21/11/2011 - 13h49
Por : Hélio Filho
Autor de livro sobre obsessão conta tudo ao Mix. Vem ler entrevista Confira aqui entrevista exclusiva com Augusto Treppi sobre seu novo livro, Obsessão
Divulgação
Obsessão é o terceiro livro de Treppi
Temas água-com-açúcar não tomam conta da cabeça do escritor Augusto Treppi quando ele vai escrever algum livro. Depois de “Dominação” e “Cama King Size”, ao autor está lançando agora seu terceiro livro, que vem também com um tema polêmico e bem interessante: “Obsessão”.
Já com pré-venda da versão digital rolando (clique aqui), Augusto (que preserva sua imagem e não é muito afeito a fotos suas) conversou com o Mix para contar melhor como foi colocar as mãos em uma caixa de marimbondo como essa e avisa aos mais curiosos pelos métodos de produção de Treppi que “todos os meus livros são ficção”.
“Obsessão” conta a história de amor entre o médico Ramon e seu amado Denílson, mais jovem que ele. Confira o papo com o autor:
Qual a diferença em escrever o primeiro e o terceiro livro?
No meu caso, a diferença é enorme, partindo do fato de que o primeiro livro simplesmente “aconteceu”, os outros dois foram planejados. Quando comecei a escrever o “Dominação” estava apenas brincando amadoristicamente. Eu fazia parte de um grupo de contos eróticos, e propus ali que alguém escrevesse uma história onde um office boy dominasse o patrão. Como ninguém escreveu, resolvi eu mesmo pôr a mão na massa. Ao terminar o que seria o conto, percebi que havia material para continuação, e fui escrevendo em sequência. Com o desenrolar de situações, meio que “episódios” sequenciais, a história foi tomando forma e veio a necessidade de dar perfil e contexto aos personagens. A série virou um sucesso, migrou para o Orkut e para vários sites. Na Internet ela se chamava “Comido Pelo Office Boy”. Foi a partir dela também que surgiu o “personagem” Augusto Treppi, que foi quem começou a assinar a trama. Como os episódios foram se acumulando, veio a necessidade de organizar, a partir de demanda dos próprios leitores, que, ao se multiplicarem, não conseguiam entender direito como era o andamento. Criei então um blog para a postagem em sequência correta. A partir dele também foi possível dimensionar o interesse. O número de acessos foi se tornando tão grande que motivou a transformação daquele material em livro. Surgiu assim o “Dominação – Sexo e Violência Transformando Uma vida”, que ganhou o novo título por questões editoriais e mercadológicas. Já o “Obsessão” veio com planejamento, dentro do projeto escritor profissional. Outra característica dele foi já ser lançado como e-book. O “Dominação” ganhou esta versão eletrônica somente depois de dois anos. O plano agora é seguir com outras publicações somente em e-book, para facilitar o acesso dos leitores dentro dessa nova tendência mundial.
Como foi a escolha da trama?
Bom, creio que cada escritor tem seu método. Sei que existem aqueles que primeiro traçam todo um cronograma, esquematizando a trama do início ao fim. Eu não, quando inicio uma história, ainda não sei bem onde vai dar. Começo a escrever e vou deixando fluir. Na verdade, no princípio eu nem sei se “vai dar livro”, essa percepção só vem com o decorrer do desenvolvimento das situações e dos personagens. Chega um momento em que eu preciso encontrar o chamado “conflito”, que seria o catalisador de tudo. Nessa hora percebo o potencial para livro, mas normalmente ainda não tenho a menor noção de como tudo vai terminar. Pode parecer clichê dizer isso, mas os personagens ganham vida própria. Claro que o autor tem um certo controle, mas para convencer o leitor é preciso coerência e, para isso, às vezes quem escreve é obrigado a seguir com a maré que ele próprio criou. No caso específico do “Obsessão” comecei pensando em alguém que precisasse reencontrar a própria vida depois de uma separação, tanto que o primeiro título provisório foi “Reaprendendo a Viver”.
De onde vem a história? Tem algo de real nela?
Não, todos os meus livros são ficção. Gosto muito de biografias e de histórias baseadas em eventos reais, mas até o momento não fiz isso. Escrever é um exercício de imaginação, então tudo que tem ali foi inventado. Porém, tenho o cuidado para que tudo soe verdadeiro. Por mais que a obra seja de ficção ela tem um compromisso com a realidade. Esta história não é real, mas perfeitamente possível.
Você usou quais referências para montar o Ramon?
Acho que por mais que o escritor invente, ele não foge de referências, ainda que inconscientes. No caso do Ramon creio que foi assim, porque não me baseei em ninguém que eu conheça. Talvez um apanhado de características de várias pessoas com quem interagi ao longo da vida. Agora, como o sexo é algo muito presente no meu trabalho, em cenas bem explícitas, como se rolassem “filmes pornôs” durante a narrativa, procuro personagens que de certa forma despertem tesão. Ramon é assim, um gostosão, bem galã fisicamente e com uma personalidade dócil e ingênua, características que o definem sexualmente. Em contrapartida, Denilson é um cara super seguro, com a auto-estima muito elevada, arrojado e controverso em sua maneira de amar, ao mesmo tempo carinhoso e truculento. Gosto dos contrastes e também do surpreendente. Neste aspecto os leitores sempre encontram subversão nas minhas histórias, ninguém é muito óbvio.
Três dicas de leitura para o leitor que vai comprar “Obsessão”:
Bom, vou sugerir “Dominação” e “Cama King Size” (risos). Falando sério, gosto muito do realismo fantástico, então sempre recomendarei “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Marques e “A Casa dos Espíritos”, de Isabel Allende. Posso sugerir quadrinhos? Não deixem de ler todos os álbuns “Calvin e Haroldo”, as melhores tirinhas de todos os tempos.
O que é uma obsessão para você?
Bem, acho que a obsessão é um desejo exarcebado por alguma coisa. Ela subverte seus valores, cega seus olhos e tapa seus ouvidos. Quando alguém se vê obcecado por alguma coisa ou por alguém perde todas as referências em nome do objeto de desejo. Pessoalmente não tenho nenhuma obsessão. Poderia dizer que escrever, meu trabalho de autor e a construção de uma carreira seriam minhas obsessões, mas não chega a tanto. Metas, objetivos, planejamento e estratégias são saudáveis, porém quando algo se torna uma obsessão passa a ser meio doentio.
No caso dos gays, a diferença de idade em um relacionamento pode atrapalhar, na sua opinião?
Eu sou 100% a favor dos relacionamentos com diferença de idade, sejam homo ou hétero. Não que eu seja contra os outros, pra mim essa não é uma questão relevante no sucesso ou fracasso dos relacionamentos. No caso específico dos casais onde existe a diferença, vejo mais vantagens que desvantagens, pela troca de vivências. Também os estilos de vida acabam sendo complementares, um trazendo coisas novas para o outro. Acho que no final das contas o que atrapalha é o olhar de fora, porque raramente um namoro onde as idades são muito diferentes escapa do preconceito.
Ainda falando dos gays, e a diferença de classes sociais?
Acho que é mais ou menos a mesma coisa, e a visão não é tão diferente quando isso acontece na relação hétero. O que acaba atrapalhando é o preconceito, porque quem está em volta raramente acredita na sinceridade e no amor daqueles parceiros. O casal tem que ser forte e bem seguro dos sentimentos, para não se deixar envolver por opiniões externas. Estas duas questões são muito presentes no “Obsessão”. Gosto de propor discussões de temas relevantes do cotidiano, ainda que cercadas pelos elementos de romance, sexo explícito, mistério e até violência. Nesse terceiro livro, inclusive, abordo algo pouco discutido, que é a violência doméstica nos relacionamentos homossexuais. Este tema, tão debatido quando os envolvidos são hétero, raramente é levado em conta no ambiente gay.
Você acha que gays gostam mais de ler romance ou qual tipo de narrativa?
A princípio eu não acho que gays sejam diferentes de héteros, exceto na preferência entre escolher parceiros sexuais e amorosos do mesmo sexo ou do sexo oposto. No mais, todas as pessoas são iguais, então acho que o gosto varia muito. Pensando nas pessoas em geral, eu acho que a preferência aparentemente é maior pelos romances, aventuras, suspense e mistério. Percebo que hoje em dia é grande o apelo para eventos reais e livros históricos, mas já vejo como uma minoria, embora alguns livros baseados na história do Brasil venham se tornando best sellers. No contato com meus leitores constato que, enquanto uns se prendem mais nas cenas de sexo explícito, outros são bem românticos e curtem mais estes momentos. Tem ainda aqueles que se envolvem pela trama em si, pelo desenrolar dos acontecimentos e pelas tentativas de desvendar o desfecho das várias situações que vou criando ao longo da narrativa.
Dá para viver de literatura GLS no Brasil?
Olha, no Brasil é difícil viver de literatura, ponto. Acho também que isso não é uma particularidade do Brasil. No mundo todo existem uns poucos que se destacam como escritores e aí não somente vivem de literatura, mas se tornam milionários com isso. Porém esses são poucos, a maioria corre atrás mesmo, e acaba se dedicando a atividades paralelas, ainda que muitas vezes ligadas à literatura. É o caso de professores, tradutores, revisores, jornalistas... Fora isso, existem também os que trabalham em diversas outras profissões, desde médicos até segurança de boate. Muitos autores, até mesmo famosos, têm carreiras paralelas.
Quem você acha que é seu público leitor? Apenas LGBT ou héteros também?
Meu público é bastante eclético, o que, confesso, me surpreende. Claro que a maioria é LGBT e acabou se formando também um público bem específico de fetichistas, por causa do “Dominação”. Mas tenho muito retorno de leitores hétero, sobretudo mulheres. Acho meio engraçado, mas aparentemente, do mesmo jeito que homens hétero curtem ver duas mulheres se pegando, mulheres hétero curtem sexo entre dois homens. Vejo que as mulheres têm também muita curiosidade. Mas entre os héteros não são somente as mulheres que me lêem, muitos homens também. Além do sexo, as histórias são bastante instigantes, o que acredito seja a motivação dos que não se identificam de imediato com as “práticas” sexuais relatadas explicitamente. É engraçado porque isso tudo pra mim é um bônus. No início eu pensava que seria um autor totalmente de nicho, e hoje, depois de dois livros lançados e uma plataforma de leitores se solidificando, percebo que faço realmente literatura e que, portanto, posso ser lido por qualquer pessoa que goste de ler. O legal nos tempos atuais é que o escritor não se isola num ponto e os leitores no outro. Existe muita interatividade, então a gente percebe que está sendo lido, por que e por quem. É bastante gratificante.
Você acredita que existe uma linguagem gay na literatura?
Engraçado que recentemente tive uma breve conversa dessas com uma pessoa bem ligada à literatura, do meio acadêmico. Uma professora, crítica e ensaísta. A conversa surgiu a partir de uma crônica dela, publicada em um jornal, abordando a “literatura feminina”. Eu não acredito muito no hífem literário. Literatura-feminina, literatura-gay, literatura-hétero, literatura-não-sei-o-que. Tudo é uma coisa só. Agora acho que a temática é variável, assim como a abordagem. Um escritor pode escrever de tudo, mas eu sinceramente acredito que um escritor gay escreverá melhor sobre este universo do que um escritor hétero. Uma vez um editor me disse que eu deveria usar meu talento para o “pornô” e fazer pornô hétero, mais vendável. Posso escrever sim, mas não creio que saísse tão bom, que fosse tão eficaz e que falaria tão perto ao leitor como as minhas cenas “pornô gay”. Somente sob esse prisma, do caminhar no seu próprio caminho, que vejo essa que poderia ser chamada “linguagem gay” na literatura.
Já tem planos para o próximo livro?
Sim, já tenho três histórias iniciadas, naquele processo que eu disse no início, de ir escrevendo. Em uma delas eu já percebi o potencial para livro, nas outras duas ainda não vejo o conflito necessário, mas pode ser que apareça. Meu projeto literário é ter uma produção regular, que pretendo ser maior que a atual, que até agora foi de um livro por ano. Isso está relacionado também àquela pergunta anterior, de viver de literatura. Eu pretendo fazer isso, e tenho um plano traçado, que só não está funcionando direito devido à minha eterna procrastinação. Uma das bases desse planejamento é produção, diversificar o número de títulos disponíveis. De concreto, fora do esquema “ir escrevendo”, pretendo fazer uma sequência do “Dominação” e uma história com personagem seriall killer gay. Talvez numa dessas retorne o estilo perturbador do “Dominação”, que foi bem amenizado nos dois outros livros, o “Cama King Size” e o caçulinha, “Obsessão”.
Central de NotÃcias 

