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  Pensata: PENSATA DO TUFVESSON
Direitos Civis Ainda que Tardio
26/7/2007


- Dormi na minha casa e acordei na casa dos outros.

Na volta do estúdio onde gravamos o programa Happy Hour para o GNT, ouvi isso do Marco Rodrigues, que foi casado com Jorginho Guinle. Essa frase, dita em tom reflexivo e que me emocionou mais ainda, é o resumo da situação inaceitável em que se encontram vários cidadãos brasileiros que têm seus direitos constitucionais extirpados apenas por viver com uma pessoa do mesmo sexo. Detalhe importante: artigo nenhum na Constituição prevê tal perda de direitos a um cidadão brasileiro por viver com uma pessoa do mesmo sexo. E cabe lembrar que não existe vedação no código civil ou penal para casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

É emblemático e incompreensível para muitos explicar como o Legislativo, apesar de tantas provas, pode não se manifestar diante de uma realidade de nossos dias, sobre a qual o mundo já se pronuncia há algum tempo. Cidadãos brasileiros, devido a falta de regulamentação para suas uniões, ficam à margem da lei que, a princípio, é igual para todos. Vários direitos que eu e o Marco teríamos se fôssemos casados com pessoas de sexo oposto nos são negados sem qualquer justificativa legal.

A única explicação encontrada até hoje para o não andamento das leis no Congresso é a bancada fundamentalista religiosa, que tem uma sana e uma raiva incompreensíveis, já que em momento algum fala-se em assunto de esfera religiosa, mas, sim, em assuntos civis de um Estado laico, como garante a Constituição que nossos deputados juraram proteger e fazer respeitar. Não pode o legislador, em uma sociedade pluricultural e plurireligiosa como a nossa, legislar em função dos ensinamentos desta ou daquela religião, porque isso vai contra os princípios da nossa Carta Magna.

É inaceitável que, não obstante a dor da perda da pessoa querida, tenhamos, por exemplo, que receber um oficial de justiça às 6h30, arrolando bens e fotografando sua casa, apesar do seu luto, para um inventário, normalmente em ações movidas por famílias que só pensam no lado financeiro e, sem generalizar, na maioria dos casos nunca prestaram muita atenção no ente querido até a sua morte. E, em muitos casos, por vergonha de sua homossexualidade. Mas, na hora do testamento, todos são "queridos, amados, idolatrados", de acordo com o retrato de nossa sociedade capitalista e monetarista, que permite a mães/sogras e pais/sogros moverem ações de despejo contra os companheiros e companheiras de seus filhos e filhas, usando brechas legais, mesmo cientes até de estarem indo contra a vontade da pessoa em questão, mesmo conscientes do quanto esta pessoa contribuiu para a vida e o sucesso de seu filho, o que, de acordo com a lei, lhe daria o direito de ter reconhecida sociedade de fato muitas vezes também negada.

Isso é o retrato do que acontece, não neste caso específico, mas em vários pelo Brasil afora, devido à falta de legislação que nos proteja, como protege as relações dos cidadãos brasileiros. Juro que me sinto um "sem pátria" num momento como este. Por incrível que pareça, hoje em dia, com apenas 2 anos de namoro, a lei do concubinato é aplicada a casais de sexo oposto, exatamente porque o legislador entendeu a necessidade de se proteger essas relações não oficiais. Só não entendi o porquê da distinção, já que, a princípio, "somos todos iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza", nos termos do artigo 5º da Constituição brasileira, ou seja: independentemente de cor, raça, credo ou genero.

Por mais que tenhamos que reconhecer que nossas vitórias sejam sempre no judiciário, é uma afronta ao meu direito de cidadão  eu ter de submeter minha união a julgamento e rezar para que caia nas mãos de um juiz que interprete de maneira favorável um direito que é meu de fato e de direito. Tristemente temos que, além da dor da perda e do sofrimento pela ausência da tua cara metade, penar pelos corredores da justiça para provar que fomos um casal, através de contas de telefone, extratos de banco, ou outras chamadas “provas”. Outra saída é transformar nossas uniões em sociedade entre pessoas jurídicas o que transforma uma união que é de amor em uma fusão empresarial.

Uma afronta!

Numa visita ao site do Congresso, vemos que o projeto de união civil da Ministra Martha Suplicy (PL 1151/95) está paradíssimo desde 2001. Isso é uma causa de direitos civis exatamente como foi a lei do divórcio, antes da qual várias mulheres saíam do país para ter suas relações reconhecidas. Esperamos que, em pleno 2007, e com um Governo tão pró-ações GLBT, não tenhamos que nos exilar para ter nossos direitos civis reconhecidos. Também não cabe a nenhuma Igreja se meter em assuntos do Estado, que é laico. Muito menos uma igreja cujo chefe é também chefe de um Estado soberano, o que significa interferência em assuntos do Congresso Nacional. Esperamos que a lei dos homens vença esta última fronteira na batalha dos direitos civis em nosso país.

"A liberdade custa caro, mas é preciso pagar seu preço, ou resignar-se a viver sem ela."

  





LEIA OS COMENTÁRIOS

5/8/2007 14:33:43 - Jeff (jeff_ares@hotmail.com)
Que ótimo este espaço. Tenho orgulho de você. bj
29/7/2007 16:47:27 - Gabriel Chiappini (gabrichiappini@hotmail.com)
Parece que isso não vai ter um final.A atitude de irresponsabilidade e ,digo até negligência,com que os que estão governantes deste país tratam o caso é apenas um reflexo dessa sociedade que infelizmente é tão preconceituosa. A Igreja porém tem grande representação, afinal, é grande o apoio que ela dá a alguns candidatos para que consigam se eleger. Vou terminar citando um caso que me deixou incrédulo.O Hemorio,banco de doação de sangue do Rio de Janeiro,considera até hoje os homossexuais como um grupo de risco,impedindo muitas vezes que se doe sangue. Citei isso apenas como exemplo de que temos muita coisa pela frente,de como somos tratados,e como infelizmente passarão anos até que de fato exerçamos nossos devidos direitos. LUTEMOS então!!!Parabéns pelo texto Tufvesson.
28/7/2007 10:00:58 - Ricardo Rocha Aguieiras (aguieiras2002@yahoo.com.br)
Olha, acho que se acontecesse comigo isso que aconteceu com o Marcos Rodrigues, eu pegaria em armas e sairia matando. Não conseguiria controlar a revolta.Pior é que é uma situação que ocorre neste Brasil afora e atinge gays que perderam seu namorado, marido e companheiro e que cedem tudo para a família do morto, silenciosamente. Os casos que vêm à tona são só os dos famosos e os da classe média alta. Acho que precisamos, como exemplificou o leitor Breno se referindo à Inglaterra, de ações mas radicais aqui, mas os nossos militantes parecem ter medo e agem como se fossem futurógos: "isso não pode por que vai ter resultado contra nós e etc." Acho que está chegando a hora das greves de fome, se acorrentar em monumentos , formar cordões em volta de cartórios impedindo por dias ou horas o casamento civil de héterossexuais, pixar muros... me desculpem, mas isso também funciona, como podem ver no exemplo citado pelo Breno. Beijos e obrigado por mais essa importante reflexão.
27/7/2007 10:52:46 - Breno (pessoa.breno@gmail.com)
bom texto, mas o problema eh que ficamos soh no discurso. aqui na Inglaterra, onde vivo, comemora-se esta semana os 40 anos de que o Homossexualismo deixou de ser crime e varios programas foram exibidos e a evolucao da conquista de direitos passou em horario nobre num documentario na TV. Percebe-se que a uniao e a forma exuberante de protesto assegurou estas conquistas. Lesbicas se atiraram no Congresso contra a proibicao da discussao da homossexulaidade nos colegios, houvera passeatas, pessoas se algemando a monumentos. Aqui, eles partem pra briga e percebe-se que o assunto eh serio. eh exigida a mudanca, cobrada, sem demora. a gente quer e tem direito. No Brasil, porque moro fora ha tres anos e nao tenho pesquisado muito... ;D, o que me parece eh que a gente pode esperar. Esperar o que? cade a classe? Quem tah mostrando a cara e dizendo: perae rapaz, chega aqui, vamos mudar isso. A Tv nao abre espaco para a discussao, o movimento e pifio e sem voz. Ou essa eh soh a minha impressao... ;D estamos sufocado por esta cultura machista e crista e nao fazemos nada. O que foi a parada gay de Sp alem de um carnaval? onde avancamos? a que ponto chegamos? Enfim, vamos fazer algo concreto e mostrar que somos unidos, que exigimos o que eh direito e nao favor ou condecendencia. ;D Outra coisa: parceiros gays podem fazer testamento e desta forma assegurar o direito do companheiro.. e cancelar o testamento se a relacao nao der certo.. nao eh ideal, mas jah eh alguma informacao..
27/7/2007 02:20:34 - Carlos Alexandre Lima (carlosalexlima@uol.com.br)
O início dá o tom rxato de todo texto: "- Dormi na minha casa e acordei na casa dos outros." Parabéns!
27/7/2007 01:49:15 - Beth Villela (elizabethvillela@ig.com.br)
Lindinho,assisti o programa e achei maravilhoso.Conheço Marquinho e conheci Jorginho tb os dois eram peças típicas do cenário carioca,Jorginho com sua timidez e humor artistico criando em seu atelier no Bairro Peixoto e Marquinho com seu geito suave e forte, sempre com bom humor social.É um absurdo o que está passando agora ,eles viveram intensamente um casamento e companherismo e que deve ser respeitado.Bjs pra vcs da amiga Beth Villela
27/7/2007 00:07:52 - fabiofalt (fabiofalt@yahoo.com.br)
Carlos, sua indignação é justificada! Somos cidadãos de "segunda classe" e somos lembrados disto a todo momento. Fico mais triste ainda em pensar nas pessoas com menos cultura e mais alijadas da justiça ainda! Vamos lamentar como lamentamos o caos aéreo, os desmandos, a corrupção, o presidente totlamente alheio ao pais! Parabens!
26/7/2007 22:43:43 - eu (a.toa.na.vida@uol.com.br)
sem querer levar para "assunto de comadre", ate por q nao conheço o casal nem a familia, mas imagino o quanto essa mae devia ser preconceituosa com o propiro filho, pra fazer isso com o MARIDO dele... ciumes ? o dito e um canalha? sabe se la... mas acho q se esse foi a companhia q ele ESCOLHEU o minimo q ela devia fazer era provar o tal de amor de mae e nao sacanear o viuvo....principamente qdo se noticia q ela esta casada com um banqueiro suiço e q a parte q lhe cabera deve ser compativel com seu gasto num ano de comprinhas...
26/7/2007 18:26:50 - Li Camargo (licamargo@onne.com.br)
POSSO FALAR !!!!!!!!!!!!!!!!! SEM COMENTARIOS........... Ainda bem que tem gente que faz ......
26/7/2007 18:20:41 - André (dirli@click21.com.br)
Eu já escrevi a deputados, a senadores e a ministros do Supremo Tribunal Federal mostrando o absurdo desta situação, Carlos, mas está difícil. O que me indigna, também, é ver o Governo Federal, que se diz a favor dos gays, não se impor no Congresso e forçar sua base aliada a aprovar a lei de União Civil Homossexual. É uma questão de vontade política. Tudo será mais fácil para um governo que não terá de enfrentar as urnas novamente porque já foi reeleito. O Primeiro Ministro espanhol, Zapatero, em poucos meses de governo se impôs e aprovou a lei de UNião Civil Gay, na Espanha. É ou não é vontade política? É ou não é um gesto, também, de gratidão por quem ajudou a elegê-lo, assim, como no Brasil, a maioria dos gays votou em Lula? Mas, aqui, o que vemos é governantes ingratos, desumanizados, acomodados, querendo usufruir apenas das benesses do poder, esquecendo-se de que governam para todos os brasileiros. Estas atitudes têm palavras que bem as qualificam: omissão, covardia, insensibilidade, preconceito, interesse político, etc. Somos obrigados a ver a pequenez de governantes que optam pelo lugar-comum, apenas para não esquentarem a cabeça. Oh, sordidez!
26/7/2007 16:39:10 - Julian Rodrigues (jv-rodrigues@uol.com.br)
Muito bom, Carlos. Laicidade e cidadania! Uniáo civil , já! bjs
26/7/2007 16:39:02 - Rafa (rafa@ig.com.br)
No início a gente não se importa muito com isso, acha que não vai ter prejuízos, nao vai conquistar muita coisa juntos.. mas o tempo passa e passa e as coisas mudam. Qdo percebemos estamos morando juntos, conquistando coisas e crescendo materialmente e espiritualmente juntos. Pena mesmo que temos que depender de um Congresso tão medroso - pra não dizer algo pior. Ter que recorrer à Justiça é algo deprimente. O pior é que a União Civil muitas vezes não é prioridade nem das Ongs. Ainda estamos na luta contra os crimes de homofobia. As vezes parecemos um monte de macacos sem saber se comemos a banana ou abanamos o rabo pra quem nos vê de fora da jaula.


                                



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