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  Cultura GLS: ENTREVISTA
Diviníssima
28/9/2006
Cantora trans Divina Valéria prepara recital em Paris e diz que está apaixonada por um egípcio
Foto: Divulgação


Foto: Divulgação


A geração mais nova não a conhece, mas a cantora transexual carioca Divina Valéria é estrela nacional e internacional desde a década de 60. Sua trajetória artística começou mais precisamente em 1964 ao lado de Rogéria. Já atuou em espetáculos dirigidos por Miele, Aracy de Almeida, Agildo Ribeiro e Peri Ribeiro. No exterior foi estrela do Carrossel e do Olímpia, em Paris. Em 2004, estreou como atriz na peça “Ema Toma Blues”, de Aninha Franco, que ficou em cartaz em Salvador.

Em entrevista exclusiva ao Mix Brasil, Divina conta como foi cantar no altar em uma missa celebrada pelo padre brasileiro Alfredo e também sobre o recital solo que fará no Theatre du Temple, onde será acompanhada por uma orquestra.

Mas a cantora não quis falar só sobre trabalho. Ela aproveitou para abrir seu coração e confessar que está apaixonada por um egípcio. Confira a seguir.

Você está em Paris há quanto tempo? O que tem feito por aí?
Estou há quatro meses em Paris, tento guardar meus contatos aqui o máximo possível, aliás, Paris é uns dos meus endereços fixos. Aqui me sinto livre e prestigiada. Passeio muito, vou ao teatro, ao cinema, vejo exposições (como, por exemplo, uma divina com as melhores fotos de Paris Macht). Assisti ao recital da minha amiga Marie France, é uma trans daqui que trabalhou comigo na época do Carrosel de Paris. É a melhor performance de Marilyn que vi em minha vida. Já escreveu livro e é uma grande personalidade da França. Foi maravilhoso, ela está ótima, bem atual!

Como foi para você cantar uma reza ao lado de um padre, numa igreja? Houve críticas? Como os fiéis a receberam?
Foi emocionante! Quando Roberto Chaves, o organizador do evento, me convidou, não acreditei, me senti uma privilegiada. Nunca ouvi falar que uma travesti pudesse fazer este tipo de coisa, mas nesse mundo moderníssimo e onde até as religiões utilizam todos os artifícios para continuar a existir, não me pareceu tão anormal que acontecesse isso comigo. Do mais, sou uma pessoa respeitosa com tudo e com todos, sempre me senti bem vinda em qualquer lugar (que continue!). Quanto às críticas, parece que minha participação arrasou, todos amaram e me congratularam, até o padre Alfredo da Bahia que vem sempre para a missa agradeceu-me. Foi maravilhoso! Os fiéis também. Depois fiquei leve como uma pluma angelical...

Você está preparando um recital em um teatro em pleno centro da Cidade Luz. Do que se trata?
Dessa vez tenho que botar mais lenha na fogueira, porque o meu próximo espetáculo é todo em francês, músicas e textos, e não parar de abanar. O Theatre du Temple é bem conhecido e muito bem freqüentado. Já faz cinco anos que não me apresento oficialmente diante do público europeu. O espetáculo é uma forma de teatro texto e recital, onde misturo textos da Ema [o espetáculo “Ema Toma Blues”, que ela estrelou em Salvador em 2004] com músicas inéditas francesas e brasileiras, tipo L'aigle Noir de Barbara e compositores brazucas. Mas, oficialmente, canto sempre nos cabarés, nos barcos do Rio Sena para treinar a língua. Muitos ensaios com os músicos, provas de figurinos e muita correria, não sei como faço! Adoro “challenge” [desafio]! Acredito que vai ser um luxo!

Que lembranças o passado traz para você? Tem saudades daqueles espetáculos dirigidos por Agildo Ribeiro, Miele e Bibi Ferreira?
Claro! Essas lembranças estão e estiveram guardadas para sempre em minha memória, pois fazem parte do meu currículo e tudo isso foram aprendizados que contribuíram para minha carreira, como não poderia deixar de citar os outros espetáculos que também fiz com Aracy de Almeida, Flávio Cavalcante, Lennie Dale, Pery Ribeiro, Augusto César Vanucci e outros. E, naturalmente, o monólogo de Aninha Franco, “Ema Toma Blues”, dirigido por Paulo Dourado, que revelou a atriz que havia dentro de mim e que foi meu último trabalho no Brasil.

Como surgiu o convite para participar do filme “Cidade Baixa”? Que frutos você colheu após a atuação no filme?
O convite veio do próprio diretor do filme, Sérgio Machado, que me viu atuando no teatro com “Ema” em Salvador. Fiquei feliz em participar do projeto de um produtor importantíssimo como Walter Sales e poder contracenar com atores maravilhosos como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Alice Braga, sobrinha da nossa diva Sonia Braga. Isto me deu uma confirmação de que eu sou capaz de não ser só a Valéria e poder interpretar qualquer personagem. Gostaria de fazer mais cinema, apesar de ser um métier de muita paciência.

Ser travesti no Brasil não é fácil, imagino que por aí as coisas devam ser mais tranqüilas. Como o seu talento é reconhecido na França, já sofreu algum tipo de preconceito?
Eu nunca tive problema em ser travesti, nem no Brasil nem em nenhum lugar, talvez por ter nascido artista e ter sido sempre um pessoa digna. Sobre o preconceito, este existe em qualquer lugar do mundo e não é só com travesti, é com preto, gordo, feio, pobre, enfim... Mas quando a gente é superior a esses tabus, tudo passa batido e a arte não tem sexo! Rapidinho descobri que meu negócio era o palco. Não é só no Brasil e na França que sou reconhecida, sou também na Argentina, Uruguai e na Espanha. Aliás, darei umas voltinhas por estes lugares depois daqui, sinto muitas saudades dos meus amigos e do público desses países maravilhosos. Claro que na Europa as coisas são bem mais fáceis, porque aqui é Primeiro Mundo e se vive com mais apoio e respeito. Seria bom se o Brasil também fosse assim...

Paris é a cidade do amor, da paixão. Como anda o coração da Divina?
O coração da Divina está mais cauteloso e exigente, mas enquanto vida eu tiver, meu coração estará sempre aberto. No momento o meu grande amor é o palco, apesar de ter um egípcio lindo querendo bagunçar com o meu coreto, tudo por causa da libido. Como diz Alcione: “Não vou perder nem mooooorta!” Seja o que deus quiser!

Você é amiga de muitas celebridades e deve ter tido romance com algumas delas. Pode me falar de alguma em específico?
Se eu falar, esta entrevista corre o risco de não ser publicada. Eu sou uma mulher discreta e cautelosa (risos). Por isso eu deixo essas revelações para o livro da minha vida, que já comecei o rascunho aqui em Paris e que um dia será publicado... Vocês não podem imaginar: vai de políticos e esportistas a atores, pintores, cantores etc. É esperar para ver.

Em seus shows, você já interpretou Maria Bethânia, Maysa, Dalva de Oliveira. Tem alguma diva que você ainda não interpretou e gostaria de interpretar?
Sim, tem muitas maravilhas por aqui. Gosto de Gansburg, Barbara, Juliette Greco. Interpretei-as e também convivi com muitas delas, que me serviram como fonte de inspiração. A única que eu não interpretei e foi meu grande ídolo é a nossa diva americana Jude Garland, para mim a maior de todas!

Tem planos de voltar ao Brasil?
Claro! No final do ano estou no Brasil... Adoro meu país, necessito das minhas raízes, não nego que sou uma carioca da gema e que é no Brasil que está minha fonte de energia. Em dezembro vou atuar no Pelourinho em Salvador, como faço todos os anos durante o verão.

   





LEIA OS COMENTÁRIOS

5/10/2006 01:09:06 - Walkiria Rosario / Mae de Lésbica (maedelesbica@hotmail.com)
Assisti Ema Tomas em Salvador,um espetáculo fantastico, ela é realemente Divina.Essa mulher é linda, talentosa e simples.Parabens pela entrevista , e muito Sucesso para a Divina Valeria.
29/9/2006 00:26:41 - Nilson (ngcr@ig.com.br)
Bela matéria, Paco. Parabéns! Por vezes, as minorias reproduzem, de forma amplificada, os preconceitos recebidos. É admirável vê-los, notáveis, a abordar incondicionalmente e com justiça, talento, competência e sensibilidade. Viva o MIX!
28/9/2006 21:46:53 - Nilson (ngcr@ig.com.br)
Para quem já teve oportunidade de assistir Valéria em cena, não há qualquer surpresa. A artista é esplêndida! Difícil é encontrar cultura sensível à Arte incondicionalmente. Em Paris, está em casa, há décadas. Que brilhe intensamente, cuide-se, seja muito feliz e, dentro do possível, não nos prive, por muito tempo, de suas breves passagens pela nossa terra insólita, frondosa e surreal.


                                



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