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  Identidade: PSI
Banheiro Transex
26/9/2006
Criar um terceiro banheiro público para travestis, como querem algumas cidades, é apartheid


Cartaz do filme Transamerica
Em dezembro de 2005, a cidade de Nova Iguaçu aprovou uma lei obrigando diversos lugares públicos a criarem banheiros exclusivos para travestis. Em janeiro deste ano, foi a vez da escola de samba Viradouro inaugurar banheiros destinados ao uso específico de transexuais, travestis e drag queens. Há poucos dias, escutei no noticiário que outra pequena cidade, do interior do país, estaria debatendo projeto de lei semelhante. Parece que a moda vai pegar.

Será que a criação destes banheiros ajudaria de alguma forma no desenvolvimento da sociedade como um todo e, em particular, propiciaria algum tipo de conforto à minoria transex? E quais necessidades os tais banheiros exclusivos visariam a atender?

Creio que, para que possa se desenvolver, a sociedade deve pautar-se no processo contínuo de ampliação dos horizontes da população, abrindo mão da habitual tendência de evitar desafios e dedicando-se à realidade.

A criação de banheiros exclusivos, no entanto, nada mais é do que uma forma de separar as pessoas segundo critérios que enaltecem a deseducação. É, assim, uma idéia que não privilegia o crescimento de cada indivíduo. Retira da sociedade a oportunidade de lidar com o diverso, removendo da área de visibilidade aquilo que é incomodo por ser desafiador e por exigir que as pessoas saiam de suas zonas de conforto.

Ao invés de fomentar a informação e o debate, propaga o preconceito. É como se o fato de haver banheiros separados fizesse com que não mais houvesse uma determinada minoria. Esconde-se debaixo do tapete o outro ser humano com quem muitos não sabem lidar. O que se propõe aqui não seria exclusão social?

Ao promover os banheiros específicos, penso que seus idealizadores estariam fechando a sociedade para a possibilidade de ter seus horizontes ampliados. Buscam o atalho, o caminho mais fácil, para lidar com o medo da sexualidade ao invés de enfrentá-lo.

A história está repleta de outros exemplos de políticas em igual sentido e com as piores conseqüências possíveis. Por exemplo, a “solução” dos nazistas com relação a judeus, homossexuais e ciganos. Ou o regime de apartheid para com os negros. Afinal, qual a diferença efetiva entre o banheiro gay e os campos de concentração com dormitórios igualmente específicos para gays? Qual a real diferença entre o banheiro gay e as vias públicas também específicas para negros da África do Sul? E quais as semelhanças?

O tal banheiro gay nada mais é do que uma forma de discriminação, uma forma preguiçosa de não lidar com a diversidade social e uma ilusão infantil de que o diferente desaparecerá se for posto de lado. É um retrocesso ímpar, uma resposta assustada, precipitada e impensada à visibilidade conseguida às duras penas pela comunidade GLBT.

Não bastasse, esta iniciativa confunde identidade sexual e orientação sexual. Não reflete sobre o tema, não busca um aprofundamento na questão e mantém o desconhecimento, impondo uma “solução” única para lidar com pessoas (homossexuais e transgêneros, por exemplo) cujas necessidades e cujas essências são absolutamente distintas.

Penso que a força motriz destes projetos decorre do medo de permitir-se conhecer o diverso sem se sentir excessiva e desnecessariamente ameaçado por ele. Resulta, muito mais, do medo e da insegurança que muitos ainda têm de qualquer contato com quaisquer pessoas que levem a um questionamento de sua sexualidade.

O banheiro separado seria uma maneira para que pessoas com dificuldades, conscientes ou inconscientes, com relação à sua sexualidade possam evitar ter de lidar com tal conteúdo. No entanto, o grande paradoxo é que justamente estas pessoas é que mais se beneficiariam da ampliação de seus horizontes e de sair um pouco de suas zonas de conforto. Conhecer o diverso mostraria a elas que o diferente não é tão aterrorizador assim e não oferece os perigos fantasiados.

No mais, lembremos que nossa sociedade possui um conceito bastante fálico de sexualidade. Esculturas antigas trazem falos gigantescos como símbolo de poder. Desde pequenos, garotos competem entre si para saber quem tem o maior pênis. Penso que desde os primórdios as pessoas atribuem tamanho poder ao membrum virilis que agora têm até medo dele. Parecem dizer o tempo todo: “Será que o pênis alheio vai me atacar?”, ou “Como eu serei percebido em função do meu pênis e da minha reação ao pênis alheio?”. O banheiro exclusivo permite uma fuga fácil do pênis alheio todo poderoso ao invés de fazer uma chamada à reflexão.

E assim caminha a humanidade. Cria novas formas de apartheid porque as pessoas ainda têm medo de falar de pinto...

* Geraldo Luiz dos Santos Lima Filho é psicoterapeuta
  





LEIA OS COMENTÁRIOS

24/1/2007 15:14:40 - Marcio Lima (marziolima@uol.com.br)
Geraldo, Eu concordo contigo em partes. Acho que realmente não devemos nos esconder em banheiros próprios e evitar que vejam que não existe nada sobrenatural nas trans e afins, mas por outro lado penso que é uma questão de se sentir à vontade... Querendo ou não, há certas intimidades que devem ser preservadas como por exemplo uma travesti desprendendo seu pênis para fazer xixi. É uma visão que, acho, deve ficar guardada pra ela mesma, pois não sei se ELA se sentiria à vontade de fazer isso no banheiro masculino ou no feminino na frente de héterossexuais preconceituosos. Não podemos perder de vista que defendemos a aceitação da diferença e não a exposição de intimidades. Um banheiro próprio para travestis, trans, drags colabora para que elas não sejam descriminadas e desreipeitadas por policiais e frequentadores de clubes, bares, etc. Não se trata de Apartheid ou de exclusão. Espero ter sido claro.
27/9/2006 14:25:58 - Ricardo (aguieiras2002@yahoo.com.br)
Gostaria de ouvir o que as travestís tem a dizer, que é o mais importante. Por mim, TODOS os banheiros seriam unissex, mas como os gays iriam caçar com uma mulher do lado? Ou será que homens podem ter banheiro para o sexo masculino, mulheres para o sexo feminino, isso também não seria já uma separação?
26/9/2006 23:25:39 - moacir (l_moacir@yahoo.com.br)
Geraldo, muito bem claras tuas idéias. concordo contigo, estamos criando somente uma nova forma de apartheid...


                                



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