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“A Daspu está ajudando na luta contra o estigma”
Coordenadora da grife criada por prostitutas fala sobre a polêmica envolvendo a marca

Por Paco Llistó
12/12/2005

Elas também podem. E não devem nada para as grifes mais famosas. Pelo menos não na criatividade e irreverência. Prostitutas das mais variadas zonas de prostituição do Rio de Janeiro, integrantes da ONG Davida, ganharam a atenção da mídia nas últimas semanas depois que começaram a divulgar sua grife própria, carinhosamente intitulada Daspu, trocadilho óbvio com a butique de luxo paulistana.

Na última segunda-feira, as mulheres apresentaram a coleção em plena praça Tiradentes, conhecido ponto de prostituição do Rio. A reação do público foi excelente, como não poderia deixar de ser. Mas a aceitação positiva da mídia e da sociedade não bastam: a Daspu quer ser uma das grifes a desfilar na Fashion Rio, importante evento de moda do País. É o que conta a coordenadora da grife, a ex-prostituta Gabriela Leite, que acredita que a Daspu “está ajudando na luta contra o estigma”.

Em entrevista ao Mix Brasil, Gabriela fala sobre o surgimento da grife e conta como é o trabalho das 22 mulheres que participam de sua criação. Na opinião da coordenadora, o envolvimento das prostitutas com a grife ajuda na auto-estima “porque uma moda que sempre foi considerada no imaginário das pessoas, inclusive de nós mesmas, como um estereótipo de puta, é hoje uma moda que estamos colocando para cima”. Para cima e, em breve, para as passarelas do mundo.

Leia trechos da entrevista

Como surgiu a grife?
Sempre tivemos o sonho de ter um projeto que rendesse dinheiro para desenvolver outros projetos da missão de Davida, que é primordialmente a luta pelos direitos das prostitutas. No aniversário do Davida, fizemos uma reunião e pensamos o que seria um projeto rentável. Chegamos à conclusão de que o melhor seria uma grife, até porque roupas são sempre um barato! No meio da reunião alguém falou Daspu e assim a grife foi batizada.

Quantas pessoas trabalham no projeto? Como ele é realizado?
Estamos no início de nossas atividades. Na verdade nosso plano era lançar a Daspu e a coleção em março. De alguma forma chegou aos ouvidos do Elio Gaspari [colunista do jornal O Globo] e, como bom jornalista, ele colocou uma nota em sua coluna. Fomos pegas de "calça curta" e assim iniciamos. Somos 22 prostitutas que, com a ajuda da equipe do Davida, estamos desenvolvendo modelos e confeccionando. Estamos também com três modelos de camisetas: Daspu, Prazeres da Vida (nosso bloco de carnaval na Praça Tiradentes) e Beijo da Rua (nosso jornal) que podem ser vistas no site da Daspu (www.daspu.com.br).

Me fale um pouco sobre o trabalho da ONG. Há quanto tempo ela existe e quais trabalhos realiza?
A Davida foi fundada em 1992 e nasceu da necessidade que sentimos em sistematizar nossos trabalhos de ativismo. Davida tem como missão promover a cidadania das prostitutas e desenvolve os seguintes trabalhos: luta pela aprovação do Projeto de Lei que regulamenta a profissão; prevenção das DST/HIV/Aids no meio da prostituição em 29 cidades do Sudeste como também em 15 cidades do Estado do Rio de Janeiro; edição e distribuição do jornal Beijo da Rua para associações de prostitutas e simpatizantes em todo o Brasil; assessoria à formação de associações de prostitutas no Brasil; organização e sistematização da documentação e biblioteca sobre prostituição para consultas; núcleo de pesquisa sobre prostituição, que no momento está terminando um livro sobre história oral de 8 prostitutas do Rio de Janeiro; intervenções urbanas/culturais (Mulheres Seresteiras - prostitutas que cantam na Praça Tiradentes, Cabaré Davida - peça teatral de rua sobre prevenção de DST/HIV/Aids e fundação e participação no Bloco Prazeres Davida).

As prostitutas, de forma em geral, sentem necessidade de trabalhar com algo que as ajude a melhorar a auto-estima. Vocês consideram que esse trabalho colabora nesse sentido? Que outras formas a ONG encontrou para que as prostituas possam fugir da marginalização?
Sem dúvida nenhuma a Daspu ajuda a melhorar a auto-estima das prostitutas, porque uma moda que sempre foi considerada no imaginário das pessoas, inclusive de nós mesmas, como um estereótipo de puta, é hoje uma moda que estamos colocando pra cima. Outras formas de trabalho são as matérias do Beijo da Rua, o Mulheres Seresteiras que acontece toda última quinta-feira do mês onde as prostitutas cantam e encantam, nossos encontros e seminários, oficinas e discussões sobre a profissão. Tudo isso para que a prostituta perceba que ela é sim uma cidadã desse país e como tal deve ser respeitada.

Quem são as prostitutas que participam da ONG e ajudaram a construir a grife?
São prostitutas das várias áreas de prostituição do Rio de Janeiro (Praça Tiradentes, Praça Mauá, Copacabana e boates).

Como é estruturada a grife? Existe um estilista responsável pelo design?

A grife é um projeto do Davida para ajudar na sustentabilidade de nossas ações como também para dar maior visibilidade às prostitutas, lutando contra o estigma e o preconceito.

Fora o trocadilho óbvio com o nome "Daslu", em que mais vocês se inspiraram para criar a grife? Nos inspiramos principalmente na moda das prostitutas. Percebemos que as meninas, principalmente as que trabalham em boates, sempre estão com modelos exclusivos. Temos uma colega em Porto Alegre, por exemplo, que desenha os modelos das colegas que trabalham com ela. Pensamos então que poderíamos dar visibilidade para essa moda.

Como é composta a grife? Existem algumas linhas de coleção, certo?
A grife tem a linha batalha, que são as roupas de trabalho das prostitutas; linha laser com biquínis, cangas, batas; linha ativismo com as camisetas; e a linha folia com roupas para carnaval.

A Daslu está processando vocês pelo uso do nome. Como está esse processo? Que providências a ONG está tomando?
A Daslu nos notificou extra-judicialmente nos dando 10 dias para parar de usar o nome Daspu ao fim dos quais poderíamos ser processadas civil e penalmente. O prazo de 10 dias venceu ontem (quinta-feira) e até agora ainda não recebemos citação. Temos um advogado que está acompanhando atentamente o desenrolar da história. A questão mais séria da notificação é o grande preconceito contra nós que está explicitado quando eles dizem que estamos "denegrindo" o nome da Daslu.

Me conte como foi o lançamento da grife na última segunda-feira. Como foi a reação do público?
Foi um momento muito importante para todos nós, havia um público grande querendo comprar roupas Daspu, muitos jornalistas e fotógrafos e um grande apoio de todas as pessoas que por lá passavam. Ficamos muito emocionados porque as prostitutas não estavam com medo de aparecer em fotos e notícias de jornal e o público em geral estava com muito carinho pelo que estamos fazendo. O lançamento mostrou como a Daspu está ajudando na luta contra o estigma. A coleção completa vai ser lançada em março e queremos participar de outros desfiles com outras grifes, tipo Fashion Rio, Mercado Mundo Mix etc.

Quem pode consumir os produtos da grife? Há como comprá-los? Vocês pretendem "expandir" o conceito para o consumidor geral?
Achamos que todas as pessoas podem usar nossas roupas. Queremos mostrar roupas sexies, sem vulgaridade e com a marca do estilo prostituta de ser.

A comunidade gay (principalmente as drag queens) tem se identificado muito com a marca. Mas vocês acreditam que há formas de atingir outros públicos também?
Ficamos muito felizes em saber que as drags se identificam com nossa moda e queremos elas, prostitutas do Brasil e mulheres casadas ou solteiras. Estamos também produzindo camisetas para homens de vários modelos. Sempre com a marca Daspu.

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