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  Cultura GLS: BIOGRAFIAS
Resgate
25/8/2006
A vida generosa de Paschoal Carlos Magno, mecenas das artes e figura mais que importante do teatro
Foto: Reprodução


Paschoal Carlos Magno
Foto: Ana Maria Moura/ Reprodução


Ilustração do casarão da rua Paschoal C. Magno

Os Deuses que protegem as Artes não estão deixando passar batido o centenário de nascimento de Paschoal Carlos Magno (1906-1980), animador cultural, produtor, crítico, autor e diretor, romancista, diplomata de carreira, político, homem de teatro e figura de proa da comunidade gay de seu tempo.

Muitos eventos oficiais homenageiam o mecenas que era apoio constante para todos que compartilhassem sua paixão pelo teatro. Em nome dela, produziu festivais por todo o país e abriu sua casa no bairro carioca de Santa Teresa para abrigar o Duse, teatro com oitenta lugares. Criado para ser laboratório de atores e diretores, acabou se transformando em importante referência na dramaturgia brasileira. Levaram a assinatura de Paschoal a Caravana da Cultura (1964), a Barca da Cultura (1974), o Trem da Cultura, projetos itinerantes de circulação de artes cênicas, o Teatro Experimental de Ópera e o Festival Nacional de Teatro de Estudantes (com sete edições).

Paschoal criou, em 1944, um "Curso de Férias de Teatro" que foi a semente do Teatro Experimental do Negro. Em 1965, fundou a Aldeia de Arcozelo, no município de Pati do Alferes - interior do Estado do Rio de Janeiro -  um local  para repouso de intelectuais  e centro de treinamento para diversos segmentos de arte.

Quem é bom, já nasce feito
Paschoal Carlos Magno nasceu no bairro carioca do Catete, em 13 de janeiro de 1906, filho dos imigrantes italianos Nicolau e Filomena Campanella Carlos Magno. Aos 12, já tinha um livro de poesias publicado (“Templos”) e prefaciado pelo Conde de Afonso Celso,um importante crítico literário. Aos dezoito, havia publicado “Tempo que passa” e "Chagas do Sol". Com 20 anos, ganhou uma menção honrosa da Academia Brasileira de Letras com o romance "Drama da alma e do sangue".

Quatro anos depois, a mesma Academia lhe concedeu o primeiro prêmio teatral pela peça “Pierrot”. Montada pela Companhia de Jaime Costa e assistida e aplaudida pelo Presidente Getúlio Vargas, trouxe a consagração popular. No final de 1927, Paschoal Carlos Magno, Renato Vianna e o artista plástico Roberto Rodrigues (irmão do futuro dramaturgo Nelson Rodrigues)  lançaram a Companhia Caverna Mágica, que encenou  “Fim de Romance”. Uma peça de vanguarda com iluminação sofisticada e diálogos bem estruturados – não fez sucesso, o novo sempre assusta.

Em 1929, fundou a Casa do Estudante do Brasil, que abrigava estudantes sem recursos e iniciou campanha para que autoridades e a população ajudassem a manter a Entidade que criou junto com Ana Amélia Carneiro de Mendonça.

Cursava Ciências Jurídicas e Sociais, mas encontrava tempo e disposição para viajar pelo Brasil, organizar feiras, espetáculos, festivais, caravanas e seminários com jovens. Em 1933, é nomeado vice Consul em Manchester, Inglaterra, indo depois para o Consulado Geral em Londres. Serviu também na Itália (Milão).

Teatro do Estudante do Brasil
O panorama careta do teatro carioca recebeu um alento quando a ousadia de Paschoal preparou a montagem de Romeu e Julieta, de Shakespeare, com os então iniciantes Sônia Oiticica, Paulo Porto e Sandro Polônio.

Mesmo servindo na Inglaterra como diplomata, deixou o TEB funcionando no Rio e, de longe, supervisionou a montagem de um repertório variado (Edmond Rostand, José de Alencar, Gonçalves Dias). Cacilda Becker, dama do teatro, revelou-se ali.

Do elenco de Hamlet, em 1948, participaram Sergio Cardoso, Barbara Heliodora, Maria Fernanda e Sergio Britto.

Vale lembrar que boa parte do trabalho se desenvolveu em plena segunda guerra, com um oceano de distância. Mas para Paschoal bastavam determinação, bom tipo fisico, alguma desenvoltura e a centelha de talento que ele sabia captar, mesmo de longe. No tempo livre, enquanto propagava nossa cultura na Europa, escreveu e publicou o romance “Sun Over the Palms”, que obteve excelentes resenhas.

O teatro deve também a Paschoal Carlos Magno a fala brasileira em lugar do sotaque lusitano, a valorização do cenógrafo e do figurinista, e a exclusão do ponto. Desta ousadia sem limites surgiram o Teatro Experimental do Negro, o Teatro Gibi para crianças e o Teatro Experimental de Ópera.

Em 1951, viajando pelo Brasil com a remontagem de Hamlet, Paschoal idealizou festivais estudantis no Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil que aconteceram sempre com recordes de bilheteria. Já que os patrocinadores eram inconstantes e temerosos, para descomplicar a burocracia (leia-se censura) e oferecer novo espaço para experimentos, foi inaugurado um teatrinho doméstico.

O Teatro Duse
Em 2 de agosto de 1952, o Embaixador inaugurou no porão de sua casa em Santa Teresa, o Teatro Duse, com 80 lugares, batizado em homenagem à atriz italiana Eleonora Duse, e que se propunha a revelar novos autores e atores nacionais.

Até 1956, foram abrigados ali o Teatro do Estudante do Brasil (TEB) e o Teatro Experimental do Negro. Os autores, então inéditos em cena exibidos no Duse foram, entre outros, Antônio Callado, Rachel de Queiroz, Hermilo Borba Filho e Francisco Pereira da Silva e atores como Teresa Rachel e Agildo Ribeiro ali iniciaram suas carreiras.

Após a morte de seu idealizador, a Fundação Nacional de Artes Cênicas comprou a casa de Paschoal e o teatro Duse foi incorporado à rede dos teatros da instituição e reaberto em 2 de agosto de 1998, na festa dos 46 anos de sua inauguração.

O casarão que abriga o teatro, construído na década de 20, pode hospedar 30 pessoas e foi comprado pelo governo federal em 1984.

Aldeia de Arcozelo
Animado com o sucesso dos festivais estudantis que percorriam o Brasil, Paschoal resolveu montá-los numa propriedade que tinha, no municipio de Pati do Alferes. interior do Estado do Rio - a Aldeia de Arcozelo.

Mais de mil participantes, grupos amadores e estudantis, estiveram na Aldeia. Ali foi consagrado Plínio Marcos, que havia sido notado por Paschoal num festival que se realizou em Santos (o sétimo).

A Aldeia era a antiga Fazenda da Freguesia, do Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier e, pelo sonho de Paschoal, deveria se transformar num centro de arte em permanente atividade, com um Anfietatro Itália Fausta, um Teatro Renato Vianna e área para Festivais de Teatro Amador e Encontro de Corais das Escolas.

Sonhar lindo assim é grátis, mas ver sonho audacioso virar realidade, infelizmente, só na novela das oito. Quando morreu, em 1980, o diplomata havia vendido a casa e a maior parte de seus bens para bancar o centro cultural na Aldeia de Arcozelo e manter seu teatro em funcionamento.

Paschoal perdeu dinheiro, fez dívidas que não poderia pagar e teve que vender sua casa em Santa Teresa. Triste, frustrado, carente do patrocínio que poderia apoiar seus projetos, já que foi perseguido pela Ditadura Militar, escreveu o livro “Não acuso nem perdôo”.

Quando completou 70 anos, Carlos Drummond de Andrade publicou no Jornal do Brasil a crônica “Por sua vida curtida e generosa, hoje devia ser feriado nacional”.

Em dezembro de 2005,  a casa onde morou o Embaixador na Rua Hermenegildo de Barros, em Santa Teresa, na zona sul do Rio, foi entregue ao público com a reativação da sala de espetáculos, restaurado e transformado - finalmente - o centro cultural que deve hospedar grupos teatrais que se apresentarem no Rio e promover encontros de jovens e da clientela da terceira idade.

Paschoal Carlos Magno, que tive a honra de conhecer pessoalmente e de quem tive prova da famosa generosidade, morreu em 24 de maio de 1980 aos 74 anos.

Visite a Casa de Paschoal e demais atrações culturais de Santa Teresa, bairro carioca, no site da FAPERJ lindamente ilustrado por Ana Maria Moura, AQUI

  





LEIA OS COMENTÁRIOS

26/8/2006 16:50:56 - Lucimar Sena (lucimarlbs@bol.com.br)
É de suma importância para o teatro brasileiro! Pois lutou com afinco para que o mesmo sobrevivesse a qualquer custo! É muito bom vê a casa reformada e recebendo os artistas novamente! Agora falta lembrarmos um pouco mais da Aldeia de Arcozelo, em Paty do Alferes. Ela não passa muito bem! A FETAERJ- Federação de Teatro Associativo do Estado do Rio de Janeiro, faz lá Festivais de Teatro, e a cidade recebe os artistas (que muitos ainda chamam de amadores), com seus maravilhos trabalhos, de braços abertos! Mas o público que visita a ALdeia, sabe ao vê, que ela precisa de ajuda de todos nós, para que o sonho de Paschoal continue vivo por longos anos!!!
26/8/2006 07:17:51 - Nilson (ngcr@ig.com.br)
Parabéns pela oportuna, justa e lapidar matéria; aliás, sob a chancela da competência de Thereza Pires. Abraços!


                                



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