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  Cultura GLS: BIOGRAFIAS
O Papa do Pop
15/10/2007
20 anos sem Andy Warhol em carne e osso - mas presente em obra e arte


Gênio compreendido


Auto-retrato


Frames de Jackie O.


Marilyn por Andy: a obra mais conhecida do genial Warhol

2007 marca o vigésimo aniversário da morte de Andy Warhol, considerado avatar da Pop Art, artista plástico, diretor de cinema, figura controvertida em vida e centro de inúmeras retrospectivas, livros e documentários, nesses anos de glória póstuma.

Warhol foi um dos primeiros grandes artistas americanos a se declarar abertamente gay. A imagem pouco convencional, projetada tanto na obra como na pessoa pública, bateu de frente com a postura machista que caracterizou a arte da década de 50.

Inconformado com a esnobação de seus ídolos Jasper Johns e Robert Rauschenberg - também ícones da Pop Art - perguntou uma vez ao  diretor de cinema Emil de Antonio porque era evitado pela dupla. Recebeu uma resposta cheia de franqueza rude: "Andy, se quer mesmo saber, eu te conto: você é muito afrescalhado e isso incomoda os dois". Desafiador, Warhol respondeu enfatizando cada vez mais seu lado feminino.

Dança dos movimentos incontroláveis
Andrew Warhola Jr. nasceu no dia 6 de agosto de 1928 em Pittsburgh, Pennsylvania, filho caçula de Andrej (Andrew) Warhola e Julia Warhola, oriundos da atual República Tcheca. O sobrenome original, Varchola, foi modificado depois da imigração.

Foi batizado na Igreja Católica Bizantina e teve dois irmãos: John e Paul. Estudou no Liceu de Schenley e no Museu Carnegie (hoje Carnegie Melon University). Desde cedo mostrou talento para desenho e pintura. A família juntou suas economias para enviá-lo ao Instituto de Tecnologia Carnegie. Os resultados com o curso renderam-lhe um prêmio, a exposição dos trabalhos e uma menção honrosa em desenho. No entanto,
o jovem artista sempre teve grande dificuldade para se expressar. Seu inglês era deficiente, já que a mãe, com quem convivia direto, só falava tcheco.

Nesta altura da vida, Andrew Jr. foi acometido da "Dança de São Guido", ou Coréia, uma afecção neurológica, seqüela de febre reumática, na qual o paciente tem movimentos espasmódicos incontroláveis, trejeitos faciais (caretas) e cuja recuperação demora meses.

Uma outra seqüela, a despigmentação de partes da pele, também se fez presente, potencializando a  já natural timidez. Andrew aproveitou o tempo que passou deitado  para  desenhar, ouvir radio e colar fotos de artistas de cinema em volta da cama.
Mais tarde, reconheceria que esta pausa, durante a convalescença, teria sido muito importante para aprimorar sua personalidade e formar "o esqueleto" do que viria a ser sua obra.

New York, New York
A mudança para Nova York - junho de 1949 - à procura de emprego foi o começo de uma carreira bem sucedida como ilustrador. Foi contratado pela revista Glamour
para desenhar sapatos e, em seguida, ilustrou anúncios (teria sido um diretor de arte, no organograma das agência de publicidade) para revistas como a Vogue e a Harper's Bazaar, capas de livros e cartões de agradecimento, já com o novo nome mais
sofisticado:Andy Warhol. Tornou-se amigo de Jasper Johns e Robert Rauschenberg, os mesmos que, mais tarde, ficariam constrangidos com seu jeito gay. Influenciado por
Marcel Duchamp, focou o trabalho na reciclagem de imagens, o que subverteu a cultura de massa contemporânea.

Os trabalhos desta fase estão expostos na Bodley Gallery. Tudo girava em torno da  cultura popular (pop) americana. A Pop Art era uma forma experimental de expressão  para outros pioneiros como Roy Lichtenstein, que também se tornou sinônimo do
movimento. Warhol, chamado de Papa do Pop, fez com que objetos da vida diária virassem opções na paleta do pintor. Em 1963, começou a filmar. Realizou filmes
experimentais, propositadamente chatos: Empire (Império), que focalizava o Empire State Building do nascer ao por do sol e o chatérrimo Sleep (Dormir) - que mostrava durante oito horas seguidas um homem dormindo.

The Factory
Como diretor de arte, Warhol cercou-se de assistentes talentosos como Gerard Malanga, que o ajudou na feitura de silkscreens, esculturas, filmes e outros trabalhos  na "The Factory", agência e estúdio na Rua 47, mais tarde transferida para a Broadway. Vivia paparicado por uma espécie de séqüito, que participou dos experimentos em cinema na "Factory Films".

Figuras importantes do underground americano estrelaram os filmes de Warhrol, já tornado uma celebridade, aparecendo em jornais e revistas de fofocas e cercado de escritores, músicos e artistas plásticos.

São deste período os quadros encomendados da Sopa Campbell e da Coca Cola e representações de famosos como Marilyn Monroe, Mao Tse-Tung, Troy Donahue,
Jacqueline Kennedy, Elizabeth Taylor, Che Guevara, Elvis Presley, notas de dólar, imagens reproduzidas das seções policiais, cães da polícia atacando militantes dos direitos civis, fotos de crimes. Produzia em série, massificava as personalidades.
Declarou que desejava ser uma máquina de fazer arte. E foi. 

Sobrevivente
Em junho de 1968, Valerie Solanas, uma freqüentadora da Factory e feminista revoltada, entrou no estúdio de Warhol e disparou 3 tiros contra ele. O pintor, que chegou em estado muito grave ao hospital e ficou mais de dois meses internado,  jamais se recuperou  dos ferimentos e sangrava ao menor esforço.

Deu mais uma guinada na vida -  apoiou artistas em início de carreira, escreveu sua biografia "The Philosophy of Andy Warhol (From A to B and Back Again), apresentou programas na televisão, dedicou-se ao abstracionismo e ao expressionismo, criando a série de pinturas - "Oxidation" (Oxidação).

Com Gerard Malanga, criou a revista  de fofocas "Interview", publicada até hoje. O estilo Andy Warhol é instantaneamente reconhecido e, ultrapassando os famosos 15 minutos de fama que previa para cada cidadão no futuro, pode ser encontrado nos inúmeros sites na internet, que ensinam como reproduzi-lo, usando o Adobe Photoshop.

O artista pintava grandes telas com fundos, lábios, cabelos e sobrancelhas bem acentuados e transferia, por serigrafia, as imagens para  as telas.

Velvet Underground
Warhol foi o produtor do grupo de rock Velvet Underground, formado então por Sterling Morrison, Maureen Tucker, John Cale, Lou Reed e a cantora alemã Nico.

Patrocinou a compra dos instrumentos, encontrou local para ensaios e "contaminou" a banda com sua aura e magnetismo. Produziram juntos o espetáculo "Exploding Plastic Inevitable", com os filmes do artista sendo exibidos ao som da música do grupo.
Os Velvets entraram para a História  em 17 de novembro de 1989 quando o movimento que derrubou o comunismo foi batizado como "Velvet Revolution", na atual
República Tcheca.

Funeral Performático
Andy Warhol era católico bizantino praticante e atendia, como voluntário, moradores de rua de Nova York. Ia à missa quase todos os dias, segundo o pároco da Saint Vincent's, igreja que freqüentava. Morreu dormindo, aos 58 anos, em conseqüência de um ataque cardíaco, em 22 de fevereiro de 1987, após uma cirurgia para extirpar a vesícula.

No caixão de bronze com detalhes dourados, Warhol vestia um terno de cashmere preto, gravata elegante, peruca platinum blonde e óculos de sol. As mãos seguravam um livro de preces e uma rosa  vermelha. O enterro foi no St. John the Baptist Byzantine Catholic Cemetery, nos arredores de Pittsburgh. Antes do caixão baixar à  sepultura, Paige Powell jogou um exemplar e uma T-shirt da Interview e um frasco  do perfume "Beautiful", de Estee Lauder.

Na madrugada leblonense, ao terminar este texto, não mais que de repente, acontece um insight; seria a arte de Andy Warhol uma espécie de catarse da criança
interior solitária acometida da doença de São Guido e despigmentação de alguns locais do corpo?

Convido você a  visitar o site do Museu Andy Warhol

    





LEIA OS COMENTÁRIOS

16/10/2007 13:33:34 - Luiz (ljhecate@hotmail.com)
Nossa, Thereza! parebéns pelo texto tão bem escrito. Divulgar o nome do nosso querido Wahrol é, realmente, incrível. Tudo o que leio em seu texto enxergo bem nos documentários que já assisti sobre ele, e, também, sobre o querido Jean Basquiat, outro excelente artista, mas menos conhecido que seu padrinho Andy. Gostaria (e muito) de ler aqui no Mix mais matérias tão boas quanto essa, pois isso é cidadania de verdade. Temos, não só no exterior, mas também aqui, no Brasil, excelentes nomes para matérias. Thereza, confiarei no seu esplendoroso texto e seus insights para caprichar na próxima reportagem. Novamente, parabéns.
16/10/2007 11:30:19 - Daniela e Malu (coeurdebeurre@gmail.com)
Thereza,então você é leblonense como nós! Bom saber.que temos vizinhança tão engajada. Agente queria sugerir uma matéria sobre (sobre,não, CONTTRA) homofobia. Com certeza Vcê viu os estandartes sobre o assunto chamando para a Parada espalhados no bairro e na cidade.Não vamos deixar o assunto morrer.Pedimos um texto emocionado e engjado sobre este absurdo com que temos que lutar todos os dias. Ecomo só você sabe fazer. E parabéns pelo Papa do Pop, que está tdb-tudo de bom Beijos de Dani e Malu
16/10/2007 10:07:02 - Jonas (jo_hollywood90120@hotmail.com)
Eu admiro profundamente o trabalho do Andy... tudo mto atual, pq as referências de pop art estão voltando com tudo agora... no último show da kylie minogue, ela usa mta coisa da pop art. Inclusive, no 2º ato do show, ela usa uma peruca bem no estilo andy wahrol... Parabéns Thereza, a matéria está incrível!


                                



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