Receba o boletim de notícias do Mix no seu e-mail.




  CIO: BOLACHA ILUSTRADA
Memórias de uma Mulher Macaca
7/5/2008
Capítulo 6 - O segundo encontro
Por Vange Leonel



:: Leia também os capítulos 1, 2, 3, 4 e 5 desta saga


E assim aconteceu: lá estava ela, de volta. A jornalista, por definição curiosa, querendo saber mais sobre o passado secreto de minha mãe cientista. Como se não pudesse esperar mais e seu tempo fosse muito precioso para desperdiçar com bobagens, ela disparou de imediato: "então, qual é a grande revelação que você tem pra mim?".

Ela poderia ter sido mais suave. Passei a semana fantasiando nosso segundo encontro. Eu estava, definitiva e irrevogavelmente, apaixonada. Esperava calor, sedução, mas não a objetividade seca que ela demonstrava ali. Obviamente, a menina não fazia a menor idéia dos meus cálidos pensamentos. Estava ali apenas pela informação que eu havia prometido. Ok. Se ela estava com pressa, problema dela. Eu faria tudo com calma. Pior: contaria minha história aos poucos, como Sherazade, encantando por mil e uma noites seu algoz para retardar uma execução de morte que era certa. E como na fábula, eu já estava mortinha da silva – de paixão.

Assim, comecei de mansinho. Em primeiro lugar disse à jornalista que ela só poderia publicar a história depois que eu tivesse terminado de relatá-la. Ela concordou. "Mas preste atenção", eu frisei, "não vou conseguir contar num só dia. Você terá que voltar mais vezes". Ela respondeu que tudo bem, voltaria quantas vezes fosse necessário se minha história valesse mesmo a pena.

"Vai valer", afirmei. Sabendo que a sessão seria longa, fui pegar dois copos de água tépida para nós. Depois de servi-la, voltei à cozinha para programar a cafeteira: quatro cafés nas próximas três horas. Enquanto isso, me esgueirando pelas paredes e sem que ela notasse, observava os mínimos gestos da jornalista: o modo que ela segurava o copo, os goles vigorosos, como se tivesse uma sede infinita e a ansiedade característica de quem investiga algo inédito para comunicar ao mundo como bomba. Um gole gigantesco e apressado de quem trombeteia notícia antes que haja tempo para um só pensamento.

Eu, ao contrário dela, sempre penso duzentas vezes antes de noticiar meu gesto, de tornar concreto meu intento, de tornar fato o meu silencioso desejo, acalentado em solidão imensa e discreta. Éramos opostos perfeitos, numa dança prosaica conduzida por uma pessoa só: eu mesma. Pois ela nem de longe imaginava o que ia por minha cabeça a caminho do coração, passando pelo sexo. A simples observação de seu braço todo tatuado erguendo o copo de água se transformava num mecanismo capaz de gerar fantasias encantadoras.

Chega, disse a mim mesma! Experiente, já sabia como terminar meus devaneios. Decretei que era hora de voltar à Terra e colocar os quatro membros em contato com a realidade. Voltei à sala e pedi que ligasse o gravador. Querendo impressioná-la e sem economizar saliva, relatei tudo o que antecedeu meu nascimento e que já disse a vocês nos quatro primeiros capítulos desta novela. Blasé e desconfiada, ela não acreditou em nada. "Você está tirando com a minha cara", retrucou. "Isso está parecendo enredo de HQ, uma mistura de mangá, sci-fi, Doris Lessing e Donna Haraway!".

O quê? Como assim? Eu havia revelado meus mais preciosos segredos e ela fazia pouco de meu passado inacreditavelmente verdadeiro? Se ela fosse uma qualquer, eu teria deixado por isso mesmo. Diria que sim, era fantasia, delírio. Mas eu estava apaixonada. Além de querer que ela acreditasse no que dizia, desejava que ela se interessasse por mim. Isso implicava suscitar sua curiosidade a ponto dela querer voltar para saber mais.

Sendo assim, me despi, tirei a roupa, os tênis e mostrei meu corpo peludo. Não bastasse, dei piruetas no ar. Usando o sofá como trampolim, saltei e alcancei o gancho de uma samambaia dependurada no teto. Balancei algumas vezes, dei um mortal duplo e me agarrei às cortinas da janela, pendendo de ponta-cabeça. Desci vagarosamente pela esquadria e então coloquei meus pés com dedões opositores bem firmes no chão.

Olhei para a jornalista. Ela estava de queixo caído. Eu teria causado alguma impressão?

  





LEIA OS COMENTÁRIOS

11/5/2008 20:55:16 - Mince (nauras@uol.com.br)
Vange, você é uma figura! Saudade daquela noite preta! Quando sai o próximo cápítulo? Que adorável macaquice! Rs... Bjs
8/5/2008 17:46:11 - Clara as Escuras no Brasil dos Silva (claraasescuras@hotmail.com)
rs... corei... é capaz de tudo pra chamar atenção hein? Macaquinha safada... Diz aí... pelo menos tinha ido à um pedicure dar um jeito nos unhões dos pés?? KKK demais Vange... tô imaginando... qdo ela se entregar ao sexo bizarro deste amor dantesco... Flutueiiii
8/5/2008 01:49:36 - manu (manuelababy25@yahoo.com.br)
Menina q imaginação ( e coragem!) louca p ler o resto. Bjs


                                



ESCREVA SEU COMENTÁRIO

Nome:
E-mail:
Comentário: