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A Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura, abriu um edital de concurso para a seleção de projetos na área de Expressões das Culturas Populares. O concurso insere-se no Programa Identidade e Diversidade Cultural Brasil Plural. A SIDC é um dos órgãos do governo federal que mais apóia atividades voltadas para o público GLBT. O anúncio dessa linha de fomento a projetos na área de culturas populares fez com que vários ativistas gays se entusiasmassem com a possibilidade de se pesquisar a arte popular gay. No entanto, a pergunta feita logo a seguir foi: isso existe? De acordo com o Ministério, a cultura popular é a expressão mais legítima e espontânea de um povo. A definição oficial, portanto, explica que esse tipo de cultura ao mesmo tempo em que carrega em si elementos fundadores de uma cultura, resulta de um constante processo de transformações, assimilações e misturas. Ao assumir e reconhecer sua fundamental importância para a construção de uma identidade nacional que compreenda toda a diversidade das manifestações culturais do Brasil, o Governo Federal dá um passo importante em direção ao fortalecimento de uma consciência cidadã no país. A arte popular é um conceito controverso, especialmente depois do advento da cultura de massas aquela difundida pelos meios de comunicação como a televisão e o rádio. Em oposição à massificação da cultura de massas, a arte popular aparece, hoje, como uma forma de resistência de formas mais típicas de expressão de uma comunidade. No caso de uma arte popular gay, as questões que se colocam são: 1) Existe uma arte gay? 2) Se sim, existe uma arte popular gay? A resposta é complexa e permeia os campos da História da Arte, da Antropologia e da Sociologia. O conceito de uma arte gay ou de uma arte queer surgiu nos países anglo-saxões, ligada aos Estudos Culturais e à idéia de multicultaralismo. O conceito, no entanto, nunca foi claramente definido e, em geral, abarca manifestações artísticas ou com temática homoerótica ou feita por homossexuais. O site Gay Art Gallery destaca que a razão de se fazer o recorte em função da orientação sexual é uma forma de voltar-se contra a censura que durante séculos impossibilitou artistas gays ou obras com temática homoerótica virem a público. O site só aceita o trabalho de artistas com mais de 18 anos.
"Você ainda encontra heterossexuais com as melhores da intenções que disparam bobagens do tipo 'os gays têm bom gosto', 'são tão talentosos', 'levam uma vida tão interessante', ou 'são um importante grupo de consumidores'. Isso mantém o gays à parte da sociedade em geral. Nova York está cheia de sem-teto homossexuais. Os homens gays não vivem apenas em casas com design bonito em Santa Monica. Milhões de gays estão vivendo em bairros pobres e recebem a mesma educação de merda como todos os outros. Mas uma boa parte da cultura homossexual sustenta essa imagem de conto de fadas, essa imagem de Cinderela que nós queremos combater", declara Elmgreen. Nesse contexto, o trabalho artístico deve ser um forma de combater a alienação entre os gays. "Se você trabalha com imagens, deve ter a consciência de não criar mais preconceitos, que você não está excluindo outros grupos apenas porque sua identidade não se ajusta com a figura pública que você tem delas". Se você for um punk que faz grafite não ajuda muito o fato de que a aceitação dos homossexuais está baseada nos valores da família nuclear cristã. Um caso óbvio disso é o do ex-prefeito de Nova York, Giuliani, que declarou estar fazendo um bem para os homossexuais ao fechar os bares sujos da cidade. "Eu fiquei muito aborrecido vendo-o na Parada Gay", disseram os artistas. Outro ponto de ataque de Elmgreen e Dragset é o mercado de arte que usa os chamados "artistas das minorias" para desempenhar o papel do "exótico", como quando são convidados para apimentar eventos culturais. "Por décadas esses artistas são mostrados como uma coisa só, atrás do grande branco heterossexual macho. Isso teve início na história da arte européia e serve apenas para confirmar a centralidade de sua tradição", declara Dragset. Hoje, a dupla procura valorizar a masculinidade, saindo em defesa de uma estética livre do estereótipo do gay sensível. "Somos às vezes criticados por não ser suficientemente gays, ou por sermos muito machos, especialmente quando fazemos performances que envolvem trabalho mais 'macho' ou por causa de nossas grandes instalações ambientais. Há um perigo ao definir a identidade gay dessa maneira tão limitada, que não deixa espaço para o lado masculino. Para mim, é um pouco estranho excluir a masculinidade do trabalho apenas porque ela tem uma má-reputação. Trabalhos de grande proporção ou que mostram uma atividade masculina não podem ser consideradas necessariamente repressivos da mesma forma que uma expressão artística mais vulnerável e efêmera não pode ser vista como necessariamente como mais progressiva. Afinal, quem pode julgar o que é gay? A propaganda usa ícones gays estereotipados para vender camisetas nas revistas do tipo da The Face, mas essas imagens não representam de fato a totalidade do que a identidade gay é hoje." A "estética gay dominante" que Elmgreen repetidamente ataca é definida como uma mistura do kitsch com o minimalismo. Dragset afirma que a cultura visual gay é predominantemente kitsch, mas que nos últimos anos tem sido influenciada pela cultura jovem urbana, que é minimalista. Os ambientes adquirem um ar de lounge, que o artista chama de "wallpaperização", referindo-se à revista de estilo e modo de vida. "O minimalismo virou pop", conclui. Percebemos, portanto, que os limites entre a arte gay e a não-gay são mais uma criação do mercado do que algo efetivamente pertinente aos artistas. Transpor esses conceitos para o âmbito da arte popular não é fácil. Seguindo o critério de se incluir todas as formas de arte popular ou feita por gays ou com temática homoerótica, há muito que pode ser explorado. É o caso, por exemplo, de verificar a literatura de cordel, os quadros das feiras de artesanato e as cantigas populares. Sendo esse um núcleo mais resistente à mudança, se os pesquisadores encontrarem algo de novo, isso pode indicar que mudanças estão acontecendo. E muito além dos Jardins. |
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