
 Alexander Calder |
Elizabeth Bishop - a poetisa norte-americana - e sua companheira Lota de Macedo Soares são figuras muito presentes na vida Alexander (Sandy) Calder, criador dos “móbiles”.
Lota usava um “pente-figa” feito a partir de uma colher, presente do escultor para prender os longos cabelos negros – os mesmos que Bishop lavou carinhosamente, no poema “Shampoo”. Em sua casa em Samambaia (Petrópolis, RJ) - ícone da arquitetura brasileira, projetada por Sergio Bernardes – duas obras do amigo ocupavam espaço especial.
Calder esteve três vezes no Brasil e era apaixonado pelo samba. Adaptou os passos de nosso ritmo aos seus trabalhos, daí surgindo os “samba rattles”, instrumentos de percussão. Morou no Rio, no bairro de Botafogo e fez inúmeros amigos - em todas as classes sociais. Entre eles, o crítico de arte Mário Pedrosa que, durante 30 anos, escreveu sobre o escultor.
“Móbiles”: assim são conhecidas as folhas de metal coloridas que balançam poeticamente tocadas pelo vento ou com a ajuda de motores. Os “stabiles”, que vieram depois, são esculturas imensas que se integram harmonicamente nos locais para os quais são criadas.
Os 30 anos do desaparecimento deste gênio, que incorporou movimento à escultura, estão marcados pela exposição “Calder no Brasil”. Depois de São Paulo, a mostra com fotos, objetos pessoais e cerca de 50 esculturas e maquetes - inclusive a que fez para Brasília, encomenda de JK, e que nunca foi realizada - está itinerando no Rio. Mais exatamente, instalada no Paço Imperial, na Praça XV. A entrada é grátis e o vídeo, com música de John Cage, é imperdível.
A tática e a prática
Alexander (Sandy) Calder, nasceu na Filadélfia em 22 de julho de 1898). Filho de dois artistas plásticos - o pai, escultor renomado e a mãe pintora – graduou-se em Engenharia Mecânica sem racionalizar a escolha. No futuro, a intuição daria sentido à decisão da juventude.
Os pendores artísticos e a habilidade manual ajudaram-no a encontrar trabalho como ilustrador da National Police Gazette. Em 1925, já com várias telas tendo como inspiração o picadeiro, o jornal encomendou-lhe um poster para os espetáculos do circo Ringling Bros and Barnum & Bailey. Nas duas semanas em que passou nos traillers dos artistas, fascinou-se pela precisão e equilíbrio dos trapezistas e produziu seu próprio cirquinho. As figuras dos “artistas” eram feitas de arame e com o alicate que levava sempre no bolso. Ele próprio servia de apresentador, animador, mestre de cerimônia e ainda animava as marionetes, tudo acompanhado de efeitos sonoros.
Quando o “dono” partiu para uma de suas temporadas européias, desta vez na Académie de la Grande-Chaumière, em Paris, o Circo-Miniatura Calder foi junto - cabia em duas simples maletas de mão. Em 1930, diz o historiador Wayne Craven, “o Circo Calder tornou-se um grande sucesso no mundo artístico de Montparnasse e entre a intelectualidade francesa”.
Uma platéia entusiasmada e seletíssima começou a freqüentar as funções: Le Corbusier, Fernand Léger, Joan Miró, Piet Mondrian, Theo van Doesburg. Jean Cocteau, Jean Arp e muitos mais. A bailarina e cantora negra norte-americana Josephine Baker, grande sensação em Paris, serviu de modelo para vários trabalhos que exploravam a flexibilidade dos movimentos da dança.
Palmada no bebê
Visitando Piet Mondian em seu estúdio da Rue du Départ 26, Calder notou que as paredes do pintor holandês estavam tomadas por retângulos coloridos. Seu espírito criativo começou a imaginar como seria incrível se eles pudessem oscilar em várias direções, em diversas amplitudes. Na sua autobiografia, Calder conta que o choque da sacação de acrescentar movimento às pinturas ou esculturas foi tamanho que sentiu “o que um bebê sente quando recebe uma palmada ao nascer, chora e começa o funcionamento dos pulmões”.
Assim surgiram esculturas cinéticas com elementos abstratos, folhas de metal pintadas de preto ou coloridas, que se moviam ao sabor do vento, algumas motorizadas outras movidas à mão (“Duas esferas sem esfera” e “Pantógrafo”, de 1931).
Marcel Duchamps, ao visitar Calder no estúdio da Rue de la Colonie, ficou fascinado pelas esculturas que se movimentavam e sugeriu o nome “móbile”, “um trocadilho em francês”, disse ele. Em 1931, participou da coletiva com o grupo Abstraction-Création e casou-se com Louisa James, grande companheira e compreensiva admiradora, que manteve duas casas: uma na França e outra nos Estados Unidos, para que o marido produzisse em paz. Tiveram duas filhas.
Foi em 1932 que a exposição “Calder e seus móbiles”, com 31 obras, abriu a galeria Vignon, em Paris. Com o aumento do tamanho dos trabalhos, começaram a surgir os “stabiles” – esculturas em negro e nas cores primárias (azul, vermelho, amarelo) ancoradas ao solo, com motivos animais e vegetais que eram fixadas com as técnicas que aprendeu no curso de Engenharia.
Reunidos em assemblages, os stabiles começam a se espalhar pelo mundo: decoram a sede da UNESCO, em Paris, e o estádio olímpico do México. Em 1952, recebeu o Grand Prix de escultura na Bienal de Veneza. A partir de 1974, com criatividade ingênua, quase infantil, mostrou ao mundo os “crags”: que juntavam aos móbiles os ângulos dos stabiles e dos critters (stabiles negros que parecem formas humanas). Passou a trabalhar com papel, litografias, gravuras super coloridas.
Em 1953, comprou uma casa de pedra do século 17, perto de Tours, na França, para servir de imenso estúdio. Hoje, esta mansão se transformou em um albergue para turistas estudantes de artes plásticas.
Calêndula ao sabor da brisa
A curadora da exposição que agora se encontra no do Paço Imperial, Roberta Saraiva Coutinho, conta que “já na sua primeira viagem ao País, em 1948, incentivado pelo arquiteto Henrique Mindlin e pelo crítico de arte Mário Pedrosa, que conhecera nos EUA, Calder mostrou-se um grande passista. Além de fã do candomblé. Levado pelos amigos brasileiros a um terreiro, ele tirou uma mulata para dançar e foi flagrado por um paparazzo. A foto foi estampada na revista de fofocas Fon-Fon, causando alvoroço na época”.
Essas e outras histórias estão no livro “Calder no Brasil“, organizado pela mesma Roberta Saraiva, em parceria da Pinacoteca do Estado de São Paulo com a Editora CosacNaif, 288 páginas, e foi lançado na inauguração da mostra em São Paulo (R$ 85).
Calder expôs em 1954 no recém-inaugurado edifício do Ministério da Educação, no Rio e participou de Bienais, em São Paulo. Elizabeth Bishop, em carta a Howard Moss (“Uma Arte”, Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto - página 404) relata:
“(...) Na véspera (7/7/1959) estiveram aqui Calder e a mulher e creio que esta visita foi melhor de todas. Eles já passaram uns tempos no Brasil antes e adoram sambar. Calder ficou sambando no terraço, com uma camisa de um laranja vivo, parecia uma calêndula ao sabor da brisa”.
O grande amigo do Brasil morreu em Nova York, em 11 de novembro de 1976, de crise cardíaca.
*
Visite o website da Calder Foundation: http://www.calder.org/.