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Mauro Borges
43 anos. 17 anos como DJ. "A cabine é meu palco"

Por Marcelo Cia e Ricky Mastro

4/3/2005

Em 1988 a figura do DJ era secundárias para um clube. Eles praticamente não apareciam na festa. As cabine eram escondidas, escuras. Mauro Borges era um amante da noite, adorava dançar. Ele tinha 25 anos e fazia parte do casting do grupo que deu origem ao Nation, clube que detonou novas formas de entender a noite e de se divertir. E lá Mauro tornou-se um ícone. A cabine virou palco e o DJ virou atração.

Depois do Nation veio o Massivo e o resto é história. Mauro completa 43 anos com a mesma vitalidade de 17 anos atrás, quando tudo isso começou a tomar forma. Continua comandando as cabines e dançando uma mistura de tudo, de break, vogue, hip-hop... Aqui ele (re)lembra seu começo, suas histórias saborosas e decreta: "não quero parar"!


Qual foi seu primeiro contato com a noite?
Faz tempo viu (risos), Foi no Medieval. Ali na Rua Augusta, era o mais famoso na época. Tinha 16 anos.

Como foi?
Carterinha falsificada. Tinha muita liberdade sexual na época, muito mais do que agora. Era pré-Aids né. Tudo era um turbilhão. Eu sou muito cauteloso nos meus atos. Apesar de parecer que eu me jogo, na verdade eu não me jogo. É uma coisa do personagem. Na verdade sou até tímido.

E o que te atraiu?
A música. Era a época da Disco-Music. Os grandes clássicos. Era a melhor fase da Disco.

Ali você percebeu que queria trabalhar naquilo?
Quando eu estava estudando ainda, no segundo colegial, eu ficava desenhando globos, pista... Ficava fazendo a minha discoteca. Pensava em ser jornalista, mas o que eu queria era ter um clube. Muita coisa acabou acontecendo.
Mas o que mais me pegou mesmo foi dançar. Sinceramente o que eu gosto nesta história toda é de dançar.

Mas você ficou como 'frequentador' apenas até quando?
Muito tempo ainda. Até 97. Eu adorava ir para a pista. Dali eu frequentei todos os clubes. Eu sempre dancei desde criança. Dançava break com os meninos da rua. Dancei hip-hop. No começo dos anos 80 eu dancei new wave. Acompanhei tudo.
Então a dança sempre foi a prioridade. Um estrobo estava de bom tamanho na minha vida.

Mas aí teve um momento: 'vou virar DJ'?
Em 86 eu trabalhei numa loja que chamava Bossa Nova, lá vendia singles importados, revistas do mundo inteiro, clipes. E era o começa da house. Antes tinha o high-energy, que era muito forte na Inglaterra. Eu era vendedor. Joyce Pascovitch, Mario Mendes, Renato Russo, Walter Rodrigues... Todos eram clientes ou amigos da loja. Era um ponto de idéias. Nos sábados passavam clipes da Madonna, Bauhaus. Lá eu conheci o Renato Lopes e conheci também um casal de italianos que resolveu me levar para a Europa. Fui para Milão e lá trabalhei em um bar. Lá todo mundo era fashion, inspirados nem estilistas novos na época. No final de 88 acabei voltando e encontrei com o Renato e com os meninos que queriam montar o Nation. Eles queria fazer algo novo. Mudar. Eu tinha um monte de idéia e eles tinham outras ótimas.

Eu não ia ser DJ, iria ser porteiro. E eu sempre palpitava no som, daí o Elói (Elói W) falou: 'porque você não fica como DJ?'

Como foi?
Na primeira noite já foi incrível. Toquei pencas de Madonna. E ninguém tocava Madonna na época. Depois voltei para a Europa, fiquei um ano. O conceito do Nation era misturar heteros e gays. Nós queríamos mostrar que gay não precisa viver de forma isolada. Isso foi o mais inovador.

Você gostava?
Da Nation? Claro. O Nation tinha uma mistura visível de público. Nunca ninguém tinha visto algo daquele jeito. A bandeira do Nation era a mistura de público. O clube deu origem ao grupo Que fim levou Robin? e n´so fomos para a TV. Era polêmico, irônico e assumido.

Como era a figura do DJ até ali?
Os DJs eram discretos. As cabines eram escondidas, ou colocadas em lugares que ninguém via. O Dj era algo tímido de óculos e camisa social. E a Nation mostrou que o DJ não tinha tanto assim para se concentar, que ele fazia parte da festa e podia se divertir também. Mas isso era um conceito do clube, não foi algo que surgiu do nada. Não é meu, é do Nation. Lá a atração era o DJ.

E o que é seu?
A diferença minha para os outros é que eu sempre fui performático. A primeira música que eu pus já sai dançando. As pessoas achavam engraçado. Eu fiquei por um bom tempo investindo na performance. Uma vez fiz um boné todo de paetê, daí apagava toda a luz da pista e ligava um foco só na minha cabeça, que ficava se mexendo com a música (risos). Eu pensava nessas coisas e produzia.

A gente mudou tudo. O DJ virou o centro da atenção das pistas. No começo a gente só pensava em animar a pista. Seis meses depois a preocupação já era trazer as vanguardas músicais. A gente começou a perceber que os estilistas estavam começando a ir lá, eram todos em começo de carreira. Todos foram lá, fale qualquer um... Ele foi. Tem muitos que nunca foram mas dizem que íam. Tem isso também.

A atitude da noite de hoje é muito parecida com a atitude do Nation. Essa coisa do povo ficar batendo palma na frente da cabine começou lá.

E o Massivo?
Era tudo tão libidinoso. Se 15 homens quisessem se beijar, podia e acontecia (risos)

E você provavelmente estaria no meio deles....
É verdade. No Massivo a gente tinha controle total de tudo (eu e a Bebete Indarte). Muita coisa que a gente queria implantar no Nation a gente só foi conseguir no Massivo. Como ter uma hostess por exemplo (a primeira foi Helô Ricci). Depois teve o Cacá Palito (Caca di Guglielmo). Tudo muito moderno. Até me cansou.

Até o Massivo tudo era 'tentando-se'. Não tinha o mercado do tamanho que é hoje. Não tinham opções. Até pintar parede a gente pintava.

Com o Kravitz rolou a primeira polarização.
Não. Porque lá no Krawitz a música era outra. Todos eram vistos. como loucos, ninguém acreditava que nós tínhamos algo a dizer. Até os gays achava a gente exagerado. Os gays usavam um uniforme para sair caretérrimo. A gente infernizava as pessoas. Quem entrava na nossa turma virava 'bandido'.

O povo passava na porta no Nation e gritava 'Gaytion'.

Só no Massivo a coisa começou a mudar nesse sentido. Porque os heteros começaram a perceber o mundo gay de outras formas. As drags por exemplo estouraram antes para os heteros. Eles idolatravam as drags. A Salete, Paulette... São queridas até hoje por eles.

Tudo era muito excitante. Os clubes todos fechavam as 4 horas. O Massivo fechava as 7horas e de quinta para sexta eu fechava as 10. Era in-crí-vel. Era o dia mais gay.

E o culto ao DJ?
Pois é. Lá tinha. Mas isso nunca existiu nos clubes gays.

Porque?
Porque é uma cena complicada, que tem pouco trabalho e o DJ tem que se auto-afirmar. Eu escuto DJs da cena hetero ou mixed dizendo coisas boas ao meu respeito, mas nunca ouço isso de DJs gays. Tem DJs que são queridos, mas não é culto, é só um prazer de saber que o DJ tal tá tocando. Eles sabem que vão se divertir com o cara, não cultuam. Isso não é uma característica gay.

No carnaval o povo levava faixa para o Fatboy Slim em Maresias (no Sirena). No mundo gay cada um é estrela de si mesmo.

E a pulverização?
Foi depois de 92. Com o Krawitz e o Massivo juntos, ambos com público, o povo começou a perceber que poderia segmentar, aí apareceu o Samanta Santa, o Ursa Maior.... Mas até o base tudo era muito complicado. Porque eles conseguiram pegar várias idéias bem sucedidas no underground e formatar para os mauricinhos. De lá para cá tudo ficou muito grande e perdeu a graça. Mas eu continuo me divertindo.

E você pensa em parar?
Não, há três anos atrás eu estava desencanadinho. Hoje já mudou tudo, tem tanta coisa acontecendo. Não vou parar. A cabine é meu palco.

Mauro comemora com festa seu aniversário nesta sexta (4/3) na Disco Fever, lá na Rua Santo Antônio



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