato então... Nenhuma nudez será novamente castigada.
Escrito por Marcelo Cia às 18:03:19
19/04/2012 - 20:47:01
UFC no Senado: gay contra evangélico
No dia 15 de maio próximo, em Brasília, acontecerá uma discussão no Senado entre o pastor Silas Malafaia e o militante gay Toni Reis, presidente da ABGLT. É uma audiência pública sobre o PLC 122 marcada pelo gabinete da senadora Marta Suplicy. Será um debate entre duas pessoas, nada além. Mas já se forma uma aura de que se trata de algo maior, de uma discussão entre evangélicos versus gays. Como um UFC. Mas não é não. Vamos combinar: Silas Malafaia, o telepastor, representa uma minoria entre os evangélicos, ele é a voz midiática dos ultraconservadores cristãos brasileiros. E eles são poucos. Nem todo evangélico é contra os direitos da população LGBT. E Toni Reis também não representa os gays. Ele é a voz, apenas, de parte do movimento militante organizado. E isso é bem pouco. Mas, de um jeito ou de outro, o clima no Senado não será dos mais tranquilos.
Malafaia está sob a mira do Ministério Público por conta de um processo movido pela ABGLT. Pode ser que ele seja obrigado pelo MP a se desculpar em público por ter dito que a igreja Católica deveria "descer o porrete" nos organizadores da Parada Gay de SP que usou imagens de santos na edição do ano passado. Já Toni Reis têm nas mãos elementos novos para a discussão, em especial a aprovação da lei anti-homofobia no Chile (em resposta ao cruel assassinato de um homossexual) e a morte violenta de um casal em Maceió há dez dias.
De um jeito ou de outro, tenho cá para mim que será uma discussão meio inútil para ambos os lados. Na real, até negativa. Ninguém ganha com essa belicosidade, com essa guerra formada entre o movimento gay e as frentes evangélicas. Mas tem gente que adora um palco. Fazer o que?
Escrito por Marcelo Cia às 20:47:01
18/04/2012 - 20:50:27
Legalize Love
Achei genial de tão simples e direto o slogan de uma campanha norte-americana pelo casamento gay: "legalize love". Foi criado pela combativa e bem humorada ONG FCKH8 ("fuck hate"). O maior prazer desta ONG é publicar vídeos que zombam dos políticos e pastores anti-gays, em especial quando eles perdem eleições e/ ou são desmascarados em algum escândalo sexual-político-familiar. Isso eu admiro nos norte-americanos, a capacidade que eles possuem de debochar.
Por aqui a gente tem o Casamento Civil Igualitário. Tá, é uma beleza de polidez e complicação. Eu já acho que a gente deveria copiar os americanos e sair com um "Legalize o Amor". E também acho que deveríamos sair comemorando cada vitória, cada vez que um Dia do Orgulho hétero é defenestrado, cada vez que um um projeto de lei anti-gay é derrubado, cada vez que um homofóbico é punido e assim por diante.
Escrito por Marcelo Cia às 20:50:27
16/04/2012 - 22:52:57
O fim do clube Vegas
Me perdoe o tom sentimental?
Eu queria escrever uma nota linda, toda poética, pelo fechamento do clube Vegas. Mas não tenho mais tantos neurônios para tal. Muitos deles, aliás, foram perdidos ali mesmo, nas pistas do Vegas. O Facundo, um dos cabeças do clube, era meu amigo antes de abrir o Vegas. Bem antes, quando ainda existia o Xingu, que era na Martinho Prado. Eram tempos tão ingênuos aqueles. O Facundo era jornalista, assim como eu, mas ele já era fodão e eu era foquinha. Ele dirigia o AOL, que nem existe mais. Mas na época existia. E também fazia mestrado na PUC. Ele andava de moto, era mais gordinho do que é hoje, não tinha a tatuagem das veias no braço mas já era apaixonado por música, pela noite. É verdade que nunca gostou muito de dançar, nem nunca bebeu, nem muito menos usou drogas. Tudo isso é verdade. Mas ele gostava de conversar com as figuras da noite. E as pessoas sempre gostaram dele. E, hétero total, ele respeitava e adimirava as bichas. Quase todas. E tudo isso continua sendo como era antes. Só que ele está mais rico. E bonito. E casado com uma mulher delumbrante. Quando o Xingu fechou, muita gente ficou meio orfã (eram tempos mais ingênuos, lembre-se). E ele quis abrir um lugar. Juntou-se ao Tibira, que era (e é) do Rock, como sócio. E cercou-se às pessoas mais legais (Frank, Jackson, Fischer, Luca, Liana, Camila...).
Lembro de quando ele me falou que iria abrir o Vegas na Augusta e eu titubeei. Achava que o povo teria medo de descer a rua, estacionar o carro, ficar na fila... Naquela época, era 2005, a rua era o sinônimo da decadência paulistana e só tinha puteiros e traficas. Pois eu estava enganado e o Facundo estava certo. O clube abriu, deu certo logo de cara e transformou toda a rua Augusta. Tantos clubes e bares e antros (no bom sentido) abriram por perto a galope que a rua virou o que virou. Sabe que nem a expressão "Baixo Augusta" existia até então? Isso foi só em 2006, por conta de uma reportagem da revista da Folha, se não me engano, que falava sobre recentes inaugurações de bares e clubes na Augusta. Eram CINCO. Hoje ficaria difícil contar.
Eu só tenho boas lembranças do Vegas. Foi lá que fizemos a festa de lançamento da JUNIOR, em setembro de 2008; e foi lá que eu conheci um namorado lindo, o Junior, que foi (e vai ser sempre) importante para mim. Também foi lá que fiz muitos amigos. Que bebi prá cacete. Que me diverti pra caralho. Talvez seja o lugar que eu tenha mais ido na minha vida. Facundo continuou com sua paixão por música, agora focada na casa de shows Cine Jóia. E os tempos são outros, convenhamos. Mas nem é por falência ou falta de público que o Vegas fechou (como explica a carta abaixo). Foi por conta da especulação imobiliária. Vão construir um prédio ali. E logo outros bares, clubes e puteiros da Augusta vão pelo mesmo caminho, pode apostar. É um ciclo. E a gente fica mais velho e entende melhor como isso acontece. Mas ninguém se importa não, já que sempre vai ter um lugar legal para a gente ir na sexta-feira a noite :-)
Carta aberta sobre o encerramento do Vegas
É com pesar que anunciamos o fechamento do Vegas a partir desta semana do dia 16/04/2012.
O Vegas teve um ciclo de sete anos, e ao longo destes anos todos a noite de São Paulo e especialmente a rua Augusta mudou para melhor. É possível contar a história da noite recente de nossa cidade através de um antes e um depois do Vegas: coincidência, timming, chame como quiser, mas a noite de São Paulo floresceu desde a abertura do projeto. A rua Augusta, antes desolada, hoje representa a cara de nossa cidade. E ironicamente foi o sucesso do clube e, por consequência, da rua Augusta, que acabou por vitimar o Vegas: o galpão onde o mesmo se encontra recebeu uma proposta de compra milionária para ali ser montado um empreendimento imobiliário. Como inquilinos nunca poderíamos cobrir a oferta que o imóvel recebeu e batalhamos até o último segundo, mas nesta segunda-feira resolvemos jogar a toalha. O Vegas tombou não por conta da falência do projeto, mas em virtude do preço do metro quadrado na região, hoje uma das mais valorizadas de São Paulo.
Foram noites memoráveis e do Vegas saíram outros 5 projetos que entregamos para São Paulo, sem contar as dezenas de clubes e bares que povoaram a rua e a transformaram em cartão postal de São Paulo. O ciclo, hoje, se encerra. Ao longo deste sete anos foram incontáveis os amigos, os parceiros, as alegrias que o clube proporcionou. O Vegas foi a porta de entrada para muitos profissionais que atuam com sucesso na noite paulistana hoje, e só por isso ele já cumpriu sua função histórica. Lançou antes de muitos novas estéticas no campo da música e do vídeo, teve em seus palcos os melhores DJs do Brasil e do mundo, foi pauta da imprensa internacional, serviu de referência para clubes Brasil afora e teve seu nome e seu projeto clonado pelo menos 4 vezes ao longo dos anos, prova incontestável de seu sucesso. O Vegas nunca mais deixará a memória e os corações de quem ali trabalhou e dos clientes que passaram suas noites ao nosso lado.
Portanto, nada de tristeza aqui. Somos imensamente gratos ao clube que serviu de fundação para a Nova Augusta. Cumprimos com louvor o objetivo do projeto.
O Vegas está morto. Viva o Vegas!
Escrito por Marcelo Cia às 22:52:57
16/04/2012 - 15:40:10
A homofobia é coisa nossa, por Vargas Llosa
O ganhador do prêmio Nobel em literatura Mario Vargas Llosa escreveu um artigo muito lúcido sobre o assassinato do jovem gay no Chile. O artigo foi publicado em diversos jornais latinos, incluindo no Brasil (pelo Estadão). Tomo a liberdade de reproduzir o texto aqui, traduzido Terezinha Martinho, por ser algo que serve como luva também ao Brasil.
Na noite de 3 de março, quatro neonazistas chilenos, liderados por um valentão chamado Pato Core, encontraram caído nas cercanias do Parque Borja, em Santiago, o jovem Daniel Zamudio, ativista homossexual de 24 anos que trabalhava como vendedor numa loja de roupas. Durante seis horas, enquanto bebiam e pilheriavam, os quatro se dedicaram a dar pontapés e socos no jovem homossexual, golpeá-lo com pedras e marcar suásticas no seu peito e costas com o gargalo de uma garrafa. Ao amanhecer, ele foi levado a um hospital, onde agonizou por 25 dias antes de morrer em decorrência dos traumatismos.
O crime causou uma vivo impacto na opinião pública chilena e sul-americana. Multiplicaram-se as condenações à discriminação e ao ódio contra as minorias sexuais, profundamente enraizados em toda América Latina. O presidente do Chile, Sebastián Piñera, exigiu pena exemplar e pediu que se acelere a aprovação de um projeto de lei contra a discriminação, que vegeta no Parlamento chileno há sete anos, parado nas comissões por temor dos parlamentares conservadores de que a lei, se aprovada, abra caminho para o casamento entre gays.
Esperemos que a imolação de Daniel Zamudio sirva para trazer à luz a trágica condição dos homossexuais, lésbicas e transexuais nos países latino-americanos onde, sem uma única exceção, são objeto de escárnio, repressão, marginalizados, perseguidos e alvo de campanhas de descrédito que, no geral, contam com o apoio declarado e entusiasmado da maioria da opinião pública.
Nesse caso, o mais fácil e mais hipócrita é atribuir a morte do jovem apenas a quatro canalhas pobres diabos que se denominam neonazistas e, provavelmente, nem sabem o que é isso. Eles não são mais do que a guarda avançada mais crua de uma cultura antiga que apresenta o gay ou a lésbica como pessoas doentes ou depravadas que devem ser mantidas à distância dos seres normais, pois corrompem o corpo social saudável, induzindo-o a pecar e a se desintegrar moral e fisicamente em práticas perversas e nefandas.
Esta noção do homossexualismo é ensinada nas escolas, difundida no seio das famílias, pregada nos púlpitos, divulgada pelos meios de comunicação, aparece nos discursos de políticos, nos programas de rádio e televisão e nas comédias teatrais onde os homossexuais são sempre personagens grotescos, anômalos, ridículos e perigosos, merecedores do desprezo e da rejeição dos seres decentes, normais e comuns. O gay é sempre "o outro", o que nos constrange, assusta e fascina ao mesmo tempo, como o olhar da cobra assassina para o passarinho inocente.
Num tal contexto, o surpreendente não é que se cometam atos abomináveis como o sacrifício de Zamudio, mas o fato de que sejam tão pouco frequentes, ou talvez seja mais correto dizer tão pouco conhecidos, pois os crimes provocados pela homofobia que vêm a público são só uma pequena parte dos que realmente são praticados. Em muitos casos, as próprias famílias das vítimas preferem colocar um véu de silêncio sobre eles para evitar a desonra e a vergonha.
Tenho comigo, por exemplo, um relatório preparado pelo Movimento Homossexual de Lima, que me foi enviado pelo seu presidente, Giovanny Romero Infante. De acordo com uma pesquisa realizada entre 2006 e 2010, foram assassinadas no Peru 249 pessoas por "sua orientação sexual e identidade de gênero", ou seja, uma a cada semana. Entre os casos mais horripilantes está o de Yefri Peña, que teve o rosto e o corpo desfigurado com um pedaço de vidro por cinco "machões", os policiais se negaram a socorrê-la por ser travesti e os médicos de um hospital não quiseram atendê-la por considerá-la um "foco infeccioso" que se poderia transmitir aos que estavam em torno.
Os casos extremos são atrozes, mas o mais terrível para uma lésbica, gay ou transexual em países como Peru ou Chile não são casos mais excepcionais como esse, mas é a sua vida quotidiana condenada à insegurança, ao medo, a percepção constante de ser considerado perverso, anormal, um monstro.
Ter de viver na dissimulação, com o temor constante de ser descoberto e estigmatizado pelos pais, parentes, amigos e todo um círculo social preconceituoso que ataca furiosamente o gay como se ele tivesse uma doença contagiosa. Quantos jovens atormentados por esta censura social foram levados ao suicídio ou sofreram traumas que arruinaram suas vidas? Somente no círculo de amigos meus tenho conhecimento de muitos exemplos que não foram denunciados na imprensa nem apareceram nos programas sociais dos reformadores e progressistas.
Porque, no que se refere à homofobia, a esquerda e a direita confundem-se como uma única entidade devastada pelo preconceito e a estupidez. Não só a Igreja Católica e as seitas evangélicas repudiam o homossexual e opõem-se obstinadamente ao matrimônio de gays. Os dois movimentos subversivos que nos anos 80 iniciaram a rebelião armada para instalar o comunismo no Peru, o Sendero Luminoso e o MRTA - Movimento Revolucionário Tupac Amaru - executavam os homossexuais de maneira sistemática nos povoados que controlavam para libertar a sociedade de semelhante praga.
Libertar a América Latina dessa tara ancestral que são o machismo e a homofobia - as duas faces da mesma moeda - será demorado e difícil, e provavelmente o caminho até essa libertação estará repleto de muitas outras vítimas semelhantes ao desventurado Daniel Zamudio. O tema não é político, mas religioso e cultural. Fomos acostumados desde tempos imemoriais à ideia de que existe uma ortodoxia sexual da qual apenas os pervertidos, os loucos e enfermos se afastam e vimos transmitindo esse absurdo monstruoso para nossos filhos, netos e bisnetos, auxiliados pelos dogmas da religião, os códigos morais e os hábitos instaurados. Temos medo do sexo e nos custa aceitar que, neste incerto domínio, há opções e variantes que devam ser aceitas como manifestações da diversidade humana. Nesse aspecto da condição de homens e mulheres deve reinar a liberdade, permitindo que na vida sexual cada um escolha sua conduta e vocação sem outra limitação senão o respeito e a aquiescência do próximo.
Minorias começam a aceitar que uma lésbica ou um gay são pessoas tão normais como um heterossexual e, portanto, devem ter os mesmos direitos - como contrair matrimônio e adotar filhos -, mas ainda hesitam em lutar em favor das minorias sexuais porque sabem que, para vencer, é necessário mover montanhas, lutar contra um peso morto que nasce na rejeição primitiva do "outro", daquele que é diferente, pela cor de sua pele, seus hábitos, sua língua e suas crenças, que é a fonte que nutre as guerras, os genocídios e os holocaustos que enchem a história da humanidade de sangue e de cadáveres.
Sem dúvida, avançamos muito na luta contra o racismo, mas não o extirpamos totalmente. Hoje, pelo menos, sabemos que não se deve discriminar ninguém e é de mau gosto alguém se proclamar racista. Mas nada disso existe no que se refere a gays, lésbicas e transexuais. Quanto a eles, podemos desprezar e maltratar impunemente. Eles são a demonstração mais reveladora de quão distante boa parte do mundo ainda está da verdadeira civilização. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO
Escrito por Marcelo Cia às 15:40:10
14/04/2012 - 20:22:54
Vídeo da campanha pelo casamento civil dá orgulho
Espalhe, se curtir.
Escrito por Marcelo Cia às 20:22:54
12/04/2012 - 13:01:46
Notícia para o senador Magno Malta ler
Magno Malta, o senador do Espírito Santo, constuma dizer que não existe homofobia no Brasil. Que a homofobia seria uma "invenção" do movimento gay. A última vez que tocou no assunto foi na tribuna do Senado. Já havia feito o mesmo na última audiência sobre o PLC 122 que aconteceu em novembro na CDH do Senado, e antes de tudo em entrevista publicada pela revista JUNIOR na edição de junho de 2011.
Em contraponto a essa crença ferrenha do senador, vamos a um fato ocorrido na capital alagoana (os grifos são meus): os corpos do vendedor de lanche Márcio Lira Santos e de seu companheiro Eduardo, encontrados em um canavial na cidade de Rio Largo, com sinais de tortura e crueldade, se torna mais um número negativo para os homicídios motivados por homofobia. O casal havia desaparecido há 12 dias, quando se preparava para uma viagem. Sem notícias, a família de Márcio começou as buscas pelo seu paradeiro. Na residência do vendedor havia sinais de arrombamento, apesar de que nenhum objeto de valor foi roubado.
Na segunda-feira (09), os corpos foram reconhecidos por familiares no Instituto Médico Legal (IML). Em avançado estado de decomposição, foram encontrados marcas de tiros. O casal foi morto com requintes de crueldade, tendo os olhos perfurados e os arrancados, caracterizando crime por homofobia.
Em 2011, 21 assassinatos de homossexuais foram registrados em Alagoas. Mas, atente-se para um fato: os crimes foram cruéis. Não eram briga de bar, nem latrocinio, nem crime comum. É gente que foi torturada, que teve partes do corpo arrancadas e agonizaram na mão de torturadores antes de terem seus corpos abandonados. Se isso não é homofobia, o que seria?
Escrito por Marcelo Cia às 13:01:46
12/04/2012 - 12:57:57
Troca de cadeiras
Quase ninguém lê expediente de revista. Nem muito menos de site. O que importa é a informação. E é bom que seja assim. A gente tem de saber quais são as credenciais de nossos médicos, do engenheiro que fez nossa casa... Do jornalista é dispensável. Ou ele é confiável ou ganha a confirança do leitor. Se não conseguir nada disso, vai trabalhar em assessoria de imprensa (tô brincando, amigos). E no fim, o que vale mesmo é a revista (ou o site, o jornal...). Eu sou jornalista há 14 anos e já passei por redações diversas. Quando sai delas, nada mudou nem nas revistas nem nos jornais nem nas rádios que trabalhei. Ou melhor: mudou um pouquinho só, já que elas perderam um belo enfeite. Mentira.
Digo isso para assumir que dexei a edição da revista JUNIOR. Foram cinco anos na batalha diária que é produzir uma revista e outros dois para criá-la. Sete no total. Acho que foi o bastante. A JUNIOR tem novo editor, o Felype Falcão, que era repórter até a edição passada. Já o Hélio Filho vai cuidar exclusivamente da H Magazine. Felype tem apenas 26 anos e já assume a principal revista gay da América Latina e uma das cinco publicações gays mais lidas do mundo. Em circulação e número de leitores, apenas cinco revistas gays não eróticas do mundo são maiores que a JUNIOR. Quem saber quais?
- A Wink (Holanda) com tiragem de 200 mil/ mês se somadas a versão em ingês e em holandes
- A Out Magazine (EUA) com tiragem de 120 mil exemplares
- a Têtu (França) com 60 mil exemplares
- A DNA (Austrália) com 50 mil exemplares por mês
- A JUNIOR (Brasil) com 25 mil exemplares por mês
Felypé jornalista formado pela Universidade Federal de Alagoas com seis anos anos de carreira, ele está há um ano na redação da editora Mix Brasil. A mudança oxigena o conteúdo da revista e dá estímulo a quem está chegando à nossa equipe. Eu vou cuidar de novos e interessantes projetos. Estou bem animado.
Escrito por Marcelo Cia às 12:57:57
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