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  Cultura GLS: BIOGRAFIAS
Allen Ginsberg – 80 anos do escritor e ativista
3/11/2006
50 anos da publicação do “UIVO”










13 de Outubro de 1955. Six Gallery de San Francisco - um galpão de oficina usado como local de reunião de artistas alternativos. Allen Ginsberg organiza um recital de poesia. O ponto alto da noite acontece quando são lidas as primeiras estrofes de seu poema ''Howl'', que seria publicado no ano seguinte.

''Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus / arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa...''

A publicação causou enorme escândalo e a censura ordenou a imediata apreensão da obra. Os defensores da primeira emenda da Constituição Americana - “o Congresso não fará nenhuma lei... que restrinja a liberdade de expressão ou de imprensa” - protestaram e um juiz, vendo a importância da obra para sua época, liberou a venda.

A performance foi reprisada em 1956, em escala ampliada, em um auditório em Berkeley. Ali estavam Kenneth Rexroth (convidado para ser o mestre de cerimônias da primeira rodada), Michael McClure. Gary Snyder, Robert Duncan, Philip Whalen e Philip Lamantia. Ginsberg, um dos maiores nomes da cultura contemporânea e que completaria 80 anos em 2006, deu o toque final na  poesia norte-americana do século XX. Voz solidária a favor das minorias religiosas e étnicas, foi militante da causa homossexual e preso diversas vezes.

Não fazia segredo de suas idéias libertárias e as críticas corrosivas à política americana lhe renderam uma ação do FBI, que o considerou inimigo público e persona non grata ao país.

Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs formaram a “nada santíssima trindade” do movimento beat e consta que, juntos, participaram de ““experiências radicais”.

“Oh,Mother, Oh Mother”
Allen Ginsberg nasceu em Newark em 3 de junho de 1926, filho de imigrantes esquerdistas radicais judeus, marxistas, nudistas, feministas e todos os “istas” que sugerissem idéias modernas. Louis Ginsberg, o pai, era poeta e professor. A mãe, Naomi Levy Ginsberg, que começou a enlouquecer quando Allen era criança, foi internada numa clínica psiquátrica e lobotomizada.

Quando a mãe morreu, em 1956, o poema “Kaddish” teve que ser escrito em uma hora e meia, pois não havia gente em número adequado para que o rabino lesse a prece tradicional para relembrar os mortos (o kaddish).

Começa com a expressão da perda e do abandono:

"O mother / what have I left out / O mother / what have I forgotten / O mother / farewell". (oh mãe, oh mãe, o que eu deixei de lado, o que eu esqueci, oh mãe... adeus)

Durante a “Grande Depressão”, a família mudou-se para Paterson, onde Ginsberg terminou os estudos de segundo grau e deciciu estudar Direito. Ganhou uma bolsa da Young Men's Hebrew Association of Paterson to Columbia University, onde se decidiu pelo estudo da língua inglesa. Ali conheceu Jack Kerouac e William Burroughs e Neal Cassady, primeiro companheiro. Em 1943, passou a conviver com o colega Lucien Carr.

Na contramão
Nos entremeios da relação, Carr esteve envolvido na investigação de um caso de assassinato e Ginsberg foi suspenso da faculdade por um ano. Antes de se formar, em 1948, precisou trabalhar como porteiro de edifcio, soldador em estaleiros e lavador de pratos.

Também teve a chamada “falta de sorte” ao lidar com o escritor Herbert Huncke: presos após uma blitz de trânsito, o nome de Ginsberg foi encontrado em papéis deixados no carro, que era roubado. Alegando insanidade, a pena foi comutada para 8 meses de internação numa clínica psiquiátrica, onde encontrou Carl Solomon, um discípulo de Artaud, a quem dedicou, mais tarde, “HOWL!

Voltando a Peterson, conheceu o escritor William Carlos Williams e o jovem poeta Gregory Corso. Militou pela liberação das leis sobre drogas e, junto com Timothy O’Leary e Ken Kesey, foi a figura central do movimento psicodélico. Antes de se devotar por completo à poesia, trabalhou na Newsweek, em Nova York e San Francisco (1951-1953). Em San Francisco, alugou um quarto perto da livraria que publicou HOWL, a Lawrence Ferlinghetti’s City Light Press, com prefácio de Williams.

“Howl”, longo poema em prosa, foi um escândalo pela liguagem crua e explícita. Outra obra importante é "Hadda be Playin' on a Jukebox," poema que relata os acontecimentos mais importantes das décadas de 60 e 70 . “Plutonian Ode” é uma crítica ao armamento nuclear.

Pela paz no mundo
Ginsberg foi finalista para o Pulitzer com Cosmopolitan Greetings: Poems 1986-1992. Com a obra marcada pelo modernismo, ritmos e cadências de jazz, fé budista e ascendência judaica, foi a ponte entre os Beats dos anos 50 e Hippies dos anos 60 (na verdade, foi seu pai espiritual), criador da expressão Flower Power e referência na cultura beatnick. Mente iluminada, participou do evento Human Be-In, em San Francisco (1967), onde foi um dos que conduziu a multidão cantando o mantra OM, pela paz no mundo.

Foi pioneiro na luta pelos direitos dos homossexuais nos Estados Unidos, sempre defendendo a livre expressão. Sua complacência com certas práticas consideradas chocantes é famosa, assim como sua generosidade.

Depois da morte da mãe Ginsberg partiu para uma viagem ao Polo Norte. Foi à India com seu companheiro Peter Orlovsky, viagem inspiradora da coleção “The Change”.
Fez palestras em universidades contra a guerra do Vietnã, marchou contra a C.I.A., contra o xá do Irã e foi preso nos episódios da convenção democrárica em Chicago. Foi deportado de Cuba depois de denunciar o tratamento dado aos homossexuais.

A conversão ao Budismo e a devoção ao guru Chögyam Trungpa mudaram sua vida, sua poesia e seu modo de ver o mundo. Após a morte de Jack Kerouac ajudou a fundar a Kerouac School of Disembodied Poetics no Naropa Institute, uma universidade budista e ensinou lá.

Recebeu prêmios, títulos “Honoris Causa” e criou uma empresa, "Allen Ginsberg Industries", com sede em Nova York, que proporcionava  uma espécie de “bolsa de trabalho” para poetas com dificuldades econômicas. Até o último momento - 5 de abril de 1997 - morrendo de câncer no fígado, sua preocupação esteve voltada para os semelhantes.

  





LEIA OS COMENTÁRIOS

6/11/2006 14:46:35 - Themis julio (tejota_asp@hotmail.com)
Muito interessante a reportagem.. Espero que a vida de Ginsberg traga algum significado pra todos nós.... e que fazemos um pouco jus disso... T.J- Vitória -ES
5/11/2006 13:00:54 - A.M.V (am-vargas@uol.com.br)
Thereza, belíssimo texto...sempre cheio de conteúdo e emoção...Ter o privilégio de ser sua amiga e, vendo o ser humano pelo SER que é e não pelo que tem..Parabenizo pelo trabalho e só posso dizer: continue escrevendo sempre para o seu público que tanto a admira !!!
5/11/2006 11:43:13 - jorge ferreira silva (jorgeavelinoferreirasilva44@hotmail.com)
Parabens, todos esses caras aquí citados merciam uma resenha desse porte. E quem sabe todos juntos num pequeno libro dá uma bela receita de como se consegue sair de uma " areia movedisa" tão comun nestes dias.
5/11/2006 09:20:58 - Rosa Virgínia (rosa.vi@uol.com.br)
Parabéns Teresa pelo lindo e esclarecedor texto sobre esse homem tão ímpar e de extraordinário senso de humanidade.
5/11/2006 08:06:29 - bhakta Jose-NZ (bhaktajose@hotmail.com)
importante lembrar do grande envolvimento de Allen com o Hare Krishna, inclusive com o guru Prabhuapada. Allen foi um forte divulgador da cultura Krishna e um amante da India e do vegetarianismo. Boa materia. Parabens!
5/11/2006 03:35:32 - Heloisa Fischer (helofischer@uol.com.br)
Mandou bem...como sempre!
4/11/2006 21:30:27 - Geraldo dos Anjos (geraldo107@hotmail.com)
Parabens pela materia , bem que nosso mundo poderia ter mais Ginsberg para lutar pelas liberdades de pensamento, expressao etc..
4/11/2006 21:16:01 - Thaelman Carlos (thaelmancarlos@hotmail.com)
Gênio! O maior gênio da poesia norte-americana, ao lado de Bob Dylan e Withman. Howl - Uivo, um clássico. Não podemos - em nenhum minuto do século XXI - esquecermos quem foi Ginsberg. sua vida e sua obra. Tudo o qe veio depois é réplica. Ginsberg personificou o ser humano do século XXI. Sua poesia revolucionária , porque poesia ou é revolucionária ou não é poesia, seguirá ecoando pelos séculos futuros. É sempre bom relembrar este pastor louco, profeta zen e além tempo. Um eterno libelo contra todas as mediocridades.
4/11/2006 20:31:59 - Rodolfo (rodtravis@yahoo.com.br)
Hoje em dia é tudo tão pasteurizado e igualzinho. Ginsberg mostra a complexidade de um ser humano real, com contradições e sem roteiro hollywoodiano para explicar detalhes. Um cara cuja influência ressoa impactante nesse século XXI.
4/11/2006 20:28:12 - Leo (leonardomartins1@yahoo.de)
"... nunca viu Allen Ginsberg pagando michê na Alaska / nem Rimbaud pelas tantas / negociando escravas brancas / Você nunca ouviu falar em maldicao / nunca viu um milagre / Nunca chorou sozinha num banheiro sujo / Nem nunca ... quis ver a face de Deus! / Só as maes sao felizes" (Cazuza) Conheci A. Ginsberg no final da minha adolescencia gracas a Cazuza. Que falta faz o artista!
4/11/2006 19:57:22 - maria celina dias (mcelina3@hotmail.com)
fico impressionada como somos uma civilização de analfabetos mas a gota de água que refresca a minha mente sente lendo esta reportagem ai que saudade daqueles tempos que eu nem sabia que eu era hippy andava com uma margarida na cabeça e pedia paz no mundo saudade dimais obrigada pela reportagem
4/11/2006 19:36:31 - Edson (erhrusso@uol.com.br)
Thereza, parabéns! Belo texto sobre esse ser iluminado que foi ( para mim ainda é ) Allen Ginsberg! Muito oportuna a lembrança desse magnifico poeta que, como disse o Ricardo,ainda tem o privilégio de ser lembrado pelo que foi.Obrigado!!!
4/11/2006 18:50:15 - Josie Mello (purpurata@hotmail.com)
Ao viver sua vida com dignidade, em busca do próprio conhecimento, de si mesmo, o poeta Allen Ginsberg escreveu e se inscreveu na história do século XX, foi ele próprio um livro à parte! Mais pessoas precisariam conhecê-lo, lê-lo... entender seu olhar frente o mundo, naqueles dias lindos e tumultuados. Ver esse passado pelos olhos do poeta torna a existência mais grave, porém mais bela!
4/11/2006 17:03:10 - Subcult (elciomiranda@yahoo.com.br)
Excelente análise da vida e obra de Ginsberg. Nunca o lí. Sempre desejei lê-lo! Depois do exposto, minha vontade só aumenta! Mas faltam títulos na língua portuguesa!!!
4/11/2006 16:44:02 - Roberto (minasrest@bol.com.br)
Allen Ginsberg é um desses caras admiráveis pela extrema liberdade e coragem, pelo respeito e carinho que dedicou a seu semelhante. Uma lição para todos nós! Parabéns Thereza Pires pela excelente matéria.
4/11/2006 16:40:55 - sérgio pontes (tracoumfanzine@hotmail.com)
Uma matéria bem esclarecedora. Um livro bem bom sobre essa época é "Flashbacks", de Timothy Leary, em que alguns trechos, ele, Tim, relata momentos das viagens alucinógenas de Gisberg, junto com o seu namorado Peter Orlovsky. Tim também faz relatos, todos vivenciados por ele, sobre os outros beats. é isso -
4/11/2006 16:11:16 - Breno (brenobacci@gmail.com)
Triste destino dos poucos que vivem para todos, e não para si... Morrer sem ver mudanças... Como seria bom que cada pessoa que lê esse texto e se comove conseguisse arrastar mais uns 10 para a luta pelas únicas causas que valem a pena... Causas pelas quais Ginsberg lutou, e que hoje sofrem preconceito ainda maior que na década de 60... Quantos velhotes continuam achando que Ginsbergs, Kerouacs, Learys e James Douglas Morrisons são só bichonas pervertidas comunistas? Mais uma vez... triste... tristeza que não merece suspiro... merece um Uivo.
4/11/2006 14:08:16 - UU (molives@bol.com.br)
Parabéns Thereza. Isso é não só um uivo, mas um grito à sanidade quase perdidada no nosso século de guerras, no qual se lutar por liberdade e fraternidade é que é ser louco, não conhecia esse autor mas seu artigo me despertou muito interrese a respeito dele, obrigado!
3/11/2006 19:28:12 - Ricardo (bel_personne@hotmail.com)
Que lindo texto. Que linda a vida de Ginsberg. Que lindo ser lembrado por ser o que se é (ou foi, no caso dele).


                                



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