13 de Outubro de 1955. Six Gallery de San Francisco - um galpão de oficina usado como local de reunião de artistas alternativos. Allen Ginsberg organiza um recital de poesia. O ponto alto da noite acontece quando são lidas as primeiras estrofes de seu poema ''Howl'', que seria publicado no ano seguinte.
''Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus / arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa...''
A publicação causou enorme escândalo e a censura ordenou a imediata apreensão da obra. Os defensores da primeira emenda da Constituição Americana - “o Congresso não fará nenhuma lei... que restrinja a liberdade de expressão ou de imprensa” - protestaram e um juiz, vendo a importância da obra para sua época, liberou a venda.
A performance foi reprisada em 1956, em escala ampliada, em um auditório em Berkeley. Ali estavam Kenneth Rexroth (convidado para ser o mestre de cerimônias da primeira rodada), Michael McClure. Gary Snyder, Robert Duncan, Philip Whalen e Philip Lamantia. Ginsberg, um dos maiores nomes da cultura contemporânea e que completaria 80 anos em 2006, deu o toque final na poesia norte-americana do século XX. Voz solidária a favor das minorias religiosas e étnicas, foi militante da causa homossexual e preso diversas vezes.
Não fazia segredo de suas idéias libertárias e as críticas corrosivas à política americana lhe renderam uma ação do FBI, que o considerou inimigo público e persona non grata ao país.
Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs formaram a “nada santíssima trindade” do movimento beat e consta que, juntos, participaram de ““experiências radicais”.
“Oh,Mother, Oh Mother”
Allen Ginsberg nasceu em Newark em 3 de junho de 1926, filho de imigrantes esquerdistas radicais judeus, marxistas, nudistas, feministas e todos os “istas” que sugerissem idéias modernas. Louis Ginsberg, o pai, era poeta e professor. A mãe, Naomi Levy Ginsberg, que começou a enlouquecer quando Allen era criança, foi internada numa clínica psiquátrica e lobotomizada.
Quando a mãe morreu, em 1956, o poema “Kaddish” teve que ser escrito em uma hora e meia, pois não havia gente em número adequado para que o rabino lesse a prece tradicional para relembrar os mortos (o kaddish).
Começa com a expressão da perda e do abandono:
"O mother / what have I left out / O mother / what have I forgotten / O mother / farewell". (oh mãe, oh mãe, o que eu deixei de lado, o que eu esqueci, oh mãe... adeus)
Durante a “Grande Depressão”, a família mudou-se para Paterson, onde Ginsberg terminou os estudos de segundo grau e deciciu estudar Direito. Ganhou uma bolsa da Young Men's Hebrew Association of Paterson to Columbia University, onde se decidiu pelo estudo da língua inglesa. Ali conheceu Jack Kerouac e William Burroughs e Neal Cassady, primeiro companheiro. Em 1943, passou a conviver com o colega Lucien Carr.
Na contramão
Nos entremeios da relação, Carr esteve envolvido na investigação de um caso de assassinato e Ginsberg foi suspenso da faculdade por um ano. Antes de se formar, em 1948, precisou trabalhar como porteiro de edifcio, soldador em estaleiros e lavador de pratos.
Também teve a chamada “falta de sorte” ao lidar com o escritor Herbert Huncke: presos após uma blitz de trânsito, o nome de Ginsberg foi encontrado em papéis deixados no carro, que era roubado. Alegando insanidade, a pena foi comutada para 8 meses de internação numa clínica psiquiátrica, onde encontrou Carl Solomon, um discípulo de Artaud, a quem dedicou, mais tarde, “HOWL!
Voltando a Peterson, conheceu o escritor William Carlos Williams e o jovem poeta Gregory Corso. Militou pela liberação das leis sobre drogas e, junto com Timothy O’Leary e Ken Kesey, foi a figura central do movimento psicodélico. Antes de se devotar por completo à poesia, trabalhou na Newsweek, em Nova York e San Francisco (1951-1953). Em San Francisco, alugou um quarto perto da livraria que publicou HOWL, a Lawrence Ferlinghetti’s City Light Press, com prefácio de Williams.
“Howl”, longo poema em prosa, foi um escândalo pela liguagem crua e explícita. Outra obra importante é "Hadda be Playin' on a Jukebox," poema que relata os acontecimentos mais importantes das décadas de 60 e 70 . “Plutonian Ode” é uma crítica ao armamento nuclear.
Pela paz no mundo
Ginsberg foi finalista para o Pulitzer com Cosmopolitan Greetings: Poems 1986-1992. Com a obra marcada pelo modernismo, ritmos e cadências de jazz, fé budista e ascendência judaica, foi a ponte entre os Beats dos anos 50 e Hippies dos anos 60 (na verdade, foi seu pai espiritual), criador da expressão Flower Power e referência na cultura beatnick. Mente iluminada, participou do evento Human Be-In, em San Francisco (1967), onde foi um dos que conduziu a multidão cantando o mantra OM, pela paz no mundo.
Foi pioneiro na luta pelos direitos dos homossexuais nos Estados Unidos, sempre defendendo a livre expressão. Sua complacência com certas práticas consideradas chocantes é famosa, assim como sua generosidade.
Depois da morte da mãe Ginsberg partiu para uma viagem ao Polo Norte. Foi à India com seu companheiro Peter Orlovsky, viagem inspiradora da coleção “The Change”.
Fez palestras em universidades contra a guerra do Vietnã, marchou contra a C.I.A., contra o xá do Irã e foi preso nos episódios da convenção democrárica em Chicago. Foi deportado de Cuba depois de denunciar o tratamento dado aos homossexuais.
A conversão ao Budismo e a devoção ao guru Chögyam Trungpa mudaram sua vida, sua poesia e seu modo de ver o mundo. Após a morte de Jack Kerouac ajudou a fundar a Kerouac School of Disembodied Poetics no Naropa Institute, uma universidade budista e ensinou lá.
Recebeu prêmios, títulos “Honoris Causa” e criou uma empresa, "Allen Ginsberg Industries", com sede em Nova York, que proporcionava uma espécie de “bolsa de trabalho” para poetas com dificuldades econômicas. Até o último momento - 5 de abril de 1997 - morrendo de câncer no fígado, sua preocupação esteve voltada para os semelhantes.