| Elas
também podem. E não devem nada para as grifes
mais famosas. Pelo menos não na criatividade e irreverência.
Prostitutas das mais variadas zonas de prostituição
do Rio de Janeiro, integrantes da ONG Davida, ganharam a
atenção da mídia nas últimas
semanas depois que começaram a divulgar sua grife
própria, carinhosamente intitulada Daspu, trocadilho
óbvio com a butique de luxo paulistana.
Na
última segunda-feira, as mulheres apresentaram a
coleção em plena praça Tiradentes,
conhecido ponto de prostituição do Rio. A
reação do público foi excelente, como
não poderia deixar de ser. Mas a aceitação
positiva da mídia e da sociedade não bastam:
a Daspu quer ser uma das grifes a desfilar na Fashion Rio,
importante evento de moda do País. É o que
conta a coordenadora da grife, a ex-prostituta Gabriela
Leite, que acredita que a Daspu “está ajudando
na luta contra o estigma”.
Em
entrevista ao Mix Brasil, Gabriela fala sobre o surgimento
da grife e conta como é o trabalho das 22 mulheres
que participam de sua criação. Na opinião
da coordenadora, o envolvimento das prostitutas com a grife
ajuda na auto-estima “porque uma moda que sempre foi
considerada no imaginário das pessoas, inclusive
de nós mesmas, como um estereótipo de puta,
é hoje uma moda que estamos colocando para cima”.
Para cima e, em breve, para as passarelas do mundo.
Leia
trechos da entrevista
Como
surgiu a grife?
Sempre
tivemos o sonho de ter um projeto que rendesse dinheiro
para desenvolver outros projetos da missão de Davida,
que é primordialmente a luta pelos direitos das prostitutas.
No aniversário do Davida, fizemos uma reunião
e pensamos o que seria um projeto rentável. Chegamos
à conclusão de que o melhor seria uma grife,
até porque roupas são sempre um barato! No
meio da reunião alguém falou Daspu e assim
a grife foi batizada.
Quantas
pessoas trabalham no projeto? Como ele é realizado?
Estamos
no início de nossas atividades. Na verdade nosso
plano era lançar a Daspu e a coleção
em março. De alguma forma chegou aos ouvidos do Elio
Gaspari [colunista do jornal O Globo] e, como bom jornalista,
ele colocou uma nota em sua coluna. Fomos pegas de "calça
curta" e assim iniciamos. Somos 22 prostitutas que,
com a ajuda da equipe do Davida, estamos desenvolvendo modelos
e confeccionando. Estamos também com três modelos
de camisetas: Daspu, Prazeres da Vida (nosso bloco de carnaval
na Praça Tiradentes) e Beijo da Rua (nosso jornal)
que podem ser vistas no site da Daspu (www.daspu.com.br).
Me
fale um pouco sobre o trabalho da ONG. Há quanto
tempo ela existe e quais trabalhos realiza?
A
Davida foi fundada em 1992 e nasceu da necessidade que sentimos
em sistematizar nossos trabalhos de ativismo. Davida tem
como missão promover a cidadania das prostitutas
e desenvolve os seguintes trabalhos: luta pela aprovação
do Projeto de Lei que regulamenta a profissão; prevenção
das DST/HIV/Aids no meio da prostituição em
29 cidades do Sudeste como também em 15 cidades do
Estado do Rio de Janeiro; edição e distribuição
do jornal Beijo da Rua para associações de
prostitutas e simpatizantes em todo o Brasil; assessoria
à formação de associações
de prostitutas no Brasil; organização e sistematização
da documentação e biblioteca sobre prostituição
para consultas; núcleo de pesquisa sobre prostituição,
que no momento está terminando um livro sobre história
oral de 8 prostitutas do Rio de Janeiro; intervenções
urbanas/culturais (Mulheres Seresteiras - prostitutas que
cantam na Praça Tiradentes, Cabaré Davida
- peça teatral de rua sobre prevenção
de DST/HIV/Aids e fundação e participação
no Bloco Prazeres Davida).
As
prostitutas, de forma em geral, sentem necessidade de trabalhar
com algo que as ajude a melhorar a auto-estima. Vocês
consideram que esse trabalho colabora nesse sentido? Que
outras formas a ONG encontrou para que as prostituas possam
fugir da marginalização?
Sem dúvida nenhuma a Daspu ajuda a melhorar
a auto-estima das prostitutas, porque uma moda que sempre
foi considerada no imaginário das pessoas, inclusive
de nós mesmas, como um estereótipo de puta,
é hoje uma moda que estamos colocando pra cima. Outras
formas de trabalho são as matérias do Beijo
da Rua, o Mulheres Seresteiras que acontece toda última
quinta-feira do mês onde as prostitutas cantam e encantam,
nossos encontros e seminários, oficinas e discussões
sobre a profissão. Tudo isso para que a prostituta
perceba que ela é sim uma cidadã desse país
e como tal deve ser respeitada.
Quem são as prostitutas que participam da
ONG e ajudaram a construir a grife?
São prostitutas das várias áreas de
prostituição do Rio de Janeiro (Praça
Tiradentes, Praça Mauá, Copacabana e boates).
Como é estruturada a grife? Existe um estilista responsável
pelo design?
A grife é um projeto do Davida para ajudar na sustentabilidade
de nossas ações como também para dar
maior visibilidade às prostitutas, lutando contra
o estigma e o preconceito.
Fora o trocadilho óbvio com o nome "Daslu",
em que mais vocês se inspiraram para criar a grife?
Nos inspiramos principalmente na moda das prostitutas. Percebemos
que as meninas, principalmente as que trabalham em boates,
sempre estão com modelos exclusivos. Temos uma colega
em Porto Alegre, por exemplo, que desenha os modelos das
colegas que trabalham com ela. Pensamos então que
poderíamos dar visibilidade para essa moda.
Como
é composta a grife? Existem algumas linhas de coleção,
certo?
A grife tem a linha batalha, que são as
roupas de trabalho das prostitutas; linha laser com biquínis,
cangas, batas; linha ativismo com as camisetas; e a linha
folia com roupas para carnaval.
A
Daslu está processando vocês pelo uso do nome.
Como está esse processo? Que providências a
ONG está tomando?
A
Daslu nos notificou extra-judicialmente nos dando 10 dias
para parar de usar o nome Daspu ao fim dos quais poderíamos
ser processadas civil e penalmente. O prazo de 10 dias venceu
ontem (quinta-feira) e até agora ainda não
recebemos citação. Temos um advogado que está
acompanhando atentamente o desenrolar da história.
A questão mais séria da notificação
é o grande preconceito contra nós que está
explicitado quando eles dizem que estamos "denegrindo"
o nome da Daslu.
Me
conte como foi o lançamento da grife na última
segunda-feira. Como foi a reação do público?
Foi um momento muito importante para todos nós, havia
um público grande querendo comprar roupas Daspu,
muitos jornalistas e fotógrafos e um grande apoio
de todas as pessoas que por lá passavam. Ficamos
muito emocionados porque as prostitutas não estavam
com medo de aparecer em fotos e notícias de jornal
e o público em geral estava com muito carinho pelo
que estamos fazendo. O lançamento mostrou como a
Daspu está ajudando na luta contra o estigma. A coleção
completa vai ser lançada em março e queremos
participar de outros desfiles com outras grifes, tipo Fashion
Rio, Mercado Mundo Mix etc.
Quem
pode consumir os produtos da grife? Há como comprá-los?
Vocês pretendem "expandir" o conceito para
o consumidor geral?
Achamos
que todas as pessoas podem usar nossas roupas. Queremos
mostrar roupas sexies, sem vulgaridade e com a marca do
estilo prostituta de ser.
A
comunidade gay (principalmente as drag queens) tem se identificado
muito com a marca. Mas vocês acreditam que há
formas de atingir outros públicos também?
Ficamos
muito felizes em saber que as drags se identificam com nossa
moda e queremos elas, prostitutas do Brasil e mulheres casadas
ou solteiras. Estamos também produzindo camisetas
para homens de vários modelos. Sempre com a marca
Daspu.
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