| Álvaro
& Paul
Brasileiro e inglês se casam na Inglaterra
Por
Paco Llistó
|
19/01/2006 |
Álvaro
Ros Gillioli, 40, e Paul Carswell, 48, casaram-se no último
dia 9 de janeiro em Londres, na Inglaterra. Juntos há
4 anos, o agente de tráfego aéreo da South African
Airways e o especialista em RH conversaram com o Mix Brasil
sobre o seu “casamento”, na verdade sobre sua
união civil, que começou a vigorar no começo
de dezembro no Reino Unido e que já ajudou muitos casais
a oficializarem seus relacionamentos.
Famosos como Elton John e seu companheiro David Furnish foram
um dos primeiros a se beneficiar da nova lei, que garante
a casais do mesmo sexo direitos legais nas áreas de
emprego, pensão e herança semelhantes a heterossexuais
casados.
Seguindo
o exemplo de centenas de casais gays, o simpático Álvaro
e seu companheiro Paul afirmaram na entrevista que pretendem
celebrar o casamento com uma lua-de-mel no Brasil, no Peru
ou no Chile e que vêem a lei com bons olhos. “A
única coisa ruim é que teremos que assinar um
divórcio no caso de separação”,
brincou Álvaro.
Álvaro e Paul foram destaques na imprensa nacional
que, segundo eles, abordou o caso com “dignidade”.
“Fiquei muito surpreso com a Globo ter vindo em casa
e ter mostrado tudo, inclusive no cartório. Só
não mostraram nossos beijos no cartório e em
casa”, comemorou o agente de tráfego aéreo.
Sinal de que os tempos (e as leis) mudaram para melhor. Que
bom.
Leia
abaixo a entrevista
Como
você e Paul se conheceram? Desde quando vocês
vivem juntos em Londres?
Nos conhecemos há 4 anos num chat do site Gaydar. Há
3 anos vivemos juntos em Feltham, um bairro da zona sudoeste
de Londres. Eu me mudei para Londres em agosto de 1995, quase
11 anos atrás.
Como
e quando foi realizado o casamento? Vocês já
podem ser considerados "marido e marido"?
Nos casamos no cartório somente no dia 9/1 (é
muito provável que eu seja o primeiro brasileiro a
me casar no Reino Unido). A cerimônia foi bem simples,
com 2 testemunhas (os pais do Paul) e 4 amigos presentes.
Mais o repórter do Jornal Nacional. Sim, pela lei somos
"partners" ou cônjuges ou marido & marido.
Já
realizaram a lua-de-mel? Onde ela acontecerá?
Ainda não tivemos lua-de-mel nem tão pouco uma
cerimônia com festa para amigos e famílias. Nosso
plano é fazermos uma festa em agosto/setembro desse
ano e convidar amigos e familiares. Mas como a maioria dos
meus familiares mora no Brasil, é muito provável
(e também porque é mais barato) que façamos
uma festa/cerimônia no Brasil. Aí quem sabe podemos
ter nossa lua-de-mel no Amazonas, no Peru ou no Chile.
O
que há de melhor e pior na vida de recém-casado?
Bem, para nós que já vivemos juntos há
3 anos não há muita novidade (risos). Na vida
gay de antigamente, o morar junto era o casamento. Mas com
certeza o melhor é que temos uma segurança,
reconhecimento público e embasamento legal. A única
coisa ruim é que teremos que assinar um divórcio
no caso de separação (risos). Brincadeira...
Que
benefícios você obteve ao se casar com Paul?
Adotar uma criança, por exemplo, passa pela mente de
vocês?
Particularmente, eu não tenho benefício nenhum
porque tenho passaporte espanhol por parte de mãe.
Mas agora casados temos um patrimônio juntos: casa,
carro, aposentadoria. E poderíamos adotar uma criança
como um casal. Mas não temos planos para isso.
Na
sua opinião, qual a importância da lei de união
civil gay para aqueles que, assim como você, são
de outra nacionalidade?
No meu caso não me ajudou nem piorou, porque como disse,
tenho cidadania européia. Mas se um brasileiro estivesse
estudando por aqui e se apaixonasse por alguém do mesmo
sexo, poderia se casar e passar a viver aqui. Como já
acontecia há anos na Holanda, Dinamarca e Suécia.
E que, desde o ano passado, acontece na Espanha e no Reino
Unido. Mas não se pode solicitar o casamento do mesmo
sexo (“civil partnership”) no consulado. Os dois
têm que residir aqui no Reino Unido.
Vocês
conhecem algum outro casal binacional (algum brasileiro) que
tenha se casado desde que a lei foi aprovada?
Muito provavelmente, sou o primeiro brasileiro a me casar
no Reino Unido. Por isso foi noticiado no Fantástico,
Jornal Nacional, Estadão e Veja.
Como
a sociedade inglesa tem reagido à nova lei? Houve alguma
repercussão negativa?
Sempre há uma ou outra oposição. Mas
já que a lei foi instituída, mostra que a sociedade
respeita. Se não aceitarem, problema de quem não
aceita. Agora é legal.
E
as famílias de vocês? Aceitaram o casamento?
Sim, dos dois lados. Só meu pai que ficou meio assim.
Mas na verdade é porque ele não soube de nada
e viu tudo pela mídia. Meus pais são divorciados.
Minha mãe mora em São Paulo e meu pai em Americana.
O telefone dele mudou e ele não nos avisou. Ele não
é de me escrever muito, e eu tampouco.
Como
o casamento repercutiu na imprensa brasileira e internacional?
Vocês gostaram da abordagem?
Sim. Foram abordagens sérias e mostraram a coisa com
dignidade. Fiquei muito surpreso com a Globo ter vindo em
casa e ter mostrado tudo, inclusive no cartório. Só
não mostraram nossos beijos no cartório e em
casa... Mas acho que para a sociedade brasileira começar
a discutir esse assunto, tem que ser um pouco assim desse
jeito. Se entrar de sola, não se vai conseguir muito.
Temos que mostrar que existem casamentos homossexuais como
os heterossexuais. E que há casamentos héteros
e de homos que são diferentes do que a “norma”
diz. Cada casal sabe o que é melhor para si. Com ou
sem papel. Com ou sem filhos. Relação aberta
ou não. Em casas separadas ou não. E por aí
vai. Os héteros que disserem que isso não acontece
na relação deles estão mentindo. E muito!
Agora, se a repercussão foi boa, vocês precisam
nos dizer.
Pretendem
continuar morando em Londres ou planejam vir ao Brasil?
Não pretendemos sair de Londres. E ir ao Brasil só
nas férias e para visitar amigos e família.
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