11/06/2009 - 12h00
TijolinhoAo começar este texto sobre Bricktop (Ada Beatrice Queen Victoria Louise Virginia Smith) - certamente levada pelo meu inconsciente - caiu a ficha: ela é a versão franco-americana da Tia Zulmira. Personagem de Stanislaw Ponte Preta, codinome do jornalista, crítico musical e expert em jazz Sergio Porto (1923-1968).
Tia Zulmira era demais: filósofa atemporal de humor ferino e picante, contava, modestamente, que havia ensinado psicanálise a Freud, teoria da relatividade a Einstein, música a Chopin, etc.
Terminada a guerra de 1914/18, muitos "inferninhos" de negros animavam Montmartre e eram frequentados por americanos desencantados e milionários que faziam História.
Assim também Bricktop - ("Cabeça de tijolo" era uma negra de tez com os cabelos pintados de vermelho), dançarina, cantora, proprietária do nightclub "Chez Bricktop" em Paris, de 1924 a 1961 (a financiadora dessa empreitada foi a figurinista Elsa Schiaparelli) - foi classificada como "uma das mais legendárias figuras e importante formadora de opinião da história cultural americana no século 20". Em seu alentado currículo amoroso está o nome de Josephine Baker, entre outras e outros.
Frank Sinatra declarou que, com ela, aprendeu a fazer sua perfeita divisão de sílabas nas canções, o que facilitava o entendimento de qualquer ouvinte, em qualquer região do mundo.
Cabeça de tijolo
Nascida em West Virginia (14 de agosto de 1894), mais nova de 4 filhos. Quando da morte do pai, precisou começar a trabalhar muito cedo. Aos 16 anos e já famosa participante das turnês TOBA (uma associação de proprietários de teatro) e do vaudeville, Ada Smith passou a ser conhecida pelo apelido.
Aos vinte anos, a fama levou-a a Nova York.
Quando trabalhava na Barron's Exclusive Club, uma casa noturna no Harlem, recomendou ao proprietário um rapaz, compositor de jazz e pianista que ela achava talentoso, chamado Duke Ellington(1899- 1974).
Já em Paris, ensinou a um outro compositor chamado Cole Porter o "charleston", então a dança da moda.
Porter, morador da Cidade Luz, ficou encantado e dedicou -se a divulgar a nova dança transgressora em "deliciosas festas" no The Music Box, no Le Grand Duc e, depois, no "Chez Bricktop", clubes que a moça dirigiu com grande competência.
Bricktop trabalhou para o governo francês nas emissões radiofônicas durante a Segunda Guerra Mundial e saiu de Paris nessa época, deixando saudosos o Duque e Duquesa de Windsor e F. Scott Fitzgerald, que ambientou no Chez Bricktop seu conto Babylon Revisited (1931). (Fitzgerald escreveu que seu maior trunfo na vida foi ter descoberto Bricktop antes de Cole Porter).
Teve um doce caso de amor com uma dançarina iniciante, Josephine Baker, contado por um dos filhos da própria, Jean Claude Baker, em seu livro "Josephine: The Hungry Heart".
A canção de Cole Porter
"Miss Otis Regrets" foi escrita especialmente para ela, também a inspiradora de Django Reinhardt e Stephane Grappelli numa canção chamada, adivinhem... "Brick Top".
Nossa biografada foi citada, elogiada, descrita, recomendada como grande artista por Howard Hughes, Ernest Hemingway, Maya Angelou, Evelyn Waugh e T. S. Eliot.
Em 1972, gravou seu único disco "So Long Baby," com Cy Coleman. Por incrível que pareça, Bricktop achava que não tinha talento e preferia ser chamada de "performer". Em 1974, atuou no filme "Honeybaby, Honeybaby" onde fazia papel dela mesma cuidando da boate "Bricktop's" em Beirute, Líbano.
Em 1983, fez pequeno papel no filme Zelig, de Woody Allen. Na cena que protagonizou, Bricktop, que recebia Zelig en seu clube, esperava por Cole Porter para que alterasse a letra de "You're the top" para "You're the top, you're Leonard Zelig."
"Bricktop by Bricktop", autobiografia escrita com James Haskins, foi publicada em 1983 pela "Welcome Rain Publishers" e traz piadas sobre ricos, poderosos e famosos como John Barrymore, Jelly Roll Morton, Jack Johnson, Legs Diamond, John S
