| |
|
David
Cardoso
Rei da pornochanchada lança livro e faz confissões
para o Mix Brasil
Por
Ferdinando Martins
Foto: Divulgação
|
5/4/2006 |
David
Cardoso é uma figura ímpar no cenário
brasileiro. Ator e diretor, ficou famoso nos anos 70, quando
seus filmes dominavam o cinema nacional em produções
que focavam o erotismo e a busca de prazeres. Celebrizado
como o rei da pornochanchada, David gosta também
de ser reconhecido como ambientalista e defensor das minorias
atividades que, efetivamente, ele desempenha na região
do Pantanal. Amante do culto ao corpo, ele ousou há
alguns anos posando nu na G Magazine, depois do sucesso de
seu filho, David Cardoso Jr., nas páginas da revista.
Lúcido e corajoso, nesta entrevista para o Mix Brasil,
David fala de seu livro, a autobiografia O Rei da Pornochanchada
(Editora Letra Viva) e sobre como gays sempre estiveram presentes
em sua vida.
Você
está com 62 anos e já fez muita coisa na vida:
atuou, dirigiu, defendeu o meio-ambiente. Por que agora escrever
um livro?
Há
muito tempo eu tinha essa idéia. Tenho um público
grande, de fãs, para quem, na época da pornochanchada,
eu era tão adorado quanto o Roberto Carlos era na música.
Pensei: estou bem de saúde, minha situação
financeira está estável, a pornochanchada não
vai mais voltar. Por que não contar tudo o que sei
e aprendi? Foi assim que comecei a escrever.
E
o que você conta no livro?
É
um trabalho polêmico. Eu queria, e acho que consegui,
denunciar tudo que vejo de errado. Quer um exemplo? Falo de
um apresentador de televisão que apareceu o tempo todo
a favor do desarmamento, na época do referendo. Acontece
que ele mesmo vive rodeado de seguranças que andam
armados. Pode? Eu precisava falar desse tipo de hipocrisia.
Você
disse que o livro vai agradar os gays. Por quê?
Bom,
parte do meu público é gay e eu conto histórias
mostrando como eles sempre estiveram presentes na minha vida.
Os gays aparecem o tempo todo em situações positivas
e mostro a importância dos homossexuais para o cinema
e o teatro. Sabe de uma coisa? Eu valorizo muito isso. Duvido
que alguém tenha todos os discos da Bethânia,
do Elton John e do George Michael como eu.
E
como os gays estão presentes em sua vida?
Sempre
trabalhei com gays. Tenho funcionários gays, vou a
lugares gays. Quer saber? Cinco ou seis gays já fizeram
sexo oral em mim. E eu falo isso sem vergonha, sem hipocrisia.
Aconteceu porque tinha que acontecer e eu prefiro dizer a
verdade. Tem cara que diz fiz porque estava precisando
de dinheiro ou coisa parecida. Eu não. Eu fiz
porque quis. Uma vez, eu dei carona para uma travesti e sua
irmã. Cheguei na casa delas e dormi porque estava muito
cansado. Quando acordei, no dia seguinte, elas tinham saído,
mas me deixaram um bilhete. Um mês depois, liguei e
conversei com Márcia, a travesti. Eu disse que havia
gostado daquela noite. Marcamos de sair, ela fez sexo oral
em mim e foi bom.
Você
gosta de ser identificado como o Rei da Pornochanchada?
Gosto,
sim. Na época eu tinha o físico apropriado e
fazia sucesso com as classes mais populares. Até hoje
perguntam para mim como foi contracenar com a Matilde Mastrangi.
Eu me sinto querido pelo pessoal da noite, pelas pessoas mais
humildes. Mas não gosto de exageros. Outro dia, um
repórter que há dez anos escreveu que eu era
o rei e que já tive mais de mil mulheres, voltou a
escrever do mesmo jeito. Eu disse, brincando, para corrigir,
dizendo que eram, pelo menos, mil e trinta e oito e meio,
já que havia passado o tempo. Ele me perguntou: por
que o meio? Eu respondi: porque tenho ejaculação
precoce.
Além
do livro, que outros projetos você pretende realizar?
Continuo
com minhas atividades de ambientalista no Mato Grosso. Tenho
também o contrato com o Pelé para fazer um filme
no Pantanal. O título provisório é Amor
pantaneiro. Só não realizei porque não
consegui apoio suficiente. Nenhuma lei de incentivo vai apoiar
o Rei da Pornochanchada. A idéia, que continua em pé,
é fazer uma espécie de Rambo brasileiro,
mas ecológico. Também penso em reencenar Os
Homens, peça que levei aos palcos em 1968, no
espaço do Teatro Oficina. O texto mostra a homossexualidade
dentro das prisões, sobre o relacionamento difícil
de um homem que amava outro.
E
a idade, pesa?
Eu
ainda malho bastante, mas a idade começa a pesar. Já
sinto as rugas, o peito mais mole, penso em fazer plástica
embaixo do pescoço. Afetivamente, não vou perder
oito horas da minha vida atrás de uma mulher. Outro
dia, uma me ligou e eu pensei: cinema, jantar e depois sexo.
Muito tempo. Prefiro fazer outras coisas. Antes eu atravessaria
a cidade para me encontrar com alguém. Agora não.
O
respeito pela natureza veio quando?
Sempre
tive, mas virei ambientalista quando fui morar no Pantanal.
É minha vida nesse momento. Para economizar água
eu abro e fecho a torneira 23 vezes enquanto faço a
barba.
Você
foi assistir Brokeback Mountain?
Fui
duas vezes! Que filme lindo! O Ang Lee acertou em tudo. Que
coragem! A cena de sexo na cabana é brutal, mas é
muito doce. Incrível. É um filme que eu gostaria
de ter feito, sem dúvida.
|