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  CIO: BOLACHA ILUSTRADA
Para além dos nossos mundinhos
2/8/2006
Gangues, clãs, tribos: o mundo é bem maior que o nosso próprio umbigo


Quando assistimos na TV uma torcida organizada de futebol depredar e incendiar tudo à sua volta, logo pensamos que aquele é um comportamento de gangue. Quando vários indivíduos se juntam numa turma e o sentimento competitivo aflora, a turba age sem razão e é fácil rolar um comportamento mais violento. Não importa se há entre a gangue alguém que tente levantar a voz e chamar a atenção dos outros para a irracionalidade que vai tomando conta. Essa voz da razão no meio da gangue enfurecida quase nunca é ouvida.

Muitos bioantropólogos acreditam que esse comportamento de gangue é algo instintivo e faz parte da adolescência de muitos jovens primatas, geralmente machos. Mas, para além do mundo natural e animal, podemos perceber nuances deste comportamento mesmo entre as fêmeas humanas. Parece que as turminhas são características típicas da adolescência de meninos e meninas.

Basta percorrer os olhos pelas publicações dirigidas a adolescentes: a tribo dos emos, a tribo dos góticos, os punks, os nerds, os manga maníacos etc. No painel de leitores de revistas para jovens, podemos perceber a raiva e o desprezo direcionados a quem não pertence a sua tribo de preferência.

Numa sociedade neófita como a nossa, em que a juventude é glorificada e desesperadamente almejada, até mesmo os adultos acabam conservando esse comportamento de gangue. Entre as lésbicas, podemos perceber essa briga velada entre "turminhas" que não se bicam: roqueiras que torcem o nariz para MPBistas e vice-versa, baladeiras que desprezam ativistas e vice-versa, lésbicas chiques que não chegam nem perto das pobretonas e vice-versa, lésbicas patricinhas que odeiam as dykes de visu bofinho, vice-versa etc.

Mesmo quando uma "turminha" não é exatamente definida com base no gosto musical ou na maneira de se vestir é comum existir um sentimento de gangue e uma certa rivalidade. A garota que deixa sua turma e começa a freqüentar outra é vista como traidora e a turma vizinha nunca é tão boa e legal como sua própria turma.

Um dia, porém, até a mais ferrenha defensora de sua tribo acaba se cansando de seu próprio círculo. Afinal, as gangues são doutrinárias por natureza e ninguém gosta de ser doutrinado por muito tempo, certo? A maturidade faz com que passemos a relativizar nossas posições e crenças e então começamos a procurar nossas amizades baseadas em outros critérios. Em vez de nos juntarmos de acordo com a maneira de vestir (ou o gosto musical, ou estilo de vida) passamos a buscar afinidades em termos de índole, ética amorosa e a mais pura afeição.

Naturalmente, o gosto musical e a maneira de se vestir e se portar ainda influem em nossas escolhas, mas pesam bem menos. Maduras, passamos a trafegar por várias turmas e tribos e, embora conservemos um núcleo amoroso-afetivo de amizades, o comportamento de gangue já não faz parte de nossas vidas. O mundo, afinal, é bem maior que nossos umbigos.

  





LEIA OS COMENTÁRIOS

3/8/2006 14:28:54 - Criacuervos (Criacuervos@bol.com.br)
Lendo esse post eu fiquei de cabelo mais em pé!!! www.ultimocarioca.blogspot.com
3/8/2006 03:18:40 - Rafael ((goldenboy1982@hotmail.coml)
Acredito que isso se dê devido a necessidade de agrupamento pela falta da própria personalidade e pela segurança que isso proporciona, literalmente falando. Com o tempo, por sorte, conseguimos essa "emancipação" tão benéfica, que nos dá maior liberdade e consequentemente, maior felicidade. Eu mesmo, com 23 anos, consegui me libertar de tais estereótipos e hoje, depois de muito sofrer por me encaixar em padrões comportamentais que as vezes me incomodavam e restringiam, me sinto plenamente satisfeito em transitar ecleticamente pelo meio GLS e mesmo entre o heterossexual e maximizar a satisfação pessoal em todas essas experiências. Parabéns Vange, assunto muito bem explorado e redigido.
2/8/2006 17:54:57 - Luciana (lrc_lu@hotmail.com)
Olá Vange, me identifico muito com algumas situações que você citou! Sabe, um dia resolvi ir à uma balada aqui de campinas, ponto gls da cidade, com público em sua maioria de lésbicas. Pois bem, nunca me senti tão mal num ambiente, pois todas as meninas se fecharam em seus grupinhos e se eu tentasse conversar com alguma delas logo me olhavam feio e nem queriam saber, não faziam nenhuma questão de conhecer outras pessoas! Fiquei com vergonha de perceber, que tem muitas lésbicas , que mesmo sofrendo tanto preconceito da sociedade, são preconceituosas com outras lesbicas, só por não fazer parte do "clubinho" e por não ser o padrão desejado de mulher, sabe, magra, feminina,cabelos cumpridos...
2/8/2006 16:53:20 - Nilson (ngcr@ig.com.br)
Olá! Considero um privilégio que já tenhamos no país um portal da qualidade do MIX, com jornalistas e matérias dessa excelência e lucidez. Nem sempre foi assim, creiam. E nem tudo está perdido. Decidida e homeopaticamente, os tempos mudam e avançamos, apesar dos pesares. Parabéns VANGE LEONEL. Obrigado. Abraços!
2/8/2006 13:44:03 - felipe (lipeltda@hotmail.com)
Muito interessante e verdadeiro o que você disse. A maturidade faz com que percebamos que podemos fazer coisas e andar por turmas, tribos sem ter sentimentos de rivalidade. Uma questão que me faz pensar assim é a ideia de construção de si mesmo, quando sabemos o que queremos aprendemos a circular e interagir com ideias diferentes, sem se prender em alguma coisa.


                                



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