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Propaganda Dirigida
Como será o mundo quando descobrirem que lésbicas também são consumidoras

por Laura Bacellar

14/4/2004

Vivemos num sistema capitalista, gostemos ou não. Somos bombardeadas, dia e noite, com apelos sugestivos ou bobocas para consumir todo tipo de coisa, de sanduíches a viagens internacionais. Mas, ao menos por enquanto, os magos da publicidade e as empresas para as quais trabalham ainda não descobriram as lésbicas como público consumidor.

Assim, podemos assistir com certa frieza enquanto um homem, uma mulher e duas crianças sorridentes entram em carros, passam margarina no pão ou se lambuzam de chocolate nas propagandas de televisão. Eu por exemplo, por mais que goste de crianças e já tenha bancado a tia simpática, não me sinto incluída na idéia de "família" feliz e hetero que os comerciais trazem embutida.

Até uma mulher bonita mostrando longas pernas (e meias de nylon) ou exibindo uma cara perfeita (enquanto toma um iogurte emagrecedor) eu vejo sem muita emoção nas páginas das revistas, já que costuma haver alguma referência – como um moço ao fundo, roupas que exalam apelo hetero – de que a dama não faz aquilo para mim.

Isso vai mudar, não tenho dúvida.

Quando as empresas descobrirem quem somos e do que gostamos, tenho certeza de que vamos ser assediadas por propagandas beeeeem mais interessantes que as atuais.

Olhe só o que vejo na minha bola de cristal daqui a alguns anos.

Ligo a televisão e, no intervalo de uma série protagonizada por casais de mulheres, entra uma loira tipo Sharon Stone vestindo um macacão largo de trabalho. Do cinto de ferramentas ela saca uma furadeira super último tipo, preta e reluzente, e instala uma prateleira com ar profissional, sem dar um sorriso. Aí dá uma piscada para outra loira estonteante ao seu lado, que admira as cento e sete brocas especiais da furadeira.

Não sei o que dá mais água na boca, as loiras ou a furadeira...

(Diga lá se nove entre dez lésbicas que você conhece não têm uma Black & Decker na sua lista de desejo de consumo)

Aí abro uma revista de jardinagem e vejo uma foto de duas velhinhas sorridentes, bem do ladinho uma da outra, regando um canteiro floridíssimo de belas-emílias enquanto um cachorro grandão e bem tratado corre pela grama, com um texto exaltando as virtudes de investimentos familiares de longo prazo.

Nessa família consigo me sentir incluída...

(Diga lá se nove entre dez lésbicas que você conhece não sonham em morar junto com a amada numa casa com jardim, grande o suficiente para as flores, os cachorros e os gatos)

Na mesma revista, como merchandising e não propaganda direta, encontro um artigo sobre pérgulas que a própria pessoa pode construir para deixar seu jardim sombreado e lindo. Dando depoimento, uma moça meio gorducha, com cabelo já grisalho sem tingir, aparece segurando uma plaina elétrica último tipo e declara que fez tudo sozinha durante as férias.

Será que dá para fazer tão fácil sem a plaina? Checo os endereços das lojas de bricolagem no final do artigo...

(Diga lá se nove entre dez lésbicas que você conhece não teimam em fazer quase tudo por conta própria, só em último caso chamando carpinteiros, pedreiros ou pintores. São clientes amadas pelas lojas tipo Peg & Faça!)

Depois abro o jornal e vou folheando até as páginas de cultura, pois sei que entraram dois filmes com temática de mulheres. O primeiro é um romance sexy de duas adolescentes, com atrizes que eu não conheço e uma diretora que fazia sucesso no Festival de San Francisco. O outro é bem hollywood sobre uma investigadora do FBI que se envolve com a fulana malvada e sexy suspeita de um crime.

Antes de chegar nos horários de cinema, vejo um anúncio de meia página de um condomínio de casas com bastante terreno e segurança. Nas fotos de casais felizes e orgulhosos de sua compra, duas mulheres dão aquele sorriso pasta-de-dente para a câmera enquanto afagam um enorme cachorro no meio delas.

(Nesse futuro que estou vendo com bola de cristal, as imobiliárias e construtoras já descobriram que lésbicas dão prioridade máxima para uma casa própria bonita e segura, acima de carros, roupas, viagens e jantares fora. E que, por terem apenas filhos planejados, conseguem juntar dinheiro para essa casa! Como as construtoras usam os mesmos publicitários que as outras empresas, a imagem de duas mulheres com um cachorro já virou clichê para "família lésbica" nas propagandas.)

Leio a crítica falando mal do filme de ação. Angelina Jollie faz mais uma vez uma lésbica convincente, porém não emplaca como a investigadora do FBI que fica tão seduzida pelas caras e bocas da criminosa interpretada por Naomi Watts que não percebe as armações mais óbvias. Hummmm, acho que o crítico não sabe de nada, vou ver esse filme...

Mas antes dou uma olhada no caderno de automóveis.

Três páginas inteiras foram dedicadas ao lançamento de um novo 4x4, compacto, movido a dois tipos de combustíveis. Numa delas, duas mulheres jovens e gostosíssimas, vestidas de jeans e botinas, lindamente descabeladas no vento de uma estrada de terra no meio de um cerrado luminoso, estudam um mapa aberto em cima do capô. Dentro do carro (como você já deve ter adivinhado), um cachorrão super bem tratado se esparrama no banco de trás. O texto garante que o carro é resistente, econômico e com uma mistura de combustíveis que não polui o ar como a gasolina.

(Diga lá se nove entre dez lésbicas que você conhece não têm uma Land Rover como sonho de consumo, adoram ir para o meio do mato e se preocupam com o meio ambiente!)

Pois é, nesse futuro que estou vendo tão bem, em que os capitalistas vão nos colocar no mapa do consumo e cair matando para nos conquistar, talvez a gente sofra com a oferta de tantas coisas perfeitas para nós, mas pelo menos assistir televisão e ler uma revista vai ficar mais emocionante.

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