19/08/2011 - 12h58

Por : Rodolfo Lima

SP: Peças sobre prostituição gay ficam no superficial da questão
Espetáculos Garotos Noturno e Garotos da Noite pecam pela falta de cuidado técnico

 

 

Garotos Noturno tem elenco com nove boys

Garotos Noturno tem elenco com nove boys

O mundo da prostituição já rendeu inúmeras manifestações artísticas. De letras de músicas a filmes, peça de teatro, exposição e etc. Porém parece que retratar os ocupantes da profissão mais antiga do mundo como seres sofridos, carentes e receosos de suas escolhas ainda é prioridade. Parece impossível um prostituto gostar do que faz. Acho questionável a pessoa sobreviver tanto tempo fazendo algo que não gosta tanto.

Contrariado a música da banca The Cure “Boys Don’t Cry”, em “Garotos da Noite” e “Garotos Noturno” os garotos choram sim, sem o menor pudor de parecerem mariquinhas. Ambas as peças trazem à tona o universo de garotos de programas. Ao todo são 12 boys – alguns inapropriados para o papel, convenhamos – e suas reclamações sobre a vida, o passado e o futuro.

Não espere se sentir excitado, provocado ou mesmo constrangido com o relato de vidas desses profissionais. Isso não ocorre em nenhuma das peças. As encenações podem te causar várias sensações, menos a mais importante de todas: excitação – dado o mote das peças.

“Garotos Noturno”, escrito por Gladston Ramos, traz nove boys de personalidades e conflitos diferentes para tentar assim abarcar todo o complexo universo dos michês. Com excesso de Fernando Cursino e Dan Salles pouco se espera de atuação dos atores a mercê da direção de Sebah Vieira. É pouco crível a atuação deles e alguns nem se mostram “interessantes” em cena. Roberto Mafra, que decreta um bordão insuportável (tá ligado), é o mais estereotipado de todos.

“Garotos da Noite”, escrito por Thiago Salles, condensa toda a complexidade em apenas três atores – Chico Ribas e sua cabeleireira loira é uma disparidade no elenco, impossível acreditar nele como michê. Mais criativo do ponto de vista da direção, creditada a Renê Ramos, os boys também sofrem com suas inquietações. O que torna ambas as peças um falatório sem tamanho. Não, segundo Ramos e Salles não há um michê feliz.

Ambos os textos são frágeis. O de Ramos é recheado de caricaturas – sem o cunho da crítica social - com cenas sobrepostas que variam: ora na rua, ora na sauna, ora na casa do cliente. Para arrematar a dramaticidade da peça, a direção recheia a peça de coreografias e músicas que em vez de sensibilizar torna risível o momento. Com tanto homem em cena, no pequeno palco do Teatro do Ator, as coreografias não são executadas a contento, se tornam simulacros de uma idéia que poderia ter acontecido, mas não vinga. 

Uma Aline Barros (cantora gospel) na trilha sonora é o ápice da breguice, do explicativo e do disparate que há na vida dos garotos noturnos. Ao preferir – como explica o release – musicalizar em vez de dramatizar, a direção pisa em falso, pois não se apropria de nenhuma das linguagens a contento.

O texto de Salles – selecionado pelo projeto Núcleo Sesi de Dramaturgia em 2010 - é salvo em alguns momentos pela direção de Ramos, que infelizmente se perde nas referências estéticas e mistura realismo, farsa e resquícios de épico. O que torna tudo uma grande salada sem personalidade. A acertada utilização das máscaras para os habitantes do Parque Trianon perde força ao ver o efeito sendo desfeito em outros momentos não tão interessantes, com máscaras carnavalescas que nada se parecem que as de bufonaria do primeiro momento.

Thiago Salles é o que mais se aproxima de um michê. Porém em ambas as peças todos os gestos são “jogados”, não há um “tempo” para que o gesto se complete e seduza a plateia. Que é o que peças com esse cunho deveria no mínino fazer, seduzir seu público. O elenco de Vieira joga fora inúmeros momentos – já que há varias cenas de duplas ou cenas que o michê se oferece descaradamente ao público do teatro.

Drogas, problemas com a família, com a sexualidade mal resolvida, com a religião, com os colegas de trabalho, anseios, sonhos e desejos estão em ambas as peças. Um bom momento de “Garotos Noturno” é a cena do assassinato do cliente. O conflito interior do garoto de programa (Dan Salles) vem à tona numa violência que mistura tara com dores internas. Mas reforçar o que já estamos vendo com músicas explicativas, e “pesar a mão” na dramaticidade do momento é um erro desnecessário da direção.

Ambas as peças se levam a sério demais e isso é um problema para as produções. Pois ao forçar o público a se compadecer com o drama de seus personagens, pode ocorrer o feito contrário, o que convenhamos não é nada positivo para o histórico das peças. “Garotos Noturno” poderia ter funcionado se debochasse um pouco mais dos conflitos dos personagens – o que segundo o release é algo inaceitável, já que o grupo quer sensibilizar e emocionar o público. 

Sebah Vieira transforma a peça num grande novelão mexicano – há quem goste do gênero, claro. E Renê Ramos potencializa a fragilidade do texto com tantas opções estéticas. Há erros grosseiros de elenco, e o figurino de “Garotos da Noite” também é outra metáfora bizarra. Quem sairia com um michê com uma blusa daquelas?  A opção de usar apenas as calças jeans – uma referência ao musical Blue Jeans? – em “Garotos Noturno”, funciona, e instiga o público pelo que há embaixo dela. Porém o troca-troca de roupas parece mais um desfile da marca que apóia o projeto, do que figurinos colocados a mercê do personagem.

Eis o grande problema, em ambas as peças a poucos momentos em que os atores foram trabalhados em prol do que há de bom e ruim dos seus personagens. Há algo de raso no universo desses homens, e não basta falar sobre os problemas, vivenciá-los e torná-los crível e situação obrigatória para que a emoção do público ocorra. Pouco se mostra (na questão física e emocional) em função de personagens que exigem bastante, convenhamos. Vide o que o cinema fez com Deborah Secco em “Bruna Surfistinha” – para ficar num exemplo (questionável, óbvio) tupiniquim.

Garotos da Noite - até 18/09 
Sextas e Sábado às 21h e domingo às 19h
Teatro Cacilda Becker: Rua Tito, 295 - Lapa
R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)

Garotos Noturno - até 27/10
Todas as quintas-feiras às 21h 
Teatro do Ator: Praça Roosevelt,172 - Consolação
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

 

 

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