À vida pública intensa do político e diplomata sueco Dag Hammarskjöld (pronuncia-se Dóg Ramarrôeld), Secretário Geral da ONU durante oito anos, se opõe uma história pessoal quase desconhecida.
Nunca, o nome de Hammarskjöld foi ligado a qualquer mulher. Ele explicava essa opção pelo celibato como resposta ao fato da mãe “ter sofrido terrível solidão por conta da devoção do pai ao serviço diplomático", e que “não desejava submeter outra pessoa a tal sofrimento”.
Ao procurar dados sobre a vida do nosso biografado da quinzena, cuja sexualidade sempre foi envolta em mistério - embora freqüente todas as listas de gays célebres - me deparei com um detalhe muito especial. Como a mãe queria muito uma menina, ele foi vestido com laços, vestidinhos e botinas - moda feminina na época (primeira década do século passado) - até o final da infância, como se possuísse uma segunda pele, uma segunda personalidade. Já tinha ouvido relatos semelhantes e de gente que se tornou próxima, mas nunca imaginei que este detalhe crucial na formação da psiquê tivesse acontecido com um homem que esteve no topo da carreira diplomática durante oito anos, até morrer em acidente aéreo, em 1961.
Talento, tato e erudiçãoKnut Hjalmar Carl Hammarskjöld, o Dag, nasceu em Jönköping, região central da Suécia, em 29 de julho de 1905 (é um aniversariante ilustre do mês). Quarto filho homem de Hjalmar Hammarkjöld, Governador de Província e Primeiro Ministro sueco durante a 1ª Guerra Mundial e de sua mulher Agnes. O casal passava dos 40 anos quando a criança nasceu.
A família transferiu-se para Uppsala, onde está a mais antiga e uma das mais prestigiadas universidades da Europa. Ali, Dag, após os estudos básicos, especializou-se na poesia de Emily Dickinson e na obra de Herman Hesse. Na mesma Universidade, formou-se em Economia (1928) e Direito (1930). Fez o doutorado em Economia, em 1934. Foi professor do curso de Economia na Universidade de Estocolmo. Seguindo a tradição familiar, ocupou vários postos no governo sueco. Foi secretário de governo com a função específica de cuidar do desemprego e acumulou os cargos de sub-secretário de Fazenda e presidente do Banco Nacional Sueco. A partir de 1946, começou a carreira diplomática e serviu no Ministério das Relações Exteriores. Representou a Suécia nas negociações que resultaram no Plano Marshall, que redesenhou o continente europeu no pós-guerra, projeto do General George Catlett Marshall, secretário de estado do governo Truman. Os Estados Unidos resolveram abandonar a parceria com a URSS e, investindo na Europa Ocidental, barraram a expansão comunista para firmar sua hegemonia e monitorar a recuperação econômica dos países envolvidos no conflito.
Depois de servir vários anos como vice presidente do Comitê Executivo da OEEC (Organização Européia de Cooperação Econômica), Dag tornou-se chefe da delegação sueca na UNISCAN, uma organização que estabelecia cooperação econômica entre os Estados Unidos e os países escandinavos. Foi membro do Instituto Sueco de Pesquisa Econômica (1937-1948). Participou da sexta delegação sueca na Assembléia Geral da ONU, em Paris (1951-1952). Funcionário do gabinete social-democrata, nunca se filiou a qualquer partido político pois sempre se intitulou um político e diplomata independente. Em 1949, Hammarskjöld foi indicado como delegado sueco nas Nações Unidas, sendo eleito Secretário Geral em 1953, sucedendo Trygve Lie. Foi reeleito, em 1957, para mais um período de cinco anos.
A cientista política Alynna Lyon, da Universidade de New Hampshire, explica a liturgia do cargo: “Aquele que é secretário-geral da ONU precisa ser encarado, em qualquer situação, como um mediador honesto e confiável. E tem de tentar equilibrar-se entre os desejos dos cinco donos de assento permanente e, ao mesmo tempo, representar todos os países do mundo. E ainda existe a expectativa de que o secretário-geral seja um advogado das pessoas e não só dos governos". Dag era Doutor Honoris Causa nas Universidades de Upsalla (Suécia), Oxford, Harvard, Princeton, Columbia, Pennsylvania, Amherst, John Hopkins, na Universidade da Califórnia, na de Ohio e, no Canadá, nas Universidades de Carleton e McGill. Sua estátua se encontra na Praça Dag Hammarskjöld, em frente ao prédio da ONU, em Nova York.
RumoresImediatamente após ser escolhido secretário geral da ONU, começaram as insinuações e rumores sobre sua homossexualidade. Levando em conta que nenhum outro homem solteiro chegou a tal proeminência naquele momento histórico, a desculpa sobre a mãe que sofreu pela ausência do pai tabém diplomata soava meio estranha porque constituir família costuma ser parte integrante da vida de um diplomata. Profundamente religioso, escreveu o livro de reflexões “Markings” (Editoras, Faber and Faber, 1964; New York/Knopf, Londres 1964) já na sexta edição, co-traduzida do sueco e prefaciada por W.H.Auden) Isso mesmo: Auden, gente! O livro revela a personalidade introspectiva do homem que sempre foi um perfeccionista, antes de exigir o perfeccionismo alheio.
Sobre a aparente solidão afetiva, as especulações parecem ser de uma sublimação do desejo e existe, no livro, uma leve dica sobre sentimentos. Hammarskjöld acha que “foi repelido por ser diferente, talvez superior" e numa outra parte, descreve “alguém que é superior a ele, mas admira e abomina esta pessoa imaginada”. W.H.Audem, o tradutor, estava convencido da homossexuaiidade de Dag e achava que foi o fato de ter revelado certos detalhes indiscretos em um uma turnê de conferências na Suécia que lhe vetou, para sempre, o Nobel de Literatura, tantas vezes anunciado.
Legado
Organizou a primeira e segunda conferências internacionais da ONU em Genebra (1955 e 1958) regulamentando o uso pacífico da energia nuclear, disponibilizando ciência e tecnologia para países carentes. Ficou bem claro seu empenho em contornar conflitos globais dialogando com as partes envolvidas, em benefício da humanidade e usando a voz da razão Durante a crise do Canal de Suez, foi marcante sua serenidade no momento H em que as colônias francesas africanas começaram a clamar por liberdade e independência. Outro incidente famoso foi o da ira de Nikita Khrushchev contra Dag num incidente envolvendo Patrice Lumumba, em que o líder soviético bateu com o sapato na sua bancada na ONU, irritado porque seu pedido de ajuda ao ditador não foi aceito.
Dag enfrentava a ferrenha oposição dos países comunistas quando, durante uma missão da ONU no Congo, morreu na madrugada de 17 para de 18 de setembro de 1961, num acidente aéreo. Voltava de visita de inspeção a uma área de conflito, onde as Forças de Paz da ONU tentavam solucionar a guerra civil lá instalada. Candidato ao Prêmio Nobel da Paz de 1961, recebeu o título postumamente, no final do mesmo ano.
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