
Memórias de uma Mulher Macaca |
16/7/2008 |
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:: Leia também os capítulos 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1
Eu fiquei confusa. Minha mãe perguntou se eu estava bem. Eu, paralisada, não dizia nada. Silenciosamente, concentrava minha fúria num olhar cego de raiva e decepção, enquanto praguejava em pensamento minha mãe ter feito o monstro que era eu.
Desejei que ela nunca tivesse me contado nada. Ao mesmo tempo a odiava por ter feito um segredo algo tão importante. Por fim, exasperei-me com tamanho sadismo ao revelar tudo aquilo justo no momento em que eu dizia estar apaixonada pela primeira vez.
Enquanto ruminava o choque e a perplexidade, mal dei ouvidos à sua fileira de justificativas: aquilo fora um acidente, não era para haver troca de material genético com a macaca, tudo o que ela queria era uma partenogênese bem sucedida, afinal, ela precisava trabalhar em tempo integral, não podia levar a termo uma gravidez completa, havia todo um projeto de carreira, a ciência exigia dela exclusividade, o útero da macaca era solução, mas eu ter nascido metade símia nunca estivera em seus planos. Eu precisava acreditar nela, disse então.
"Eu acredito", falei entre dentes, "mas nada disso alivia minha dor". Finalmente, realizei: "eu sou um monstro!". Ao proferir estas palavras tão cruamente, desatei a chorar, me agachando num canto da sala.
Minha mãe, que nunca foi de demonstrar afeto, se aproximou e me aconchegou em seu colo. Sentindo o conforto de seus braços, continuei a lamentar, "eu sou feia, peluda e ninguém gosta de olhar pra mim".
"Não é verdade", ela respondeu como enunciasse em tom professoral uma fórmula química. "Você não é feia. Nem seus pelos uma anormalidade. Você é especial. Você é um milagre da ciência. Você é a recriação do elo perdido, minha mais preciosa criação, fruto do meu trabalho, do meu sangue, das minhas células e cálculos insanos". Ela fez uma pausa como quisesse tomar fôlego e disse, fazendo um esforço enorme, pois não era seu feitio ser tão sentimental: "filha, você é fruto do meu amor!".
Naquele momento foi crucial ouvir o que imaginei ser uma declaração de amor por mim. Talvez fosse. Mas hoje, pensando bem, sinto que ela quis dizer que fui, na verdade, fruto de seu amor pela ciência. Ela gostava de mim (não duvido disso) mas me amava principalmente porque eu era a mais importante realização científica de todos os tempos.
A grande ironia foi ela jamais poder revelar essa descoberta para o mundo por questões profissionais, éticas e morais (quiçá jurídicas e penais). Enfim, o fato é que a partir daquela hora o segredo bombástico que ela carregara durante anos passava a ser compartilhado comigo. Metade do peso fora colocado sobre minhas costas.
Subi para o meu quarto e fiquei sem sair por dias, matutando. Com as palavras da minha mãe girando em moto perpétuo na cabeça ("você é especial, recriação do elo perdido") passei a estudar textos de evolução, darwinismo e biologia molecular. De Richard Dawkins a Donna Haraway, li tudo o que havia nas prateleiras de casa e mais uma infinidade de documentos na internet.
Ao final de duas semanas comecei a me conformar com a nova realidade. Na terceira, já achava interessante minha natureza quimérica. Depois de um mês (talvez até por um instinto de sobrevivência ou porque não houvesse outra saída) já concordava com minha mãe: eu era especial. Passei de fato a gostar de ser metade humana e metade macaca. Compreendi e aceitei meus pêlos. Fiquei imensamente grata pelo talento nato de saltar e me agarrar em qualquer saliência (o que me tornara tão apta para o parkour!).
Faltava apenas um detalhe para poder apaziguar meu coração: eu precisava reencontrar Shana, minha mãe macaca. O que havia acontecido com ela?
Por que ela havia sido afastada de mim?
Aliviada porque eu já aceitava minha metade macaca, mas preocupada com as conseqüências do reencontro com minha progenitora símia, a cientista relutou em revelar seu paradeiro. Apenas explicou que afastara a macaca do meu convívio para que eu pudesse me humanizar.
Contudo, depois de muita insistência (e porque compreendia ser fundamental para meu processo de aceitação) cedeu aos meus apelos e revelou a localização de Shana. Ela fora levada a um santuário de macacos por uma ONG que resgatava animais de laboratórios. Agora vivia entre os da sua espécie. Mas o abrigo não ficava muito longe. Eu poderia visitá-la.
E foi o que resolvi fazer. No dia seguinte, encontrei os "Macacos Urbanos" e expliquei que me ausentara das atividades por causa de uns probleminhas em casa. Por isso, esclareci, ficaria afastada por mais algumas semanas até que resolvesse essas paradas. Mas não estava abandonando o grupo, frisei.
Já estava saindo quando a garota (aquela da noite regada a vinho primitivo e sexo talvez imaginário) se aproximou de mim, segurou meu braço e disse: "eu vou com você".
| 18/7/2008 22:39:01 | - | manu (manucosta27@yahoo.com.br) |
| pasmem... a mulher macaco existe... | ||
| 17/7/2008 11:06:02 | - | Cristiane (cristianneportto@hotmail.com) |
| Ótimo... pena que vai demorar mais um mês o próximo capítulo!!! Tô na espera Vange. Ps.: Será que uma depilação definitiva não amenizaria o sofrimento da criatura??? Bj | ||
| 17/7/2008 10:31:55 | - | dri (drielle_gabriela@hotmail.com) |
| Ai coitadinha... mas o que vale é se aceitar do jeito que for........bah mas tem sempre um final que me deixa com vontade de ler mais... mais!! O Vange da próxima vez não demora tanto ... por favor! Ja tô até imaginando o que vai rolar depois! :) Abraço | ||