27/08/2002 - 00h00

Sexo, Amor e Chocolate

Essa semana recebi um email muito engraçado : "Porque chocolate é melhor do que sexo?". O texto enfatiza ironicamente as supostas vantagens de ser apaixonado por um objeto inanimado. De acordo com o autor anônimo: "
1.O chocolate satisfaz mesmo quando ele amolece.
2.Você pode comer chocolate no carro sem ser interrompido pelo guarda.
3.Você pode comer chocolate até na frente da sua mãe.
4.Se você morder com força, o chocolate não reclama.
5.Duas pessoas do mesmo sexo podem comer chocolate sem serem chamadas por nomes feios.
6.Chocolate não fala.
7.Você pode pedir chocolate a alguém sem levar um tapa na cara.
8.Chocolate não deixa pêlos na sua boca.
9.Você não precisa mentir para o chocolate.
10.O chocolate não liga se você é virgem ou não.
11.Você pode comer chocolate quando está menstruada. 12.Você pode comer chocolate a qualquer dia da semana. 13.Um bom chocolate é fácil de se encontrar.
14.Você nunca é muito jovem ou muito velho para o chocolate.
15.Quando você come chocolate os vizinhos não ouvem.
16.O tamanho do chocolate não importa, apenas o prazer que ele proporciona.
17.O chocolate cheira bem.
18.Não dói comer chocolate pela primeira vez.
19.Você pode levar o chocolate na bolsa.
20.Você pode comer chocolate que nunca vai engravidar.
21.Você não precisa usar camisinha pra comer chocolate.
22.Se o seu filho ver você comendo chocolate, ele não vai fazer nenhuma pergunta.
23.Ninguém termina um casamento por falta de chocolate."

Claro que o texto é uma piada que não é pra ser levada a sério. Mas o texto tem uma premissa interessante e questionável. Lidar com um objeto inanimado é mais fácil que lidar com pessoas. Na realidade poderíamos trocar o chocolate por drogas, sexo sem envolvimento/ pago, ou comida . Qual a característica destes objetos e deste tipo de relação? Estes objetos proporcionam prazer e justamente por se tratarem de objetos acabam por se transformar num prazer bastante disponível. Na realidade é precisamente a facilidade do acesso a tais objetos que faz com que o sujeito procure este tipo de satisfação que vai exigir um menor gasto de energia. Claro que toda pessoa sensata sabe os riscos que este tipo de modalidade compulsiva causa a longo prazo. Mas é exatamente aí que mora o perigo. Os problemas só aparecem mais tarde, quando muitas vezes o sujeito já esta dependente psicologicamente deste tipo de satisfação "fast food". Há uma tentativa, feita por parte dos mais diversos setores da sociedade, de fazer um discurso informativo que ao explicitar estes riscos supostamente previniria o futuro usuário de se tornar um dependente. A falha deste tipo de pregação é que ao bradar os males do sexo, das drogas, do chocolate, etc., e procurar omitir o prazer indiscutível que estas práticas produzem, acaba por perder em credibilidade. O raciocínio é mais ou menos assim : "Eles falam que é tão ruim, causa tanto mal, mas o que eu sinto é tão prazeroso, logo, eles só podem estar mentindo!". Claro que não dá pra misturar drogas, sexo e chocolate,pois cada um vai implicar numa relação particular com suas especificidades, mas o que estou tentando argumentar é que todos produzem um prazer imediato que não pode ser negado. O outro problema é a questão da disponibilidade. O que me faz lembrar um ditado popular : "A diferença entre sexo pago e sexo por amor é que o primeiro geralmente sai mais barato". Com algumas restrições o sexo rápido sem envolvimento das famosas "caçadas" visam produzir o mesmo efeito : máximo prazer com o mínimo de custo emocional. Então a questão aqui não é mais negar o prazer, nem a facilidade de sua obtenção. Mas questionar o que esta prática pode ensinar para o nosso psiquismo quando realizada excessivamente. Podemos dizer, correndo o risco de sermos simplistas, que esta hábito pode deixar o nosso psiquismo "preguiçoso". Ou seja, tenderíamos a previlegiar o prazer instantâneo. Bem sabemos que a comida congelada é mais rápida e mais prática entretanto não necessariamente mais saborosa. E também é verdade que o ato de cozinhar pode ser trabalhoso mas também pode ser em si mesmo prazerozo. Ou seja, pode haver um prazer no próprio processo e não somente no seu objetivo final. Obviamente estou querendo refletir junto com vocês sobre a diferença entre uma trepada rápida e o lento trabalho de conquista amorosa. Namorar implica em negociar, em renunciar, mas também em ter muito prazer no estar com o outro, em fazer coisas juntos, e uma série de possibilidades que emergem do conhecimento mutuo e da segurança do vinculo. Talvez exista aqui o problema de que a midia prega a relação amorosa como sendo instantânea e natural. A idéia transmitida é que desde que haja amor todo resto é resolvido por "osmose", simplismente tudo aconteceria como num passe de mágica. Sabemos que essa é uma versão achocolatada e idealizada do amor. Assim diante do primeira dificuldade, da primeira diferença de interpretação do mundo, podemos recorrer ao chocolate ou ao sexo fácil como alternativa a nossa angústia diante de nossa dificuldade de encontrar soluções criativas para a vida cotidiana a dois. O que estou tentando dizer é que apesar de trabalhosa a relação a dois pode proporcionar um tipo de experiência que nenhum chocolate suiço pode proporcionar e ainda por cima emagrece e não dá colesterol. Gostaria de fazer um último adendo. A palavra "preguiçoso" é só uma metáfora pois as pessoas que por ventura se tornam realmente dependentes de sexo, chocolate ou que apresentam qualquer outra compulsão, não escolheram isso por preguiça. Os determinantes deste tipo de posição sintomática frente a vida são de origem histórica e inconsciente, portanto não merecem críticas ou acusações uma vez que na realidade requerem cuidados e em certos casos tratamento psicoterápico.

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