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  CIO: LÉSLAND
Desventura
14/11/2008
Conto lésbico de Rodolfo Viana mostra que uma serenata pode ter final surpreendente
Por Rodolfo Viana


Jurandir estava entre Chega de Saudade e Chão de Estrelas. Não conseguia se decidir. - Qual você toca melhor, Benê? – perguntou ele, em sussurros. Afinal, já estavam sob a janela de Dorinha, a quem se destinaria aquela serenata.

- Já disse. Você canta, eu acompanho. Só me garanto em samba – bocejou o violeiro, já antecipando o inferno que seria acordar na manhã seguinte, segunda-feira. Vendo que o amigo não se decidiria, disse “Chega de saudade” e aprontou os dedos nas cordas do instrumento apoiado na coxa direita.

Benê esperou um sinal para começar a dedilhar. O sinal não veio. Olhou enviesado para Jurandir, que disse, sentindo-se pressionado pelo amigo, “Chão de Estrelas”. As mãos do homem suavam, assim como a testa. A gravata apertava-lhe o pescoço; o sapato, os joanetes.

Um. Dois. Três.

Benê começou a tocar Chão de Estrelas. Si bemol, lá, ré. Jurandir fechou os olhos com a melodia daquela valsa-canção e soltou a voz. Era uma e quinze da madrugada quando se fez luz no quarto de Dorinha. Ficava a janela no alto do sobrado, o que deu à cena os tons exatos de uma verdadeira serenata. Jurandir, alumiado pelo quarto da moça, abriu os olhos pela primeira vez; Benê bocejou pela oitava. E deu uma leve desafinada num sol sustenido.

Apenas a janela separava Jurandir de Dorinha. E esta não foi aberta em momento algum. Manteve-se fechada durante toda a música. Mas a noite não foi perdida: mesmo de longe, Jurandir pôde ver as sombras e os vultos daquela que lhe irrompia os sonhos há tempos. Não se chateou com o fato de Dorinha não ter aberto a janela, pois sabia que seus pais eram rígidos, e que queriam a filha única, tão sabidamente casta e decente, longe daquilo que considerariam uma baderna.

Ao fim de Chão de Estrelas, Jurandir era outro homem. E os seus olhos estavam sorrindo, pois viram, mesmo que sem muitos detalhes, o vulto de Dorinha nua. A noite seria longa demais para aquele pobre homem, a quem quase todos creditavam menos que o devido. Até mesmo Benê, certa vez disse que “o melhor é esquecer essa mulher”.

- Tá vendo? E você aí, dizendo que era para eu esquecer Dorinha. Que ela não era mulher para mim – dizia Jurandir no caminho de volta, entrecortando as frases com sorrisos de saciedade.

- Quem me disse isso foi a Manuela. Ela vive dizendo que tá para nascer o homem certo para Dorinha – respondia Benê, entre um bocejo e outro. E seguiram o rumo reto de casa naquela bela madrugada primaveril.

Enquanto isso, no quarto da menina, uma mulher nua afasta-se da janela, depois de observar toda a cantoria.

- Volta aqui para a cama, amor. Não quero mais esse negócio de você longe de mim – disse Dorinha, que emendou um “Para quem era a serenata?” enquanto, deitada na cama, divertia-se consigo mesma.

- Não sei – respondeu Manuela, dirigindo-se à cama em passos felinos. Beijou Dorinha um beijo de boa-noite, jurou amor eterno, e dormiu sentindo o calor da mulher amada. Sim, elas se amavam. E ali, naquele quarto, suas roupas comuns dependuradas pareciam um estranho festival.


*Rodolfo Viana é jornalista, heterossexual, e já teve contos publicados na revista Piauí e no jornal O Globo. Desventuras é seu primeiro conto de temática lésbica.

  





LEIA OS COMENTÁRIOS

19/11/2008 15:00:00 - Márcia (mc23@onda.com.br)
Sulrreal esse conto!


                                



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