
 Judy em boa fase |

 Judy pouco antes de morrer |

 Sylvia Rivera, a trans bomber, primeira a enfrentar a polícia em Stonewall |

 Bar Stonewall durante confronto de 69 que durou 4 dias e 4 noites |
Manhã de 27/6/1969
Os fãs chegaram cedo ao local do velório de Judy Garland, na Funerária Frank E. Campbell e esperaram durante horas em meio a policiais e barricadas, na Rua 81 entre Madison e a Quinta Avenida. Eram milhares de senhoras idosas, donas de casa, negros de todas as idades, adolescentes, religiosos, gays, travestis, lésbicas, hippies, mendigos, deficientes físicos e toda espécie de gente que se identificava com a tristeza, os problemas e a solidão da atriz e cantora. Dentro da capela cravos vermelhos e brancos, flores amarelas e coroas enviadas por Fred Astaire, Irving Berlin, James Stewart, Richard Avedon, Frank Sinatra, Cary Grant, Lauren Bacall, June Allyson, Katherine Hepburn, Mickey Rooney, Sammy Davis Jr. , tanta gente.
Perto do caixão, branco e dourado, um belo arranjo de flores nas cores e em formato de arco-íris lembrava o maior sucesso de Judy, "Over the Rainbow", tema do filme O Mágico de Oz. Cerca de 15 mil pessoas já haviam passado pelo caixão e, em torno das 22 horas, havia espera de quatro horas na fila para entrar na capela. "Não me lembro de um funeral tão concorrido nos últimos 20 anos", disse o sócio da Funerária.
Judy Garland foi vestida com o mesmo conjunto de chiffon cinza com que havia se casado três meses antes. Calçava sapatos e meias prateados. As mãos seguravam um livro de preces. O cerimonial ficou aos cuidados da filha da falecida, Liza Minelli, então uma jovem iniciante no show business e, como a mãe, atriz e cantora. Mick Deans, um gerente de discoteca, 5ª marido e viúvo, repetia, perplexo: "Não posso acreditar que isso aconteceu". O corpo veio de Londres, depois dos procedimentos legais. A "causa mortis" - overdose acidental de pílulas para dormir. Conta a lenda que no momento em que Judy morria, acontecia um tornado no Kansas.
Unanimidade
Que Judy Garland, ao morrer, virou ícone ninguém contesta. A figura frágil de voz potente, cheia de calor e vulnerabilidade tornou-se eterna.
"Over the Rainbow" é uma espécie de hino gay. A comoção pela morte da intérprete e os enfrentamentos de Stonewall são considerados raízes do movimento pelos direitos civis da comunidade LGBT. A revista "The Advocate" informa que nos dias tensos pré-Stonewall os gays, temerosos, trocavam uma senha como identificação - eram os "amigos de Dorothy", personagem de Judy Garland no filme "O Mágico de Oz" (1939).
E a revista "Time" consultou psicanalistas para tentar explicar a atração dos homossexuais pela cantora. De acordo com os profissionais, "a atração por Garland ficou mais forte pelo fato dela ter conseguido sobreviver a muitos problemas pessoais. Foi machucada pela vida e estava se tornando meio masculinizada. Ela tem o poder que os gays desejariam ter e transferem este desejo ao idolatra-la".
William Goldman, em artigo assinado na "Esquire Magazine", tenta entender a fascinação
que Judy inspirava utilizando a "teoria da figura trágica" e divagando sobre "a inimiga de todos os gays: a passagem do tempo". Garland/Dorothy ficou imortalizada na figura jovem, além do arco-iris". Como Dorothy, Judy estava na flor de seus 16 anos. Depois de dez filmes, finalmente chegou a fama. O estúdio MGM anexou uma cláusula contratual: ela não poderia engordar nem perder a voz - e haja pílula para dormir, para acordar, para emagrecer: haja anfetamina, ansiolítico e barbitúricos. E a mocinha teria que continuar mocinha mesmo décadas depois.Se deixasse de ser Dorothy, perderia o emprego.
Em 1948, apresenta, finalmente, visual adulto (aos vinte e seis anos ), em "The Pirate" já tendo alucinações causadas por drogas receitadas pelos doutores de Hollywood. A dependência de medicamentos, tendência para engordar, perda da fama, mudanças de humor e casamentos desastrados afastaram-na das telas. O ultimo trabalho foi "Nasce uma estrela" (1954), que rendeu uma indicação ao Oscar. Atuando como cantora, ganhou 5 Grammys e fixou-se na Inglaterra, onde mantinha um apartamento. O público inglês continuou fiel até o último momento.
Noite de 27/6/1969, no Bar Stonewall
Para o inspetor Seymour Pine e sua equipe de 8 detetives lotados na delegacia de costumes da cidade de Nova York, o plantão parecia ser o de uma sexta-feira como todas as outras. O sindicato do crime chantageava os bares da cidade, em especial os bares gays do Greenwich Village. No Stonewall Inn, os proprietários Tony (Fat Tony) Lauria e seu sócio, se recusavam a seguir a regra dos mafiosos e, por isso, o local era alvo de batidas policiais constantes. Após a visita dos tiras, dois funcionários, 3 drag-queens e uma lésbica acabaram presos. Os demais clientes foram intimados a deixar o local em fila indiana e a polícia destruiu, mais uma vez, o bar.
Só que aquela era a noite do funeral de Judy Garland, ícone da comunidade gay, e o local e arredores de Christopher Street e Sheridan Square estavam lotados. O público, agitado, reagiu à arbitrariedade gritando palavras de ordem e logo uma pequena multidão se formou. Depois de deixar os presos na delegacia, os detetives voltaram - desta vez com mais violência - ameaçando matar quem ousasse sair do Stonewall. A luta pelo direito de permanecer no espaço do bar durou a noite inteira e, ao amanhecer do dia 28, cerca de 4.000 homossexuais estavam travando uma verdadeira guerra com a polícia. Durante 4 dias e 4 noites a batalha continuou e, finalmente, a polícia se retirou. Um mês depois, aconteceu a primeira Parada pelo direito dos gays, que foi denominada "Marcha de Stonewall". Hoje, as celebrações são mundiais e a Parada de São Paulo continua sendo a maior do mundo.
Uma certa Sylvia Rivera
De acordo com as histórias e lendas contadas a partir dos enfrentamentos de Stonewall, Sylvia Rivera (1951-2002) drag queen de origem portorriquenha, foi quem iniciou o movimento gay de protesto contra a violência policial tornando-se um dos mais visíveis e atacados membros da comunidade LGBT. Depoimentos de sobreviventes que estavam naquela noite no bar, contam que Sylvia tomou, literalmente, para si, a carga de enfrentar a polícia, lançando os coquetéis molotov que afastaram os tiras por alguns instantes, iniciaram o confronto e fizeram Stonewall virar História. Até hoje, muitos visitantes continuam a ir ao reaberto Stonewall e se fazem fotografar diante da parede de pedras, sem saber exatamente a que se refere aquela primeira fase do clube.
Inaugurado em janeiro de 1966, ao fechar suas portas em dezembro de 1969, encerrou, também, a década e uma era. Qualquer referência de tempo a partir de 1970 - quando aconteceu a primeira marcha do orgulho gay - costuma ser citada como "pós Stonewall". O termo "stonewall" (parede de pedra) teve desdobramentos para marcar engajamento em debates e discussões. Em "politiquês" norte americano significa alguém anticorporativo, evasivo ou obstrutor. Em 2002, doente e com graves dificuldades de locomoção, Sylvia Rivera continuou seu trabalho de ativista e lobista em nome dos transgêneros e travestis. Conseguiu, inclusive, se reconciliar com o Inspetor Seymour Pine, o do Bar Stonewall. Poucas horas antes de morrer de câncer no fígado, em 19 de fevereiro de 2002, esteve reunida com líderes da comunidade LGBT sempre pressionando a opinião pública e a classe política para que mudem a forma de enxergar e aceitar a diversidade sexual.
:: Judy, para sempre Dorothy, canta "Over the Rainbown"