| |
|
Penteia
Yansã: A Negra Jho do Pelô
Baiana, batalhadora, rainha, negra
e mulher bicha. Vai encarar?
Por
Marccelus Bragg
|
11/11/2004 |
"Cabelo,
cabeleira, cabeludo, descabelada..."
...cabelo pode ser tudo e ainda por cima ter um luxo especial.
Voce faz dele uma obra de arte se você tiver a sorte
de ser penteado pela Valdomira Telma de Jesus - a bela Negra
Jhô [Negra Luz no Yorubá].. Terá estilo.
O difícil é saber o que fazer no mucumã
[cabelo]. Tem mil maneiras de deixá-lo fashion, cabelo
rasta com tratamento especial, torços, turbantes, enfeites
diversos, miçangas, fios de palha, contas e búzios,
tererês, apliques, cortes radicais e tranças
estilizadas que se tornam penteados únicos e exclusivos
da mestra Jhô. Porém antes de arrumar a cabeça
desarme o espírito.
O meu conselho é que você se desimbeste dos preconceitos.
É tão lindo um look africano não comportado.
E chegando na Bahia. Vista a cores da terra e se deixe guiar
na Roma Negra pelos seus bons instintos é claro. Para
os amargos, complicados e cheios de frescura: Figa neles,
Chocotô bororó e mangalô três vezes,
fiquem em casa e não apareçam no Pelô
por favor. Só queremos paz e alegria. Agora aos de
corações abertos. A Bahia os espera. Não
tenham pressa, aceitem os sorrisos e as ingênuas intimidades
dos soteropolitanos e se joguem no clima da terra. E pra ficar
mais bonito [a] porque feio ninguém é
atente que a dona beleza vive nos olhos de quem vê
você já está convidado a conhecer a mulher
que faz a cabeça da gente.
A deusa do ébano Negra Jhô que cria tendências
e estilos no melhor do afro-visual in. E pra não deixar
passar branco, porque não quero ser execrado pelas
bibas, registro que a risonha Jhô, além de ser
uma mulher de muita raça e coragem, é uma das
Divas Negras da comunidade gay. Quando chamada a colaborar
com o GGB, lá está ela toda disposta pro que
der e vier. Madrinha de Parada Gay? Não tem dificuldade,
lá vai a super negra pra Feira de Santana ou pros confins
da terra. E deslumbrante, reina absoluta e não escapa
um trio elétrico em que não esteja em cima.
Tranças e apliques em travestis ou bibas estilosas?
Fazem fila à porta do seu salão de beleza.
A energia desta mulher é contagiante. Ela é
quase um sol cercada por estrelas gays, mais friendly que
a negona do Pelô? Duvido, ela mesmo se define: Sou
das contas, dos búzios e adoro uma fechação.
Uma mulher bicha e daí? Vai encarar?
A
Negra Jhô o Cabelo e a cabeleira, sempre foi assim?
Desde
"Quarinda" a minha boneca de pano. Eu adorava pentear
a descabelada. Fazia tranças com fios de sisal nas
vizinhas e me sentia a própria. Outra coisa, eu tinha
pouco cabelo. Meu irmão Nilton tirava a maior onda
me chamando de "John". Eu fazia tudo e nada do cabelo
crescer. Era dona de uma carapinha meio sarará que
não ia a lugar nenhum. Cresci e quando assistia na
TV os filmes de Tarzan - com aquelas africanas cheias de roupa
estampada e com cada penteado chocante. Eu me dizia: "ainda
vou ser uma mulher dessa". Eu era sapeca mesmo, brinquei
muito de bola de gude, empinei arraia e não comia reggae
de ninguém. Uma das minhas peraltices era me arrastar
pelo chão no Terreiro de Joãozinho de Xangô
e por baixo das saias das ekédes - espiar o cantar
pra Exú. Quando o Ogã nos pegava era muito cascudo
e puxão de orelha. Naquele tempo o ritual era muito
secreto, cheio de melindres e cercado de mistério e
eu louca de curiosidade queria ver tudo e só me restava
ficar escondida entre as pernas das mães de santo.
Yansã
penteia? Do Quilombo ou Quilombola é a Negra Jhô?
E quando a vida diz não o tempo diz sim?
Sou
filha de Ogum com Yansã. O meu temperamento é
assim: Quando sou amiga sou ótima, agora quando me
fazem desfeitas se cuidem, como inimiga sou melhor ainda,
me torno excelente! Se não posso sozinha, se me falta
forças pra resolver a pendenga, entrego ao senhor tempo.
" O tempo sim, bota todo mundo no seu lugar ele tem a
resposta que eu preciso". Já enfrentei muito "não",
chegou a minha vez e agora eu vou atrás do "sim".
Deus é pai, não é padrasto. Pra ingratidão
eu tenho um escudo no coração. Por parte de
papai descendo do Quilombo da Fazenda Caíque e de mamãe
o da Murimbeca [alí perto em Madre Deus. ]
Possuo
raízes africanas autênticas. Não fujo
à regra e igual a Yansã trato as minhas coisas
com firmeza, sentimento e respeito
O
que a faz ter tanto carisma entre os homossexuais que a escolhe
madrinha nas Paradas do Gay Pride?
Só
se eu fosse maluca pra discriminar alguém. Sou negra
e sei o sofrimento e a dor que sente quem é humilhado
e deixado de lado por ser diferente. Em meu salão a
palavra de ordem é tratar igual a todo mundo. Prostituta,
travesti, turista gringo, gay, artista, doutor ou desembargador.
Cabelo é cabelo. E depois amo de verdade os gays. São
parte da minha vida. Tenho familiar gay. Tenho amigos que
são gays. Eu nunca teria vergonha de um filho homossexual.
Preconceito é uma coisa mesquinha. Eu te pergunto,
que mal fazem os homossexuais? Nenhum! Cada pessoa tem que
ser feliz à sua maneira. Imagino que o respeito entre
as pessoas é o fundamental. Não levamos nada
desta vida a não ser a felicidade dos bons momentos
que passamos.. . Principalmente considero as pessoas . Você
só recebe carinho se dá carinho. Eles passam
na minha porta, me gritam, acenam, me jogam beijos e me abraçam
por onde passo. Gostam de mim e eu deles. E depois eu me acho
uma mulher meio gay - abuso das cores, dos penduricalhos,
das miçangas, dos colares e dos brilhos - mais fechativa
do que eu, sei não...o que vale mesmo é a alegria.
Se ser gay é também ser feliz, então
que mal há?
Eles
gostam da Negra Jhô e eu não sou ingrata quando
me admiram de verdade.
A
Jhô é uma apaixonada?
Quem
não tem paixão é pagão! O infeliz
morre esturricado de infelicidade e não há salvação.
É o amor que nos batisa e ilumina a alma. Tá
aí meus filhos Wagner [25] e Kayiodê [5] e a
minha netinha Kailane [1] que são meus amores e as
grandes paixões da minha existência. Todo dia
me apaixono por ser como sou e por ter saúde e força
pra encarar de frente a vida como ela é. Meu pai Oxalá
sabe que lhe sou grata. Quantos aos homens, sempre fui adepta
do " que seja eterno enquanto dure". Não
tem porque se ficar junto quando morre a chama da paixão.
Eu não sou mulher pra mendigar amor de ninguém.
Quem ficar comigo tem que gostar de mim. E se não for
assim, paciência, a porta da rua é a serventia
da casa....vai com Deus.
Arruda
e sorte pro Senhor do Pelô?
Muita
arruda, água de cheiro e Axé pro nosso ídolo
maior. O Oxalá poderoso da nossa Terra. Um homem que
vive repetindo que "ama a Bahia e que muito devoto não
falta ao cortejo do Senhor do Bonfim" que fez o Pelourinho
ressurgir das cinzas. Eu adoro ACM pelo que ele representa
de amor, carinho e paixão por nossa gente. Tomara que
as forças do bem o acompanhe sempre e que o nosso senhor
do Pelô ACM possa socorrer a Bahia nas suas necessidades.
Longa vida, saúde e muita sorte.... e muita arruda
da Negra Jhô pro Senador!
As
estrelas da Jhô brilham? Quem é quem no seu salão?
Todos
brilham. Cada cliente meu é uma celebridade. "O
baiano já estréia quando nasce" [risos]
. Todos tem o mesmo tratamento. Apenas algumas pessoas são
mais conhecidas que as outras. Estão na mídia,
trazem a publicidade consigo e necessitam muitas vezes de
uma privacidade - livre do assédio dos fãns
- para escolherem o penteado e se disporem à faze-lo
com calma. Por meu salão já passou o Thiago
Lacerda, a Gil, Mariana Ximenes, Elba Ramalho, Luigi Barrichelo,
Pepeu Gomes, Virginia Rodrigues, Tony Garrido, Ivete Sangalo,
Aloízio Menezes, Marcelo Cerqueira, Regina Case, Daniela
Mercury, Carlinhos Brown, meus músicos maravilhosos
do Olodum, do Ylê e da Timbalada, Tonho Matéria
e muita gente mais. Mas no fundo todo mundo é igual,
todos querem ficar mais bonitos. A vaidade de estar com eles
não me sobe à cabeça, porque gente é
gente e quando se morre a terra come. Mas tenho tido a sorte
de ter muitos amigos e amigas famosos que fazem lindos penteados
comigo. É mais um reconhecimento ao trabalho dos "Penteados
Afros - Cabeça de Negro da Negra Jhô".
E
o cenário da Negra Jhô é o Pelourinho?
Olha,
a minha história de vida se confunde com as lendas
e mistérios deste bairro. Aqui me vêem trabalhar,
no Pelourinho faço amizades e mostro o meu trabalho
como cabeleireira e esteticista - crio tendências e
divulgo novidades em penteados afros no "Cabeça
de Negro". Daqui deste reduto negro de arte e magia parti
para ser Rainha e brilhar nos principais blocos afros desta
velha Salvador. Fui mulher negra símbolo de carnavais.
Madrinha de Paradas Gays. Baiana seleta de cortejos do Bonfim.
Garota propaganda de marcas populares, etc... Até fui
santa. Não duvidem não porque na última
Semana da Quaresma e sob as águas do Dique fui a mãe
de Jesus - a Nossa Senhora Negra da encenação
" A Morte e a Paixão de Cristo". Ao lado
de outros atores encenei também outro personagem importante:
A padroeira do Brasil, tive a honra de ser Nossa Senhora Aparecida
por alguns momentos. O Pelourinho me dá muitas alegrias.
E quanto a valorizar a mulher afro descendente, isto é
comigo mesmo. Sei que tenho um feeling para descobrir belezas
. Já indiquei cinco belas rainhas e princesas negras
que brilham nas festas e nos eventos. Já tenho convites
e estarei, com as graças dos meus orixás firme
e forte no carnaval 2005.
Sem
luta não há vitória, isso vale pra Negra
Jhô?
Sou
uma negra vitoriosa. Tenho muito que fazer ainda. Tenho um
sonho antigo de ver transformada em ONG um projeto meu de
cultura, profissionalização e arte aos descendentes
de Quilombos. Mas um dia chego lá. Não me acovardo
diante do trabalho e mas na hora do prazer sei me divertir
muito bem. A vida da gente passa muito rápido e perder
tempo não é comigo. Aprendi que a felicidade
está dentro da gente e pra terminar este papo um recadinho:
nada como um dia atrás do outro pra curar um desgosto.
Negro feliz é negro que se ama. Um beijo e todo axé
da Bahia em vossos corações.
|