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Poesianomix

António Botto (1897-1959) nasceu em Alvega, Portugal, 
indo muito jovem para Lisboa, na companhia dos pais.
Trabalhou numa livraria, indo depois para África como
funcionário público. Em 1947 partiu para o Brasil,
morrendo atropelado no Rio de Janeiro em 1959.
A sua obra poética, talvez o mais brilhante conjunto de
poesia homoerótica da língua portuguesa, é muito vasta.
Sua obra mais conhecida é Canções, publicada em 1921 e
desde logo causadora de escândalo nos meios intelectuais
portugueses por ser uma obra explicitamente gay.
Além desta obra, publicou: Cantigas de Saudade (1918),
Canções do Sul (1920), Motivos de Beleza (1923),
Curiosidades Estéticas (1924), Piquenas Esculturas (1925),
Olimpíadas (1927), Dandismo (1928), Ciúme (1934),
Baionetas da Morte (1936), A Vida que te Dei (1938),
O Livro do Povo (1944), Ódio e Amor (1947),
Fátima - Poema do Mundo (1955),
Ainda não se Escreveu (1959).
No Brasil, a antologia Bagos de Prata foi publicada
pela Olavobrás, editorial de Curitiba, com apresentação
de Glauco Mattoso.
CANÇÕES 


1

Venham ver a maravilha
Do seu corpo juvenil!

O sol encharca-o de luz,
E o mar, de rojos, tem rasgos
De luxúria provocante.

Avanço. Procuro olhá-lo
Mais de perto... A luz é tanta
Que tudo em volta cintila
Num clarão largo e difuso...

Anda nu - saltando e rindo,
E sobre a areia da praia
Parece um astro fulgindo.

Procuro olhá-lo; - e os seus olhos,
Amedrontados, recusam,
Fixar os meus... - Entristeço...

Mas nesse lugar fugidio -
Pude ver a eternidade
Do beijo que eu não mereço...


2

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
- És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.


3

Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo -
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
- desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha - 
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.


4

Ia a tarde no final.

Somem-se os últimos ecos
Duma jota aragonesa.

E a tarde,
Não tem o ar natural
De quem falece na sombra.

Quando Ele surge na arena
- Uma flor de oiro! -
Sensualíssimo, viril,
E flexuoso
Procura aproximar-se do toiro
A multidão
Refulge num delírio de loucura.

Então,
Com suprema galhardia
Ergue o braço 
Para matar.

Há uma luz de labareda,
E o silêncio é mais profundo.

Os cornos tocam no oiro e na seda.
E ele, - tomba,
Vencido,
Rasgado,
- Cheio de sangue na fronte.

A tarde 
Principia a arrefecer.

Tem o ventre descoberto,
E as negruras
Da sua virilidade
Toda a gente as pode ver.


5

O que desejei às vezes 
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!

Tão pouca que nem existe!

De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.


6

Tem na maneira de olhar
Aquela dúbia certeza
De quem pretende fixar-se
Numa doce realidade...

E o seu vulto quando passa,
Parece deixar no espaço,
A graça de uma saudade!

Há no seu riso -
Uma nota
Que lembra um laivo de sombra
Nessa beleza tão séria
Onde tudo quanto é belo
Desgraçadamente existe.

Ah!, meus amigos, a vida!...

- Falei de amor, pus-me triste.


7

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dosa teus cabelos - És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?


8

No silêncio
Do meu desânimo triste,
Fui quebrando
As últimas ilusões...

Da vida não quero nada.

O que é que a gente constrói
Dando amor ou amizade?

Tranquiliza-te, sei bem:
Eras o único afecto
- Um frágil fio de cambraia
Envolvendo
A mais sólida ilusão -
Que se esvaiu como as outras...

Da vida não quero nada.

De tudo me hei-de esquecer...

E se aperto com dandismo
O nó da minha gravata,
É inda um defeito inútil
- Dos poucos que hei-de manter.


10

Não é ciume o que eu tenho.
É pena,
Uma pena
Que me rasga o coração.

Essa mulher
Nunca pode merecer-te;

Não vive da tua vida,
Nem cabe na ilusão
Da tua sensibilidade,
- Mas é bela! Tu afirmas
E eu respondo que te enganas

A beleza-
Sempre foi
Um motivo secundario
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza - 
Não é mais do que o desejo
Fremente que nos sacode...
- O resto, é literatura.

Conheço bem os teus nervos;
Deixaram nódoas de lume
Na minha carne trigueira;
- Esta carne que lembrava
Laivos de luz outonal,
Doirada, sem consistência,
A aproximar-se do fim...

Eu já conheço o teu sexo,
Tu já gostaste de mim.

A frescura do teu beijo
E o poder do teu abraço,
Tudo isso eu devassei...

Não é ciume o que eu tenho;
Mas quando te vi com ela
Sem que me vissem, chorei...


11

A noite,

Como ela vinha!

Morna, suave,
Muita branca aos tropeções,
Já sôbre as coisas descia;
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria.

E via - 
Goivos e cravos aos molhos;
Um cristo crucificado;
Nos teus olhos,
Suavidade e frieza;
Damasco roxo puído,
Mãos esquálidas rasgando
Os bordões de uma guitarra,
Penumbra, velas ardendo,
Incenso, oiro, - tristeza!...
E eu, devagar, morrendo...

O teu rosto moreninho

Tão formoso!

Mostrava-se mais sereno,
E sem lágrimas, enxuto;
Só o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Se envolvia todo em luto.

Depois, anciosamente,
Procurei a tua bôca,
A tua bôca sadia;
Beijámo-nos doidamente...

Era Dia!

E os nosso corpos sem sentidos,
No chão rolaram, e assim ficaram! 


12

Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas aposto!
mas um homem como tu,
lavadinho, todo nu, gosto!
 
Sem ter pentelho nenhum,
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!


13

Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrêlas

Na minha alcôva
Ardiam velas
Em candelabros de bronza

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e núa
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou ávidamente
E tão ávidamente 
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para Êle,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.

Deram-se as bôcas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando êsse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.


14

Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua bôca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar - 
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!


15

Bendito sejas,
Meu verdadeiro confôrto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo
A minha dôr,
Estremecendo, acorda...

A minha dôr é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e choro amargamente;
Mas, a dôr, indiferente,
Continúa...

Então,
Febril, quasi louco,
Corro a ti, vinho louvado!

E a minha dôr adormece, E o leão é socegado.

Quanto mais bêbo mais dorme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando;
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida! 


16

Encontrei-o numa rua
De um bairro novo, moderno,
De arquitectura avançada!…

A tarde - 
Mostrava o pressentimento
De uma noite muito azul,
Tépida, rica, estrelada!

Todo o alento da luz
Pairava na doirada inquietação
De dar mais luz a um bairro
Aonde o meu coração,
Em doido, em febril desejo - 
Batera na confusão
Amarga e doce de um beijo!

Os olhos postos nos meus

Uns olhos arredondados,
Num momento me disseram
Tudo quanto me pediram…
Num momento preguntaram
A origem dos meus pecados!

Acorrentado, - parei…
Mas penso que nem olhei
Para o seu vulto a caminhar para mim.

Medroso, queria fugir dando ao meu passo
Um movimento mais largo
Mais distraído, mais forte,

Como quem foge ao caminho

Onde vê o dedo e a sombra
Sereníssima da morte!

Passou, e ao passar
Tocou-me no ombro e disse:

Boa tarde!, e foi andando…

Erguido com simpatia
Sôbre as pernas resistentes
Abriu a bôca num riso

Eram bonitos os dentes!

Moreno! Um todo excitante:
Rapaz do povo, lavado,
Viril, saudável, - um corpo
Já batido na bigorna
Dos amores proibidos
Pelo código aprovado!

Já sabedor da existência,
Dêsses sagrados impulsos;
Já com prática no abraço
Eterno e triste amor
Que zomba e ri da moral imposta pelo favor
Dos que vivem pra mentir
E não sabem derrubar
Essa doutrina mesquinha - 
Que pretende combater
A liberdade liberta
Que Deus põe no verbo amar!

Moral! Que vem a ser isso
Que se dá sem pedir?
Homens!, cantai a verdade
Bem alto, para se ouvir!

Sentei-me num banco,

Ali

Na praça aonde o arvoredo
Me pareceu ajudar
Êste sonho, êste segrêdo!…

Pouco depois, ao meu lado,
Ficou a olhar-me sentado…

Apenas as suas mãos

Mãos trigueiras e rudes do trabalho,

Se juntaram uma à outra
Esfregando-se nervosas,
Muito apertadas, cingidas,
Como se em luta estivessem
Duas almas, duas vidas!

Não era a carne

Essa grilheta maldita

Que me fizera sentir
O alvorôço imortal
De lhe falar, de o ouvir…

Era um outro sentimento - 
Mais belo, espiritual

Uma razão à margem dos sentidos

Que entre dois homens vivesse
E os tornasse, lialmente,
Sem divergências, unidos.

Ocultos - 
Atraz de um alto canteiro
De malmequeres à solta
Batidos pela aragem fresca e branda
Dêsse vago fim de tarde,
Dois vultos
Iam notando o idílio…

Disfarcei a posição…
Mudei…, falei de atletismo,
De política, de tudo,
Que afastasse os vigilantes…

Êle, olhava-me pasmado
Procurando compreender
A súbita mudança contrafeita,
Sem êsse natural reverso de quem vai
Dando forma às ideias lentamente
Evocando uma cena do passado
Ou focando um motivo do presente.

Mas êles continuavam
Como espias de um caso condenado!

Levantei-me sem palavras…
Olhei-o como quem perde
A direcção encontrada…

Dei alguns passos, parei…

Ainda mais uma vez
Voltei-me para o fitar!…

Nunca mais posso esquecer
O tristíssimo reflexo
Que brilhou naquele olhar! 


17

Vês?

Veio o destino apartar-nos;
É preciso obedecer-lhe.
Mão oculta,
Quebrou, - e sem que a gente sentisse
O laço
Que nos prendia.

Porque seria?

Ainda quiz perguntar,
Mas, a quem?, doida agonia!

Não sei se fico contente,

Se hei de rir,
Se hei de chorar.
 
Ha coisas
Na vida inútil da gente
Que é bem melhor aceitá-las,
Assim: - 
Silencioso, indiferente…

   

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