Foto: Hélio Filho


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Phedra de Córdoba hoje é um nome conhecido no meio teatral, principalmente em São Paulo, na Praça Roosevelt, famosa por concentrar vários palcos de diferentes companhias em apenas uma quadra. Mas nos anos 1950, quando teve que sair de Cuba por ser travesti, a atriz não era muito bem quista e seu trabalho no teatro, mesmo que reconhecido por alguns poucos diretores, não encontrava futuro porque muita gente achava ela “pintosa”.
A cubana então encontrou no Brasil um país mais ameno, mesmo com a Ditadura Militar à toda nas ruas. E foi assim que Phedra começou a desenvolver seu trabalho e mostrar seu talento nos palcos brasileiros. Cinco décadas depois, ela voltou a Cuba, convidada inclusive pelo governo, para apresentar uma peça com a Companhia Os Satyros. Em entrevista ao Mix durante uma divertida visita, Phedra conta como foi recebida em seu país depois de tanto tempo, o que mudou na cena gay e quais são seus próximos trabalhos.
Como você foi recebida pelas trans de Cuba?
As travestis de lá dedicaram um show para mim. Fiquei surpresa quando vi uma loira de olho azul, linda. Perguntei se o olho era dela mesmo. Porque eu sou cubana e nunca tinha visto travesti cubana loira, deve ser alguma mistura do tempo em que os russos estavam por lá, na época comunista. Hoje em dia tem umas lindas de olhos azuis, verdes, mudou um pouco.
Você pôde ver coisas novas que nem imaginava então.
Sim, elas me disseram que eu era o ícone porque eu que lutei pela liberdade e hoje sou reconhecida no Brasil pelo meu trabalho. Elas são muito gratas à Mirela Castro (filha de Raul, irmão de Fidel) também, que as protegeu e agora elas podem sair na rua como são. Foi muito emocionante, elas dedicaram todo o show para mim. Ficou todo mundo muito emocionado, todo o pessoal do elenco que estava comigo. Decidi cantar para elas, peguei meu playback e cantei, todo mundo adorou. Foi deslumbrante.
Como está a cena gay em Cuba agora?
As boates gays não ficam no centro de Havana, sempre ficaram bem longe. Agora a Mirela quer que essas boates venham para o centro da cidade. Está tudo na periferia, é muuito longe. Quando fui, perguntei para o motorista se nós íamos sair de Cuba, porque nunca chegava (risos). Viajei umas duas ou três horas para chegar, fiquei surpresa quando vi que estava cheio. Mesmo longe o lugar enche.
Você conversou com a Mirela?
A Bárbara Ribeiro, que é envolvida na cultura cubana, chegou ao teatro e disse que queria falar comigo depois da peça. Ela disse que tinha um recado para me dar, mas eu não conseguia ficar tranqüila porque tinha muita gente em cima de mim, tinha a peça. Todo mundo queria tirar foto comigo, me convidaram para muitas coisas. Aí ela conseguiu uma brecha e me disse: “Mirela, filha de Raul, quer falar com você”. Não consegui me encontrar com ela, mas sei que ela queria me ver. Fui convidada a voltar no ano que vem, quem sabe.
Como surgiu o convite de ir para Cuba? Voltar a sua terra?
A Bárbara Ribeiro me conheceu aqui no Brasil e uma noite queria me ver em cena, eu a convidei para me ver em “Divinas Palavras”, no Satyros, e ela foi. Ela já tinha convidado o Rodolfo (dono do Satyros) para que a Companhia fosse a Cuba. Reinaldo Monteiro, um famoso dramaturgo cubano, deu uma peça dele para o Rodolfo ler e disse que gostaria que o Rodolfo fizesse aquela peça em Cuba, já que iríamos para lá. Ninguém nunca tinha feito a peça e o Reinaldo fez questão de que nós fossemos os primeiros. A Bárbara fez questão de que eu fosse.
Qual peça vocês foram montar lá?
Foi “Liz”, do Reinaldo Monteiro. Estreamos a montagem em Santo André e no ano que vem vamos para o Sesc da Avenida Paulista com ela, fazendo temporada mesmo. É linda, linda, linda.
Como será sua participação na mini-série “Além do Horizonte”, da TV Cultura?
Eu já fiz bastante televisão na minha carreira. No ano passado mesmo já tinha feito um seriado da Cultura. Minha personagem neste novo seriado, escrito por Ivan Cabral, é maravilhosa, é a Maroca. A primeira coisa que eles quiseram era que eu fizesse a Maroca, ela é demais. Ela que praticamente fala em toda a história, não é a narradora, mas conta a história toda. Vamos começar a gravar já.
Como é Maroca?
O seriado abre e fecha com ela. A Maroca tem algo meu de espiritualidade, ela não é bruxa, tem umas coisas que ela fala como se fosse uma sensitiva. Conhece a história da cidade, das pessoas. Tem vários gatos, foi ótimo para eles porque eu tenho gato e poderia contracenar com gatos sem problemas. A Maroca conversa com os gatos, fala do que está acontecendo na cidade. Ela é bem misteriosa. Ela fala as coisas sobre a vida das pessoas, mas elas não têm ódio dela, têm medo. Porque sabe que ela fala a verdade, fala de coisas bem íntimas. Ela sabe de tudo que acontece, por isso as pessoas têm medo dela, mas mesmo assim todo mundo vai falar com ela.