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Bruce LaBruce, pai do Queercore |
14/11/2008 |
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Bruce LaBruce inverteu a mão de direção das correntes e fundou o movimento "queercore" enfrentando com provocação o que chama de status "fora dos esquadros" dos homossexuais. Escritor, editor e fotógrafo, ele é o diretor de cinema para quem se pode usar a expressão "corte epistemológico do paradigma". É um cineasta punk, gay e parece não ter limites.
Seus filmes mostram mundos habitados por seres marginalizados. Artistas pornôs, prostitutas, michês, skinheads, drag queens, sadistas, masoquistas e outras sexualidades atípicas. LaBruce acredita que esses personagens estão em "sério perigo" e ameaçados de extinção no "conformista" século 21.
Queercore, Hardcore, Punk, Emo
O termo "Queercore" é uma combinação de queer - algo "estranho" ou "incomum", que a parte mais politizada do movimento LGBT americano resolveu resgatar - com hardcore, facção punk, que se expressou na cena musical a partir dos anos 80.
O estilo hardcore ocupa um lugar de fácil identificação na cultura contemporânea: as letras falam de preconceito, liberdade, diversidade sexual e anarquismo.
O termo "punk", existente nos textos do crítico de rock Lester Bangs e, mais tarde, nos versos da canção de Frank Zappa "Flower Punk", do álbum de 1967 "We’re Only in It for the Money", acabou por ser empregado para gays que se encontram em prisões. Triste final, pois o movimento gay sempre se caracterizou pela predileção por músicas dançantes, culto ao corpo e a eterna busca pela juventude e beleza.
O "queercore" já foi definido como o emocore ao contrário: rebeldia, música engajada e visual agressivo.
J.W.Kielwagen explica - na edição de 11 de junho de 2008 da "Revista da Cultura": "O queercore surgiu fora dos sistemas comerciais, de modo que os fanzines – publicações não comerciais, produzidas de forma independente - foram cruciais para o seu desenvolvimento. Centenas de zines impressos ou eletrônicos formaram uma rede intercontinental, permitindo que o movimento se espalhasse de forma subterrânea e que membros de comunidades menores, afastados dos grandes centros urbanos, participassem". Foi onde o termo queercore apareceu pela primeira vez. A cultura gay tradicional representava uma ortodoxia a ser contestada e superada, de forma semelhante a como os punks vêem a sociedade em geral.
Os JD
Bruce LaBruce, aliás, Justin Stewart, nasceu em 3 de Janeiro de 1964, em Southampton, Ontario, Canadá, e acha que seu gosto por cinema deve ter começado quando - plantado na frente da televisão - captou os fundamentos da cultura norte-americana.
O seu trabalho mais conhecido em artes gráficas foi o JD, editado em parceria com G.B. Jones, em que mandava uma metralhadora giratória de contestação geral: da estética da sociedade capitalista submissa a dinheiro ao desempenho dos papéis sexuais tradicionais.
Quando começou a filmar, usava seus amigos como atores e ele mesmo participou de algumas produções.
Seus filmes são considerados absurdamente chocantes. E é esse "normalizador das coisas extremas", como se autodefine, que estará em São Paulo, no dia 17 de novembro, para participar (mais uma vez) do 16º Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual (sua primeira visita data de 1997, no 5º Festival).
Produção
Entre 1985 e 1991, ao editar o fanzine JDs – Juvenile Delinquents – lançou as bases para uma espécie de contra-cultura gay.
"Skin Off My ASS" o primeiro filme - em 8 mm, depois passado para 16mm (1991) - virou cult. Tem um roteiro muito criativo, apesar da perplexidade que causou: um cabeleireiro cheio de afetação (ele mesmo) se relaciona com um skinhead mudo, desempenhado por Klaus Von Bucker, seu namorado na vida real.
A "Skin Off My Ass" seguiu-se "Super 8 ½" (de 1994) sobre um astro/diretor pornô (ele mesmo?) cuja auto estima como cineasta não anda muito firme. Este trabalho também virou cult em festivais como Sundance, Toronto, Vancouver, San Francisco, Londres, Berlim, Dublin e Tóquio.
O filme seguinte, "Hustler White" - em colaboração com o fotógrafo Rick Castro - foi lançado em 1996: co-estrelado por Tony Ward, a drag queen Vaginal Davis, e o próprio LaBruce. Lançado em Sundance, virou cult de festivais. Em Cannes, ganhou o grande prêmio do International Trash Film Festival.
Em 1999, foi a vez de "Skin Flick" (Tirando o Couro ), em parceria com a Cazzo Films (Berlim) com duas versões, uma "softcore", de arte, e outra, "hardcore", 100% pornográfica.
Tom International, LaBruce - ele mesmo - e a modelo Nikki Uberti se transformaram em astros pornô. LaBruce pode ser considerado como o produto final das influências de Andy Warhol, Fassbinder, John Waters, Kenneth Anger, Pasollini e Gus van Sant.
É autor de dois livros de edições esgotadas: "Ride, Queer, Ride!", com os roteiros de "Super 8 1/2" e "Hustler White", contendo entrevistas e fotos do cineasta e a autobiografia "The Reluctant Pornographer". Foi colunista da revista de música canadense "Exclaim!", do "Toronto Life", do "National Post" e do "UK Guardian".
Seu último filme, "Otto, or, Up With Dead People", foi exibido no Sundance Film Festival de 2008.
Bruce é graduado em Cinema pela York University de Toronto, Canadá.
Em abril de 2006, concedeu uma entrevista a Ferdinando Martins, aqui no Mix, onde conta sua trajetória artística, pensa a cena queercore e sugere que as novas gerações oprimidas respondam com repulsa às infra-estruturas de comando e controle, diferente da sua postura dos anos 80 quando lidava com os mesmos problemas de opressão. Para ler, clique AQUI.