Hoje, segunda-feira, 8 de janeiro de 2007, é aniversário de David Bowie. O cantor e compositor inglês completa 60 anos. E daí?, perguntariam alguns. Não sei, mas sem Bowie não existiria uma série de cantores e bandas pop que marcaram época nos últimos 35 anos. Rita Lee, Robbie Williams, Suede, Pulp, Placebo, Beck, Rufus Wainwright, Duran Duran, Erasure, Boy George e Culture Club, Eurythmics, Marc Almond, Nina Hagen, Blondie, Pet Shop Boys, Radiohead, Morrissey, Axel Rose e até Madonna - todos são herdeiros, de uma maneira ou de outra, da revolução que Bowie promoveu no início dos anos 70.
O chamado glam rock foi uma avalanche que varreu a Inglaterra entre os anos de 1970 e 1974. Na verdade o grande criador do movimento foi o cantor inglês Marc Bolan, líder da banda T.Rex. Mas o então ainda desconhecido David Bowie, que em 69 tinha lançado o disco "Space Oddity" - cuja canção homônima, sobre o existencialismo na era espacial, tornou-se um poderoso clássico, resgatado recentemente no filme "C.R.A.Z.Y." - foi quem teve a audácia de transformar o glam rock em marketing.
Purpurina, glitter, batom, maquiagem, saltos plataforma, lamê, plumas e paetês multi-coloridos. Um visual andrógino e agressivo, que destoava do som de rock com pitadas sinfônicas praticado por bandas como Roxy Music e o próprio T.Rex. Mas a grande estrela do movimento foi mesmo David Bowie. Afinal, a música não era o limite - havia a atitude.
Casado com Angie Bowie, David mesmo assim declarava publicamente - a primeira vez foi na polêmica e famosa entrevista ao semanário Melody Maker, em 72 - sua suposta bissexualidade. Foi o que bastou para centenas de jovens ingleses aderirem à nova moda: todo mundo era gay, bi, tri. O poder do glam rock foi tamanho que se espalhou pela Europa, influenciando bandas e artistas dos mais diversos.
Bowie brilhou então com sua galeria de tipos e figurinos ambíguos. Da capa do disco "The Man Who Sold the World" (71), onde ele aparece trajando um longo vestido vitoriano, ao estouro de seu personagem mais famoso: Ziggy Stardust. Coberto de tecido dourado e pintura na cara, os cabelos vermelhos cortados no estilo que futuramente seria adotado pelos sertanejos brasileiros como Chitãozinho e Xororó, Bowie lançou o disco "The Rise and Fall of Ziggy Stardust & the Spiders from Mars" (72), considerado um dos álbuns mais importantes da história do rock.
Mas seu faro de marketeiro pressentiu que era hora de se reinventar - um talento para mudanças que foi herdado diretamente por Madonna. Bowie decidiu matar Ziggy Stardust - ou a si próprio - em pleno palco: ao término da turnê, em Londres. A farsa chegou a enganar muita gente. E toda essa novela foi retratada em 1998 no filme "Velvet Goldmine", de Todd Haynes, com Jonathan Rhys-Meyers encarnando uma espécie de Bowie - o cantor proibiu o uso de seu nome e de músicas suas na trilha do filme.
Encerrava-se aí a febre do glam rock. Em 75, Bowie abandonou a cena, deixando para trás romances, relacionamentos e casos famosos e escandalosos com figuras como Lou Reed, Iggy Pop e até Mick Jagger - com quem, reza a lenda, foi pego na cama pela esposa Angie, por sua vez também amante de Mick, que eternizou a musa geral na canção dos Stones "Angie" (73). Bowie estrelou o filme "O Homem que Caiu na Terra" (76), no papel de um bizarro extra-terrestre bissexual, e isolou-se na Alemanha, para viver sua chamada fase Berlim. Lá, mergulhado nas drogas, gerou os discos "Low" (77), "Heroes" (77) e "Station to Station" (76), além de fazer uma ponta no filme "Christiane F" (81).
Nos anos 80, o camaleão se transformou de novo. Desta vez, em um ídolo pop romântico e dançante, mistura de Elvis Presley com Frank Sinatra, se é que isso era possível. Foi a fase americana do cantor, quando vendeu mais discos do que nunca, a bordo de hits como "Let's Dance", "Modern Love", "China Girl", "Absolute Begginners" e "This is Not America". Seu visual e sua pose de dândi, no entanto, continuaram inspirando bandas do new romantic como Duran Duran e Spandau Ballet, que flertavam com um certo aspecto gay.
E nos filmes, como ator, Bowie permanecia interpretando personagens bizarros e sempre sexualmente ambíguos. Em "Furyo - Em Nome da Honra" (83), viveu o inglês prisioneiro de guerra que tem um caso platônico com seu algoz oriental. Em "Labirinto, a Magia do Tempo" (85), foi o chefe dos duendes, meio maricona. E "Fome de Viver" (83) trouxe o ídolo como o vampiro bissexual à beira da morte, casado com a diva Catherine Deneuve.
Na vida real, porém, Bowie se afastou cada vez mais do passado gay ou bi. Nos 90, casou-se com a modelo Iman - com quem está até hoje - e virou um senhor sério. Ou uma "velha senhora", como alguns fãs o chamam hoje, com certa ironia.
Musicalmente, Bowie buscou se modernizar, compondo músicas que misturam rock com eletrônica, e antenando-se com as novidades digitais e tecnológicas. Em 97, lançou "Telling Lies", o primeiro single da história disponível apenas na internet. Ele tem um site que está no ar há 11 anos, e um provedor de acesso - BowieNet - que funciona há 8. E em 2003, lançou seu álbum "Reality" em show transmitido ao vivo para salas de cinema espalhadas por locais como São Paulo e Nova York. Para comemorar a chegada dos 60, o cantor deve lançar um disco inédito, além de reedições de 17 CDs fiéis aos álbuns originais em vinil.
Por tudo isso, embora hoje David Bowie não exerça mais grande impacto no mundo pop, fica a obra e a marca do artista que primeiro mereceu receber o apelido de "camaleão". E os versos imortalizados por ele mesmo em "Changes":
Turn and face the strange
Ch-ch-changes
Just gonna have to be a different man
Time may change me
But I can't trace time...