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Débora Colker erra!
Depois de uma carreira de êxito, último trabalho da coreógrafa falha

Por Ferdinando Martins

26/9/2005

“Nós” era um espetáculo desejado pelo público paulista. Depois de uma temporada com lotação esgotada por três meses no Rio de Janeiro, o último trabalho de Débora Colker estreou em São Paulo na semana passada, no Teatro Alfa. O espetáculo, porém, decepcionou.

A coreógrafa carioca tem uma carreira consolidada na dança contemporânea, com trabalhos inovadores e criativos. “Nós”, no entanto, tem uma proposta fraca, movimentos angustiantes e falhas de acabamento.

A proposta inicial era inusitada: com 120 cordas emaranhadas no palco, os bailarinos se amarram, em movimentos de aprisionar e libertar. Assim como o desejo, as cordas provocam prazer e dor, sofrimento e libertação. “Nó” fez sua estréia mundial no dia 5 de maio no Festival de Wolfsburgo, na Alemanha, onde se apresentou por quatro dias, com enorme sucesso de público e crítica. No Brasil, estreou no dia 3 de junho temporada popular de dois meses no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.

No primeiro ato, os bailarinos se movimentam em meio ao emaranhado de cordas. Cordas que dão nós e simbolizam os laços afetivos que nos amarram. Cordas que servem para aprisionar, para puxar, para ligar, para libertar. Em uma companhia marcada pela disciplina, foram necessários meses de treinamento exaustivo para lidar com o acaso das cordas, já que, a cada dia, os movimentos saíam diferentes. No entanto, quem foi esperando grandes inovações no tema, saiu decepcionado: os laços estabelecidos mostravam uma semântica precária: os bailarinos uniam-se e se separavam aleatoriamente, mostrando que os relacionamentos podem ou não durar, podem ou não trazer satisfação, podem ou não ser harmônicos. Ok. Nada que uma espectadora da novela das oito não saiba.

No segundo ato, o palco é ocupado por uma caixa transparente de 3,1 x 2,5 metros, uma criação do cenógrafo Gringo Cardia. A inspiração veio de uma viagem que Deborah fez a Amsterdã, na Holanda, onde visitou o Red Light District (Bairro da Luz Vermelha), em que garotas de programa se expõem em vitrines nas fachadas das casas. O problema é: o cenário está mal acabado. Na parede, preenchida com uma cobertura vermelha, é possível ver bolhas e amassados, como se tivessem sido cobertas em um trabalho escolar, improvisado. Nesse ato, a coreografia se torna angustiante. A própria Débora começa com passos desconexos, perdida. Se intenção era justamente essa, nada sinalizava. Os movimentos são arrastados, com muita contorção e quase nada de expansão.

Os figurinos de Alexandre Herchcovitch também não empolgam. Um colan cor da pele era coberto com panos pretos e vermelhos, ora sinalizando partes do corpo, ora denotando roupas íntimas.

Ainda bem que nada disso desabona Débora. Pelo contrário, só reforça o talento da artista que, infelizmente desta vez, não está sintonizado como das outras vezes.

 



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