
Escolha em cena |
18/6/2008 |
![]() Daniel, Adriana (centro) e Maureen |
Suicídio. Pouco falado, porém muito presente. Uma saída para uma vida que já não tem mais razão de ser. Essa fina linha que separa a vida e a morte é o caminho por onde andam os atores Daniel Siwek e Adriana Seiffert na peça “Não Assim Tão Longe”, em cartaz no Espaço dos Satyros I até o dia 8 de julho. Costurando poemas e a vida de Sylvia Plath, a vida de Virginia Woolf e depoimentos reais de pessoas comuns que tomaram a decisão de tirar suas próprias vidas, o espetáculo toca no que há de mais obscuro na alma humana, revira as dores e dissabores da vida para garantir os argumentos para uma morte com hora e local marcados.
A narrativa é incomum, mistura diálogos, desabafos, discussões e divagações sobre as razões que uma pessoa tem para viver, ou não mais. O casal de atores ora conversa, ora filosofa para dentro de si e, assim, vai construindo um panorama que chega fundo na mente humana para tirar dela confissões que nem sempre a boca consegue articular em palavras. Essa instigante viagem psicológica faz o espectador pensar e pesar as razões que o levam a manter-se vivo. Não que a peça faça apologia ao suicídio, pelo contrário, todo o espetáculo é desenvolvido em tom neutro, sem fazer julgamentos sobre se a decisão de colocar um ponto final no livro da vida é certa ou não.
Esse fundo psicológico ganha embasamento com a formação de Daniel, que, além de ator, é graduado em Psicologia. Está feito um encontro perturbador entre o drama do teatro e a inquietude da psicologia que tenta desvendar os meandros da complexa e profunda mente humana. “Não Assim Tão Longe” faz um panorama de pessoas vítimas de si mesmas e de suas incapacidades, multiplicadas e fortificadas pela falta de força para lutar em um mundo onde, quando se pensa profundamente, não existe uma certeza absoluta, quem dera a de viver.
Pode, à primeira vista, parecer que o espetáculo é sombrio, pesado e triste. Nenhum dos três, ele é sério, com pitadas de humor (como no diálogo entre o casal de atores onde eles usam sinetas para interromper um ao outro, criando um divertido mal-estar que tira risos da platéia), mas, acima de tudo, perturbador. Uma perturbação no sentido de remexer a alma, de instigar a mente e dar combustível às decisões importantes de um viver, seja de quem for. Diante dos relatos reais, que tiveram nomes e idades mudados para preservar a identidade dos suicidas, o público sente como é difícil escolher morrer, optar por abrir mão de um futuro que pode ser promissor quando o mau momento atual se for.
Nesses vários depoimentos, observa-se a angústia de quem quer ir embora desse mundo, seja por desilusão amorosa, por não suportar mais as dores de um câncer ou por não ver mais uma saída, uma luz no fim de um túnel que parece ser comprido demais para ser enfrentado com tão poucas forças, como são as que os suicidas têm momentos antes de seu ajuste de contas consigo mesmos. Não se preocupe, você não vai sair do teatro querendo se matar, pelo contrário, como é sábio aquele que aprende observando os erros dos outros, “Não Assim Tão Longe” é uma ode à vida, à beleza de existir em um mundo onde a felicidade é uma escolha e só demanda de cada um a vontade de querer sorrir frente aos problemas.
A peça é produzida pela Insólita Cia. De Teatro e marca a estréia da atriz curitibana Maureen Miranda na direção (ela assina também os figurinos). “Foi importantíssimo poder ver o teatro de um outro ângulo, de uma outra dimensão, com emoções diferentes”, conta. Já Daniel Siwek é o responsável pela cenografia, sonoplastia e design gráfico do espetáculo, que tem ainda Nadja Naira na iluminação, Luis Bourscheidt no som e Débora Opolski na operação de luz.
“Não Assim Tão Longe”: segundas e terças-feiras, 21 horas
Espaço dos Satyros I: Praça Roosevelt, 214 – Consolação, São Paulo
Contato: (11) 3258-6345