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  Cultura GLS: ENTREVISTA
Lufe Steffen
20/9/2006
Cineasta fala sobre seu novo filme, Beija-me se For Capaz, que estréia sexta
Foto: Divulgação


O cineasta Lufe Steffen volta com sua irreverência e bom humor no curta-metragem “Beija-me se For Capaz”, cuja pré-estréia acontece nessa sexta-feira, 22/9, em São Paulo. No filme, Steffen parte da metáfora e do simbolismo de um beijo para discutir um tema comum a todos nós: a eterna busca pelo amor perfeito.

Lufe nasceu em 1975, em São Paulo, e é também ator, cantor, roteirista e nosso colega aqui na redação do Mix Brasil. Em seu currículo, tem ótimos trabalhos como o recente “Meu Namorado é Michê” (selecionado para o Festival MixBrasil 2006), “Rasgue Minha Roupa” (2002), “A Cama do Tesão” (2000) e o hours concours “Os Clubbers Também Comem” (1999).

Em entrevista ao Mix Brasil, Steffen falou sobre a estética de suas produções, sobre as dificuldades de produzir cinema no Brasil e, claro, sobre as expectativas para seu novo filme, cujo trailer no You Tube teve 500 acessos em apenas 10 dias. Confira abaixo a entrevista.

Em seus filmes, você dialoga todo tempo com o “trash”, o surreal, o bizarro, e consegue divertir sem ser chato ou piegas. É mais fácil lidar com temas polêmicos com leveza e irreverência?
Então, eu não sei se é mais fácil. Talvez fique menos panfletário mesmo quando você aborda temas tabus, mas com uma roupagem divertida. Mas é que, em geral, é uma coisa natural nos meus curtas. Eu começo a fazer e quando vou ver o resultado, sai sempre uma coisa meio debochada mesmo. Não é muito programado. De qualquer forma acho bacana você dizer que eu consigo divertir sem ser chato. Não quero ser chato (risos).

A estética de seus filmes denuncia uma recusa em aceitar aquele cinema publicitário e “limpo”. Como então existir em um mercado dominado por aqueles cineastas com recursos financeiros e influências?
Pois é... Não sei, justamente ando preocupado com isso (risos). Não sei qual o caminho para conseguir impor seu trabalho num mercado muito padronizado. Eu busco fazer meu trabalho e tento ampliar o espaço, divulgando, chamando a atenção para uma alternativa que eu considero diferente. Tem muita gente também fazendo isso, eu estou tentando, muitas pessoas estão tentando. O negócio é acreditar no seu trabalho. Mas é sempre uma incógnita essa questão.

Me fale um pouco sobre seu novo filme. Do que se trata?
O novo filme, o “Beija-me se For Capaz”, fala basicamente da busca do amor perfeito. O romance ideal, a cara-metade, entrando no mito do príncipe encantado. E aí aquela dicotomia príncipe-sapo. O que o filme discute é essa angústia: que dentro de cada um existe um pouco de príncipe, um pouco de sapo. Claro, tem gente que é mais sapo do que príncipe (risos)... Então o filme versa sobre essa idealização do amor romântico, tudo num viés gay. Tipo, os gays e seu Complexo de Cinderela. Por outro lado, acredito que qualquer pessoa possa se identificar com o filme, não somente o público gay. Todo mundo que já sofreu por questão amorosa vai se envolver com o filme, eu acho.

O trailer de seu novo filme no You Tube teve 500 acessos em 10 dias. Como você vê esse fenômeno na divulgação de trabalhos que normalmente não têm espaço no mainstream?
Então, eu sempre fui crítico com as novas tecnologias. Mas de repente vi que o You Tube estava sendo bastante acessado e resolvi colocar ali o trailer do filme. E o resultado foi incrível. Isso ajuda a criar uma atmosfera para um trabalho desse tipo, que já tem um cunho alternativo e certamente não terá muito espaço na mídia tradicional. Acho que é uma ferramenta importante sim, porque ela democratiza o trabalho das pessoas que como você falou não têm espaço no mainstream. O grande barato é esse: as pessoas conseguirem fazer arte e exibirem essa arte sem depender de panelas ou burocracias ou invasões ao seu trabalho.

Como você avalia a trajetória dos seus outros filmes?
Bom, os outros filmes, cada um teve seu momento e sua história. Os “Clubbers” [“Os Clubbers Também Comem”] foi bem legal, ganhou um prêmio no Mix Brasil e tal, foi um filme marcante. Teve “A Cama do Tesão”, um filme que eu não divulguei muito, então ficou meio despercebido. Daí o “Rasgue Minha Roupa”, que foi um grande sucesso, ganhou 12 prêmios e tal, foi minha primeira experiência com película, no caso, Super-8. Agora chegam os novos, o “Beija-me” e o “Michê” [“Meu Namorado é Michê”]. Acho que o trabalho de curta-metragem acaba sendo meio irregular e você precisa ser perseverante para criar uma obra contínua. E os curtas têm aquela coisa, eles têm uma vida meio curta mesmo, porque depois de rodar os festivais você às vezes “aposenta” o curta. Ou tenta colocar na internet, TV, aí entra a coisa legal do You Tube, por exemplo, e outros recursos do tipo.

“Meu namorado é Michê”, seu outro curta que foi finalizado recentemente, está no programa “Sexy Boys” do próximo Festival Mix Brasil. Qual você acha que será a reação do público?
Bom, estou curioso, porque o programa Sexy Boys é geralmente composto de curtas bastante sensuais, libidinosos até, e o “Michê” eu não vejo tanto assim (risos). Mas acho legal estar lá. Quero ver como o público vai receber. Outra coisa é que o filme foi rodado em Super-8, preto-e-branco, o que também deve gerar uma estranheza. Vamos ver se o povo vai curtir, se envolver, ou se vai achar o filme “frígido” (risos).

Que referências você utilizou para filmar “Beija-me se for capaz”?
As referências básicas foram os filmes do diretor Djalma Limongi Batista, os curtas dele, principalmente “Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora”, feito em 68 e que já era homoerótico. E também longas do Djalma como “Asa Branca” e “Brasa Adormecida”. Mas uma referência fortíssima foi a trilogia dos diretores Ícaro Martins e Zé Antonio Garcia, “O Olho Mágico do Amor”, “Onda Nova” e “Estrela Nua”. Tem uma cena do meu curta claramente inspirada numa cena do “Estrela Nua”. Lá, a Carla Camurati aparava os pentelhos, fazia um baseado com eles e fumava. No “Beija-me”, quem faz essa ação é o André von Ah. E no fim do “Beija-me”, aparece um trechinho do “Onda Nova”, original. Sempre admirei o trabalho desses cineastas, que são pouco lembrados e valorizados no cinema nacional. E como eles já falavam de temas gays ou underground há décadas, achei legal homenagear.

Quais são seus próximos projetos? Tem idéia de novos filmes?
Por enquanto quero exibir e divulgar esses dois novos curtas, afinal, ainda estão inéditos! Sempre tem um tempo de circulação do trabalho, e daí novas idéias vão surgindo. Mas de qualquer forma eu já tenho alguns projetos germinando. Quero fazer um ensaio fotográfico, só fotos mesmo, com uma estética gay trash, e tenho um projeto de um longa-metragem que já está rolando aí em uns editais públicos. Vamos ver se sai alguma coisa (risos)... Me aguardem! 

A pré-estréia de “Beija-me se for capaz” acontece na madrugada de sexta para sábado, 23/9, no Ponto Zen (av. São João, 1119, São Paulo), a partir da 0h. A entrada é franca.

    





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