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  Cultura GLS: MÚSICA
Los Hermanos de Las Bibas
31/5/2006
O fascínio gay pela banda carioca


“Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder
E se amar, se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Abre a janela agora, deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

Diz quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora”

Quem lê a letra acima pode interpretar de diversas formas. “Pode até não ser, não sei qual era a intenção deles ao fazer a música, mas me diz se isso não é bem gay?”, pergunta Leonardo, 27 anos, relações-públicas. Na opinião dele, tal letra tem um potencial homoerótico, embora seja pouco provável que os autores da canção tenham pensado nisso. Para quem ainda não reconheceu: a música é da banda Los Hermanos.

Não é de hoje que a banda carioca vem arrastando para seus shows uma quantia considerável de público gay masculino. A explicação para o fenômeno vem da boca dos próprios fãs gays.

“Acho as letras inteligentes, poéticas. As melodias também, bastante etéreas e bem feitas. E gosto da imagem deles. Da imagem em relação à mídia, dos videoclipes, não acho que são vendidos ou comerciais”, diz Gabriel, 23 anos, jornalista.

O som da banda é um atrativo para muitos, como diz Horácio, 29, ator e estudante de educação física: “A sonoridade. É diferente do que se ouve normalmente nas bandas pop-rock brasileiras. A forma como harmonizam estilos diferentes, estilos pouco visitados. E a melancolia...”

A melancolia é exatamente uma das principais facetas dessa questão, já que é um sentimento compartilhado por muitos gays que tendem para uma personalidade existencial, quase deprê. Leonardo comenta: “Muitos gays gostam da banda porque ela trata do amor e do cotidiano de forma sensível e emocional. Ressalto que se trata de uma emoção reflexiva e romântica. Pode ser polêmico afirmar isso, mas parece haver uma ligação forte, sim, entre o público gay e a arte feita dessa forma”.

Essa opinião esboça uma ligação entre gays e héteros mais “sensíveis”: a tristeza e a melancolia enfim uniriam dois mundos tão distintos – será?

Leonardo continua: “Fora a questão da sensibilidade e profundidade das letras. Gostar desse tipo de poética é característica comum ao universo de muitos gays; é mais freqüente, provavelmente, do que no universo dos jovens héteros – é polêmico dizer isso, mas eu acho mesmo. É uma questão de observação e estatística”.

A queda para atitudes deprê está presente em outros gostos musicais dos fãs da banda. São pessoas que ouvem muito outros artistas melancólicos, como Smiths, Belle and Sebastian, Radiohead, Rufus Wainwright...

Mas também não se resumem a isso. Em geral esses adeptos dos Hermanos já têm um gosto musical mais eclético, fugindo do som que costuma ser associado ao público gay. “Gosto demais de alguns artistas. Os sons ‘gays’ que eu gosto são Madonna, Ney Matogrosso e Secos & Molhados, Scissor Sisters, Maria Bethânia – acho Bethânia meio coisa de bicha”, diz Bernardo, 21, estudante de fotografia.

Mas e a música eletrônica ou drag music tão ligadas à comunidade gay? “Já curti bastante, mas no momento estou em uma fase onde não estou mais suportando esse tipo de música”, diz Gustavo, 21, estudante de publicidade. Gabriel comenta: “Acho que esse tipo de som é mais associado a clubes gays, não tanto a públicos gays”. Leonardo chuta o balde: “Detesto. Acho gritaria histérica. Em termos de poética superficial, esse tipo de música se equivale a Charlie Brown e quetais”.

Por falar em Charlie Brown Jr., os fãs dos Hermanos gostam de outras bandas de rock brasileiras na linha hétero? “Eu arrisco dizer o seguinte: Los Hermanos é uma banda meio alternativa, não é tão popular como CPM22 e Charlie Brown Jr. Galera de música alternativa me parece que tem muito gay, mais do que galera de música mainstream”, diz Bernardo. “Ah, e acho que muitos gays não vivem as coisas que o Charlie Brown Jr. discute nas letras”.

“Bandas como CPM22 e Charlie Brown têm um apelo juvenil, adolescente, que agrada outro público. Mas conheço vários gays que não gostam de Los Hermanos e outros tantos que gostam de CPM22. Identificação é fundamental”, diz Horácio.

“Charlie Brown Jr. representa um outro extremo, uma maneira pouco reflexiva, rude e até meio ingênua de enxergar a vida. Mas essa maneira tem lá o seu valor também. Com certeza diz muito para os fãs deles. O mundo dos fãs dos Hermanos, ao que parece, é mais intimista e reflexivo”, analisa Leonardo.

O resultado é que o público gay vai aos shows dos Hermanos, e o clima é friendly. “Até já fiquei com um cara que conheci em show do Los Hermanos. Os shows que eu fui sempre foram super tranqüilos, nunca senti medo nem nada de ficar berrando ‘Amarante gostoso’ lá no meio da galera”, conta Bernardo, que assume que os integrantes da banda têm lá seu sex-appeal. “Orra, com certeza. Acho todos lindos, uns mais do que outros”.

“Uma porrada de gays e muitos héteros amigos de gay vão nos shows. Sabe aquele tipo moderno, sem preconceito e sensível? Esses héteros estavam lá. Meninas e meninos”, conta Leonardo. “O show é catártico. Os fãs amam as letras e isso fica evidente. É lindo demais”.

O preconceito, quem diria, às vezes vem da própria área gay. “Eu vejo muito isso hoje em dia, tenho amigos gays que me recriminam porque eu curto Los Hermanos”, afirma Gustavo. Horácio diz: “Acho rótulos arriscados. Nem toda lésbica gosta de Ana Carolina. Nem todo gay gosta de Madonna. Viva a diversidade”.

“E até quem me vê lendo o jornal
Na fila do pão sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde demais,
Que é tão diferente assim.
Do nosso amor a gente é que sabe!”

     





VEJA NO ÁLBUM

O tecladista Bruno Medina A banda


                                



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