Ocorreu na tarde desta quarta-feira, 14/03, em São Paulo um ato contra o veto do prefeito Gilberto Kassab à lei que criminaliza os crimes homofóbicos na cidade. Por volta das 14h30 os manifestantes se reuniram na entrada da Câmara Municipal de São Paulo para começar o protesto. Estavam presentes representantes de algumas ONGs e instituições: APOGLBT, Prisma, Associação Cazuza, GLBT Socialistas, CFL, IEN e Liga Brasileira das Lésbicas. Além de alguns poucos jovens que resolveram fazer parte do ato, como Leonardo, 23 anos, que já sofreu um ataque homofóbico quando estava com seu namorado na região da Rua Augusta. "Vim aqui porque acho que é o mínimo que podia fazer como cidadão, visto que hoje, infelizmente, eu faço parte das estatísticas dos crimes contra homossexuais da cidade", declarou o estudante.
Os organizadores do ato Julian Rodrigues, do Instituto Edson Neres, Regina Facchini, vice-presidente da associação da Parada Gay de São Paulo e Paulo Mariante, do Grupo Identidade de Campinas, fizeram discursos ainda na Câmara sobre a importância da manifestação e convidaram a todos para participarem da sessão dos vereadores às 15h. Os vereadores Carlos Gianazzi e Paulo Fioriono demonstraram total apoio ao movimento.
Um pouco antes das 15h, o grupo de cerca de 70 pessoas subiu em direção ao plenário, onde foram colocadas faixas e cartazes com dizeres como "Homofobia Mata", além de diversas bandeiras do arco-íris.
A vereadora Soninha foi uma das primeiras a se pronunciar, falando justamente sobre o veto do prefeito Gilberto Kassab à Lei 139/07. Ela declarou que as justificativas do prefeito para o veto eram incogruentes, e leu a carta enviada aos vereadores, com as devidas alterações do projeto de lei inicial para que dessa forma não houvessem mais justificativas para o veto. "Leis semelhantes já existem em diversas cidades e estados brasileiros, é engraçado que na cidade com a maior Parada Gay do mundo ela não exista", disse a vereadora do PT em seu discurso.
Enquanto os vereadores discursavam, o clima de tensão dominava o lugar destinado ao público, onde os manifestantes estavam. Inúmeros policiais militares circulavam pelo ambiente, proibindo os cidadãos de levantarem ou realizarem qualquer tipo de manifestação que não fosse aplauso.
O vereador Paulo Fiorino também usou sua palavra em prol do movimento. "A cidade de São Paulo pode e deve dar o exemplo para todo o Brasil, através da lei contra os crimes homofóbicos. Temos que conscientizar a sociedade e torná-la mais democrática", declarou, enquanto era ovacionado pelo público.
O clima de tensão se agravou quando o vereador Waldih Mutran do PPS tomou a palavra e começou a discursar sobre a fala do vereador Montoro do PSDB, que estava deixando a Câmara para ocupar um lugar na Assembléia, como deputado estadual. Os manifestantes do Ato contra Homofobia começaram a vaiá-lo. O vereador, de forma exaltada, respondeu: "Vocês podem vaiar mesmo, tem tempo para vir aqui a tarde, porque vocês só trabalham na noite, não é?!"
A platéia ficou chocada com a declaração e um dos presentes retrucou "Homofobia é crime, seu palhaço!", e o vereador continuou: "Palhaço é a sua mãe!". Nesse momento, o presidente da Câmara, Adilson Amadeu ordenou que um dos PMs retirasse o cidadão da sessão. E assim foi feito.
"Quero que vocês saibam que sai pela minha vontade, o que esse policial está fazendo é inconstituicional, afinal de contas eu tenho o direito de me expressar. A declaração desse vereador é extremamente homofóbica", afirmou Tiago Quintana, após deixar a sessão. Vários outros manifestantes se reuniram em volta de Tiago para dar apoio a ele, já que todos consideraram um absurdo a sua expulsão.
Passado o tumulto, os manifestantes voltaram para a sessão para ouvir a declaração do vereador Carlos Gianazzi, que subiu ao palanque junto com uma bandeira do arco-irís: "O veto do prefeito Kassab não tem fundamentação jurídica, nem política. Eu manifesto aqui meu total repúdio ao veto. Vocês sabem do meu trabalho aqui dentro, criando projetos como a Coordenadoria de Defesa dos Homossexuais, o Dia Municipal contra a Homofobia e o Dia do Orgulho Lésbico, que infelizmente foi vetado pelo vereador Carlos Apolinário". O vereador, que está deixando a Câmara para assumir o cargo de deputado estadual, disse no final de sua apresentação: "Para mim, é uma honra encerrar o meu mandato nessa luta com vocês", e foi muito aplaudido por todos os manifestantes.
Encerrada a sessão, Regina Facchini declarou: "O dia de hoje foi fundamental para o novo projeto de lei, assim como serão fundamentais todos os outros dias em que discutiremos isso aqui". Julian Rodrigues, do Istituto Edson Néris, concordou com Regina: "A prioridade agora é a aprovação do novo projeto, que foi reescrito para "quebrar" as justificativas do Kassab e pressionar os vereadores de cada comissão para votarem e aprovarem a lei".